Prof. Dr.  Jack Brandão
 
 
Literatura
 
 

SONETOS DE GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

 

RELIGIOSA

 

Ao Menino Jesus de N. Senhora das Maravilhas, a quem infiéis despedaçaram achando-se a parte do peyto

 

Entre as partes do todo a melhor parte 
Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo 
Se na parte do peito o quis pôr todo, 
O peito foi do todo a melhor parte

 

Parta-se pois de Deus o corpo em parte, 
Que a parte, em que Deus fiou o amor todo 
Por mais partes, que façam deste todo, 
De todo fica intacta essa só parte.

 

O peito já foi parte entre as do todo, 
Que tudo mais rasgaram parte a parte; 
Hoje partem-se as partes deste todo:

 

Sem que do peito todo rasguem parte, 
Que lá quis dar por partes o amor todo, 
E agora o quis dar todo nesta parte.

 

Ao braço do mesmo Menino Jesus quando appareceo

 

O todo sem a parte não é todo, 
A parte sem o todo não é parte, 
Mas se a parte o faz todo, sendo parte, 
Não se diga, que é parte, sendo todo.

 

Em todo o Sacramento está Deus todo, 
E todo assiste inteiro em qualquer parte, 
E feito em partes todo em toda a parte, 
Em qualquer parte sempre fica o todo.

 

O braço de Jesus não seja parte, 
Pois que feito Jesus em partes todo, 
Assiste cada parte em sua parte.

 

Não se sabendo parte deste todo, 
Um braço, que lhe acharam, sendo parte, 
Nos disse as partes todas deste todo.

 

A N. Senhor Jesus Christo com actos de arrependido e suspiros de amor

 

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade, 
É verdade, meu Deus, que hei delinquido, 
Delinquido vos tenho, e ofendido, 
Ofendido vos tem minha maldade.

 

Maldade, que encaminha à vaidade, 
Vaidade, que todo me há vencido; 
Vencido quero ver-me, e arrependido, 
Arrependido a tanta enormidade.

 

Arrependido estou de coração, 
De coração vos busco, dai-me os braços, 
Abraços, que me rendem vossa luz.

 

Luz, que claro me mostra a salvação, 
A salvação pertendo em tais abraços, 
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.

 

A Christo S. N. Crucificado estando o poeta na última hora de sua vida.

 

Meu Deus, que estais pendente em um madeiro, 
Em cuja lei protesto de viver, 
Em cuja santa lei hei de morrer 
Animoso, constante, firme, e inteiro.

 

Neste lance, por ser o derradeiro, 
Pois vejo a minha vida anoitecer, 
É, meu Jesus, a hora de se ver 
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

 

Mui grande é vosso amor, e meu delito, 
Porém pode ter fim todo o pecar, 
E não o vosso amor, que é infinito.

 

Esta razão me obriga a confiar, 
Que por mais que pequei, neste conflito 
Espero em vosso amor de me salvar.

 

Ao mesmo assumpto e na mesma Occasião

 

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, 
Da vossa piedade me despido, 
Porque quanto mais tenho delinquido 
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

 

Se basta a vos irar tanto um pecado, 
A abrandar-vos sobeja um só gemido, 
Que a mesma culpa, que vos há ofendido, 
Vos tem para o perdão lisonjeado.

 

Se uma ovelha perdida, e já cobrada 
Glória tal, e prazer tão repentino 
vos deu, como afirmais na Sacra História:

 

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada 
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino, 
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

AMOR

Quiz o poeta embarcar-se para a cidade e antecipando a notícia à sua senhora, lhe vio humas derretidas mostras de sentimento em verdadeyras lagrymas de amor

 

Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado! 
Incêndio em mares de água disfarçado! 
Rio de neve em fogo convertido!

 

Tu, que um peito abrasas escondido, 
Tu, que em um rosto corres desatado, 
Quando fogo em cristais aprisionado, 
Quando cristal em chamas derretido.

 

Se és fogo como passas brandamente? 
Se és neve, como queimas com porfia? 
Mas ai! que andou Amor em ti prudente.

 

Pois para temperar a tirania, 
Como quis, que aqui fosse a neve ardente, 
Permitiu, parecesse a chama fria.

 

VANITAS

 

Moraliza o poeta nos ocidentes do Sol a inconstancia dos bens do mundo.

 

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, 
Depois da Luz se segue a noite escura, 
Em tristes sombras morre a formosura, 
Em contínuas tristezas a alegria.

 

Porém se acaba o Sol, por que nascia? 
Se formosa a Luz é, por que não dura? 
Como a beleza assim se transfigura? 
Como o gosto da pena assim se fia?

 

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza, 
Na formosura não se dê constância, 
E na alegria sinta-se tristeza.

 

Começa o mundo enfim pela ignorância, 
E tem qualquer dos bens por natureza 
A firmeza somente na inconstância.

 

FESCENINA

 

A caridade com que esta mesma Vicencia agazalhava trez amantes

 

Com vossos três amantes me confundo, 
Mas vendo-vos com todos cuidadosa, 
Entendo, que de amante, e amorosa 
Podeis vender amor a todo o mundo.

 

Se de amor vosso peito é tão fecundo, 
E tendes essa entranha tão piedosa, 
Vendei-me de afeição uma ventosa, 
Que é pouco mais que um selamim sem fundo.

 

Se tal compro, e nas cartas há verdade, 
Eu terei quando menos trinta Damas, 
Que infunde vosso amor pluralidade.

 

E dirá, quem me vir com tantas chamas, 
Que Vicência me fez a caridade, 
Porque o leite mamei das suas mamas.

 

ENCOMIÁSTICA

À morte do Padre Antonio Vieyra

 

Corpo a corpo à campanha embravecida, 
Braço a braço à batalha rigorosa 
Sai Vieira com sanha belicosa, 
De impaciente a morte sai vestida.

 

Invistem-se cruéis, e na investida 
A morte se admirou menos lustrosa, 
Que Vieira com força portentosa 
Sua ira cruel prostrou vencida.

 

Porém ele vendo então, que na empresa 
Deixava a morte à morte: e ninguém nega, 
Que seus foros perdia a natureza;

 

E porque se exercite bruta, e cega 
Em devorar as vidas com fereza, 
A seu poder rendido a sua entrega.

 

SATÍRICA

Descreve o que era realmente naquelle tempo a cidade da Bahia de mais enredada por menos confusa

 

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

 

Em cada porta um frequentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

 

Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

 

Estupendas usuras nos mercados,
odos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.



 

 

 

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