A hua fonte que nasceo milagrosamente ao pé de
huma capella de N. Senhora das Neves na Freguezia das Avelãas.
Desse cristal, que desce transparente,
Nesse aljôfar, que corre sucessivo,
Desce a nós o remédio compassivo,
Corre a nós o desejo diligente.
De vosso ser lhe nasce o ser corrente,
Manancial de graças sempre vivo,
Que geralmente assim distributivo
Tanta prata nos dá liberalmente.
Porém, Virgem das Neves, se sois Fonte,
Como enfim nos cantares se descreve,
E se sois sol, suposto o sol se afronte:
Esta fonte, Senhora, a vós se deve;
Mas que muito, que estando o sol no monte,
Nos dê no vale derretida a neve.
A N. Senhora da Madre de
Deos indo lá o poeta.
Venho, Madre de Deus, ao Vosso monte,
E reverente em vosso altar sagrado,
Vendo o Menino em berço argenteado,
O sol vejo nascer desse Horizonte.
Oh quanto o verdadeiro Faetonte
Lusbel, e seu exército danado
Se irrita, de que um braço limitado
Exceda na soltura a Alcidemonte.
Quem vossa devoção não enriquece?
A virtude, Senhora, é muito rica,
E a virtude sem vós tudo empobrece.
Não me espanto, que quem vos sacrifica
Essa hóstia do altar, que vos ofrece,
Que vós o enriqueçais, se a vós a aplica.
Ao Menino Jesus de N.
Senhora das Maravilhas, a quem infiéis despedaçaram achando-se a parte
do peyto.
Entre as partes do todo a melhor parte
Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo
Se na parte do peito o quis pôr todo,
O peito foi do todo a melhor parte
Parta-se pois de Deus o corpo em parte,
Que a parte, em que Deus fiou o amor todo
Por mais partes, que façam deste todo,
De todo fica intacta essa só parte.
O peito já foi parte entre as do todo,
Que tudo mais rasgaram parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste todo:
Sem que do peito todo rasguem parte,
Que lá quis dar por partes o amor todo,
E agora o quis dar todo nesta parte.
Ao braço do mesmo Menino
Jesus quando appareceo.
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
Ao Menino Jesus do
Coadjutor de S. Antonio que sendo antigo he muyto bello.
Oh, quanta divindade, oh quanta graça,
Menino, em vosso vulto sacro, e belo
Infunde a mão de tal gentil modelo,
Inspira o Autor de tão divina traça!
Se o tempo aos mais vultos desengraça
Na vossa Imagem não deslustra um pêlo:
Reverente o tratou com tal desvelo,
Que o que eleva menino, velho embaça.
Quanto a idade usurpa de beleza
Nos que somos mortais, paga em respeito,
Venerações, que atrai a antiguidade.
Mas de vossa escultura a gentileza
Tem trocado do tempo o edaz efeito,
Venera-se a beleza, ama-se a idade.
A N. Senhor Jesus Christo
com actos de arrependido e suspiros de amor.
Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinquido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.
Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.
A Christo S. N. Crucificado
estando o poeta na última hora de sua vida.
Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.
Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.
Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.
Ao mesmo assumpto e na
mesma Occasião.
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Afirma que a fortuna, e o
fado não é outra cousa mais que a providencia divina.
Isto, que ouço chamar por todo o mundo
Fortuna, de uns cruel, d’outros ímpia,
É no rigor da boa teologia
Providência de Deus alto, e profundo.
Vai-se com temporal a Nau ao fundo
carregada de rica mercancia,
Queixa-se da Fortuna, que a envia,
E eu sei, que a submergiu Deus iracundo.
Mas se faz tudo a alta Providência
De Deus, como reparte justamente
À culpa bens, e males à inocência?
Não sou tão perspicaz, nem tão ciente,
Que explique arcanos d'alta Inteligência,
Só vos lembro, que é Deus o providente.
Ao dia do juizo.
O alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado
O resplendor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido!
Rompa todo o criado em um gemido,
Que é de ti mundo? onde tens parado?
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.
Soa a trombeta da maior altura,
A que a vivos, e mortos traz o aviso
Da desventura de uns, d’outros ventura.
Acabe o mundo, porque é já preciso,
Erga-se o morto, deixe a sepultura,
Porque é chegado o dia do juízo.
As lagrimas que se diz,
chorou N. Senhora de Monsarrate.
Temor de um dano, de uma oferta indício,
Pronta em divina Origem desatado,
Que tendo por horrível ao pecado,
Sois a Deus agradável sacrifício.
Esperança da fé, terror do vício,
Enigma em dois assuntos decifrado,
Que pareceis castigo ameaçado
E sois executado benefício.
Duas cousas qualquer delas possível
Tendes, ó pranto, para ser forçoso,
e envolveis o prodígio para crível.
Tendo um motivo ingrato, outro piedoso,
Um na minha dureza aborrecível,
Outro no nosso amparo generoso.
LÍRICA AMOROSA
Rompe o poeta com a
primeyra impaciencia querendo declarar-se e temendo perder por ouzado.
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Segunda impaciencia do
poeta.
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pertende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera sempre alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
Quiz o poeta embarcar-se
para a cidade e antecipando a notícia à sua senhora, lhe vio humas
derretidas mostras de sentimento em verdadeyras lagrymas de amor.
Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!
Tu, que um peito abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.
Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! que andou Amor em ti prudente.
Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.
VANITAS
Argumenta o poeta, (philosophando enganos)
razões de fino com perseverar a todo o rigor de seu desprêzo.
Já desprezei, sou hoje desprezado,
Despojo sou, de quem triunfo hei sido,
E agora nos desdéns de aborrecido
Desconto as ufanias de adorado.
O amor me incita a um perpétuo agrado,
O decoro me obriga a um justo olvido,
E não sei, no que emprendo, e no que lido,
Se triunfe o respeito, se o cuidado.
Porém vença o mais forte sentimento,
Perca o brio maior autoridade,
Que é menos o ludíbrio, que o tormento.
Quem quer, só do querer faça vaidade,
Que quem logra em amor entendimento,
Não tem outro capricho, que a vontade.
Moraliza o poeta seu
desasocego na harmonia incauta de hum passarinho, que chama sua morte a
compaços de seu canto.
Contente, alegre, ufano Passarinho,
Que enchendo o Bosque todo de harmonia,
Me está dizendo a tua melodia,
Que é maior tua voz, que o teu corpinho.
Como da pequenhez desse biquinho
Sai tamanho tropel de vozeria?
Como cantas, se és flor de Alexandria?
Como cheiras, se és pássaro de arminho?
Simples cantas, e incauto garganteias,
Sem ver, que estás chamando o homicida,
Que te segue por passos de garganta!
Não cantes mais, que a morte lisonjeias;
Esconde a voz, e esconderás a vida,
Que em ti não se vê mais, que a voz, que canta.
Moraliza o poeta nos
ocidentes do Sol a inconstancia dos bens do mundo.
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
Enfada-se o poeta do
escasso proceder de sua sorte.
Oh que cansado trago o sofrimento,
E que injusta pensão de humana vida,
Que dando-me o tormento sem medida,
Me encurta o desafogo de um contento!
Nasceu para oficina do tormento
Minha alma a seus desgostos tão unida,
Que por manter-se em posse de afligida,
Me concede os pesares de alimento.
Em mim não são as lágrimas bastantes
contra incêndios, que ardentes, me maltratam,
Nem estes contra aqueles são possantes.
Contrários contra mim em paz se tratam,
E estão em ódio meu tão conspirantes,
Que só por me matarem, não me matam.
No fluxo e refluxo da mare
encontra o poeta insentivo para recordar seus males.
Seis horas enche e outras tantas vaza
A maré pelas margens do Oceano,
E não larga a tarefa um ponto no ano,
Depois que o mar rodeia, o sol abrasa.
Desde a esfera primeira opaca, ou rasa
A Lua com impulso soberano
Engole o mar por um secreto cano,
E quando o mar vomita, o mundo arrasa.
Muda-se o tempo, e suas temperanças.
Até o céu se muda, a terra, os mares,
E tudo está sujeito a mil mudanças.
Só eu, que todo o fim de meus pesares
Eram de algum minguante as esperanças,
Nunca o minguante vi de meus azares.
POESIA FESCENINA
Chegando ali o poeta com
Thomaz Pinto Brandão conta, o que passou com Antonica huma deshonesta
meretriz.
Chegando à Cajaíba, vi Antonica,
e indo-lhe apolegar, disse-me caca,
gritou Tomás em tono de matraca
Bu bu pela mulher, que foge à pica.
Eu, disse ela, não sou mulher de crica,
que assomo como rato na buraca,
quem me lograr há de ter boa ataca,
que corresponda ao vaso, que fornica.
Nunca me fez mister dizer, quem merca,
porque a minha beleza é mar que surca
alto baixel, que traz cutelo, e forca.
E pois você tem feito, com que perca,
diga essas confianças à sua urca,
que eu sei, que em cima de urca é puta porca.
A caridade com que esta
mesma Vicencia agazalhava trez amantes.
Com vossos três amantes me confundo,
Mas vendo-vos com todos cuidadosa,
Entendo, que de amante, e amorosa
Podeis vender amor a todo o mundo.
Se de amor vosso peito é tão fecundo,
E tendes essa entranha tão piedosa,
Vendei-me de afeição uma ventosa,
Que é pouco mais que um selamim sem
fundo.
Se tal compro, e nas cartas há verdade,
Eu terei quando menos trinta Damas,
Que infunde vosso amor pluralidade.
E dirá, quem me vir com tantas chamas,
Que Vicência me fez a caridade,
Porque o leite mamei das suas mamas.
POESIA ENCOMIÁSTICA
À morte do Padre Antonio
Vieyra
Corpo a corpo à campanha embravecida,
Braço a braço à batalha rigorosa
Sai Vieira com sanha belicosa,
De impaciente a morte sai vestida.
Invistem-se cruéis, e na investida
A morte se admirou menos lustrosa,
Que Vieira com força portentosa
Sua ira cruel prostrou vencida.
Porém ele vendo então, que na empresa
Deixava a morte à morte: e ninguém nega,
Que seus foros perdia a natureza;
E porque se exercite bruta, e cega
Em devorar as vidas com fereza,
A seu poder rendido a sua entrega.
Descreve a Ilha de
Itaparica com sua aprazivel fertilidade, e louva de caminho ao Capitão
Luiz Carneyro homem honrado, e liberal, em cuja casa se hospedou.
Ilha de Itaparica, alvas areias,
Alegres praias, frescas, deleitosas,
Ricos polvos, lagostas deliciosas,
Farta de Putas, rica de baleias.
As Putas tais, ou quais não são más preias,
Pícaras, ledas, brandas, carinhosas,
Para o jantar as carnes saborosas,
O pescado excelente para as ceias.
O melão de ouro, a fresca melancia,
Que vem no tempo, em que aos mortais abrasa
O sol inquisidor de tanto oiteiro.
A costa, que o imita na ardentia,
E sobretudo a rica, e nobre casa
Do nosso capitão Luís Carneiro.
POESIA SATÍRICA
Descreve o que era
realmente naquelle tempo a cidade da Bahia de mais enredada por menos
confusa.
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
odos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.
A Vasco Marinho Falcão, que
sendo homem velho, e achacoso
se casou com huma mulher moça, e formosa
Tem Vasco para seus danos
.................................................... noventa anos,
e por mazela tem outra
............................................................ potra
há mais males que le apontes?
................................................ fontes.
Dessa sorte não me contes
que é galharda, e limpa a Dama,
que escolher quis para a cama
noventa anos, Potra, e Fontes
Tem na boca muito vivas
......................................................... gengivas,
com que as palavras acaba
...................................................... com baba,
tem uma tromba, que diz
.......................................................... nariz.
Dama, que empregar se quis
em tão suzanário rosto,
tenha por espelho ao gosto
gengivas, Baba, e Nariz.
Correm-lhe das luzes belas ...................................................... ramelas,
e que mais há, que lhe corra? ................................................... borra.
Mil vezes borrada morra
dama de tão pouca estima,
que quis para pôr em cima
ossos, Ramelas, e Borra.