À minha família
Choram por mim... Por mim a mãe querida
Em soluços — adeus — nem dizer pode...
Debalde balbucia; os lábios tremem,
E a dor a voz lhe embarga...
Banhado tem o rosto
De cristalino pranto, e cor de sangue
Os olhos já cansados.
Lá vejo o caro pai sisudo e grave,
A quem anos as faces enrugaram,
E a fronte encaneceram;
A mão ao filho estende, e a bênção lança:
Boa viagem, diz, boa viagem;
Deus te guie, e te traga
Na sua santa guarda,
Sempre digno de mim, da Pátria digno.
Memorandas palavras!
Palavras de meu pai... n'alma do filho
Ausente, eternas ficarão gravadas.
Ternos irmãos — adeus — me estão dizendo
Com tão fúnebre acento,
Como se eu condenado à morte fosse.
Um por um os abraço, e adeus lhes digo.
Quero partir... forcejo; os olhos cerro...
Porém a dor que o coração me preme,
Forças me tira, e me fraqueia os passos;
Em borbotões rebentam
Lágrimas, que enxugar em vão pretendo.
Que mão gelada é esta, que me embebe
Duro alfange no íntimo do peito?
Que mão desapiedada me retalha
O coração magoado?
Mão da saudade, és tu, eu te conheço.
Oh momento de ausência, como és agro!
Mais agro não me foi aquele dia
Em que co'a morte ao lado,
Quase caí do leito à sepultura.
Já brilhava a meus olhos moribundos
A luz de bento círio,
Que ante um sagrado Crucifixo ardia.
Chorava minha mãe, e seus cabelos
Sobre meu frio peito debruçavam-se.
Colocado entre o mundo e a Eternidade,
Meu ser se dividia, e ingente peso
O aflito coração me comprimia,
Como se férreos braços me cerrassem.
Ah! porque inteiro conservou-se o estame
Em luta tão cruel? E' qu'eu devia
Sofrer mais este golpe, e da existência
Não estava inda o círculo completo;
Assaz não tinha o Mundo conhecido,
Conhecê-lo devia.
Neste instante que a dor absorve todo,
Não me vigoram de um porvir brilhante
Lisonjeiras lembranças,
Sonhos falaces, esperanças loucas,
Que embriagam a mente do acordado.
Quisera aqui morrer, quisera nunca
Estranhas terras visitar, que outrora
Eu tanto cobiçara,
Antes que os pais deixar, irmãos e Pátria.
Mas uma estrela guia
A seu destino o homem.
Quem de Deus penetrar pode os arcanos?
Quem do Eterno à vontade opor-se pode?
Cumpra-se a minha estrela... E nós choremos,
Que num vale de lágrimas estamos.
Chorando nossas mães vida nos deram,
Chorando à luz nascemos, e mil vezes
Esta vida choramos, e na morte
Uma lágrima ainda se desliza
Dos revirados olhos:
Das lágrimas a fonte só se estanca,
Quando da vida apaga-se a centelha.
Pais, irmãos me rodeiam.
Onde estão os amigos? Um ao menos
Não me vem abraçar neste momento?
Um só não terei eu, que me acompanhe
Até à triste praia,
E o ósculo da amizade aí me imprima
Na hora da partida?
Eu vos conheço, amigos!
Convosco fique a paz, fique a alegria,
Venha o pesar comigo.
Caro pai, boa mãe, irmãos queridos,
Meu último suspiro vosso seja...
Adeus... adeus; eu parto.
Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833
O Vate
Por que cantas, oh Vate?
por que cantas?
Qual é tua missão? O que és tu mesmo?
Para ti nada é morto, nada é mudo;
Co'o sol, e o céu, e a terra, e a noite falas.
Tudo te escuta; e para responder-te,
Do passado o cadáver se remove,
E do túmulo seu a fronte eleva;
O presente te atende; e no futuro
Eternos vão soar os teus acentos!
Quando o vento em furor açouta as comas
Dos brasílicos bosques, voz tremenda
Igual a do trovão ao longe atroa,
E uma nuvem de flores se levanta,
Que o ar com seus eflúvios embalsama;
Assim, quando te agita o entusiasmo,
Dos lábios teus emana alma torrente
Troante e recendente de perfumes.
De mágico poder depositário,
Qual um gênio entre os homens te apresentas.
Ante ti não há rei, nem há vassalo;
Tu nos homens só vês virtude, ou vício.
Como um déspota, ufano em teus delírios,
Uns cercas de imortal auréola tua,
Outros condenas ao opróbio, e à morte.
Umas vezes soberbo, impetuoso,
Qual águia que sublime o céu devassa,
E do céu sobre a terra os olhos desce,
Teu ígneo, alado gênio, no ar suspenso:
Não, oh mortais, não vos pertenço, (exclama)
Eu sou órgão de um Deus; um Deus me inspira;
Seu intérprete sou; oh terra! ouvi-me.
Outras vezes, nas selvas meditando,
Sobre um tronco sentado, junto a um rio,
Que embalança da lua a argêntea cópia;
Como entre as folhas sussurrante vento
Gemer parece, e de algum mal carpir-se,
Tu gemes, e co'o verme te comparas,
Que arrasta pelo chão a inútil vida;
E vês nas águas, que a teus pés deslizam,
A imagem de teus dias fugitivos.
Fogem os dias como as águas fogem;
Mas da lua o clarão, que a água reflete,
Sem do lugar fugir, brilhando fica;
Tal sobre a terra, onde escoara a vida,
Resta do Vate a rutilante glória!
Quando ouve o sabiá troar nas várzeas
Do fero caçador a mortal arma,
Sufoca o sabiá seu canto, e foge:
Assim tu emudeces, quando estruge
Da civil guerra, e da discórdia o grito.
Mas quando à Pátria o inimigo insulta,
Armando o braço, e reforçando o peito,
No meio dos combates te arremessas,
Como o raio que estronda, e fere, aclara,
E após teus cantos a vitória marcha.
Vate, o que és tu? És tu mortal ou Nume?
Que Deus te abala o peito, e te enfurece,
Quando, como um vulcão que estoura em lavas
Que acesas rolam, tua voz desatas?
Oh como é grande o Vate, que arrojado
Da terra s'ergue como a labareda,
E vagando no céu como um meteoro,
Dos lábios solta a voz, e a vibra em raios,
Que o vício, e o crime ferem, pulverizam!
Canta, oh Vate! sagrados são teus cantos;
Canta, que o céu te inspira, o céu te inflama;
Canta, que apesar seu, te escuta o mundo,
E o vício de te ouvir treme de medo.
Não, não és um mortal quando tu cantas!
És o Arcanjo da justiça eterna!
Lâmina acesa, fulminante empunhas,
Com que prostras por terra a fronte ao crime,
Com outra mão elevas o homem justo.
Ou tu cantes a guerra, ou. amor cantes,
Ou louves do Senhor as maravilhas;
Ou do céu as angélicas belezas,
Ou do inferno os horrores nos retrates;
Ou sobre o esquife de um amigo chores,
Ou enfeites a campa da inocência;
Sempre teus versos, qual nectáreo rócio,
De inefável prazer a alma me embebem!
Ah não profanes o teu gênio, oh Vate!
O incenso só no altar queimar-se deve!
Em lago impuro não se banha o cisne,
Que manchar teme a cândida plumagem.
Imita o cisne; e como sempre as flamas
Sobem ao céu, ao céu teus hinos subam.
As riquezas que a terra oh avaro ofrece,
Mais valor para ti que o céu não tenham;
As riquezas da terra ao Vate servem
Para imagem da mística linguagem,
Como ao belo ideal dão vida as cores.
No dia em que da lira sons forçados
Venderes ao tirano em troco de ouro,
Nesse dia o céu deixa de inspirar-te;
Quebra essa lira, e cessa de ser Vate.
Quando a virgem do sol seu voto infringe,
Vedado lhe é tocar no sacro fogo;
D'alva c'roa de flores a despojam,
Adornos de vestal, e o nome perde;
Assim quando uma vez, oh Vate, atende,
Venais hinos os lábios teus verterem,
Deixarás de ser Vate; arranca a c'roa,
E co'o selo do opróbrio entra no mundo.
Opróbrio ao Vate que profana a lira!
Opróbrio, infâmia a quem insulta o Vate.
O Cristianismo
Na Catedral de Milão
Mal que à Natura se abre a inteligência,
E o primo pensamento a alma desperta,
Logo a idéia de Deus d'ela se apossa,
E a origem sua, e o seu destino aclara.
Súbito um fogo, mais que o sol brilhante
Que as gerações dos trópicos abrasa,
Mais veemente que os vulcões da terra,
N'alma se ateia, fogo inexaurível,
Casto fogo de amor, que interno a lavra,
E a Deus a sobe em espontâneo culto.
Não, o medo não foi quem sobre a terra
Os joelhos dobrou do homem primeiro,
E as mãos aos céus ergueu-lhe! Não, o medo
Não foi o criador da Divindade!
Foi o espanto, o amor, a consciência,
E a sublime efusão d'alma, e sentidos!
Viu o homem seu Deus por toda parte,
E sua alma exaltou-se de alegria.
Mas no amoroso êxtase não pára,
A interna adoração só lhe não basta,
Não se farta de amor, que amor sagrado
É invencível, poderosa força,
Que o espírito levanta ao infinito,
Como a atração os orbes equilibra
Na imensidade, a que escapar não podem.
Deve o espaço conter a sacra imagem
De sua adoração, devem os filhos,
Os netos devem nas futuras eras,
Vendo esta imagem, adorar o Eterno.
Mas, oh homem, que ousado intento é este?
Erguer um templo a Deus!... Que! porventura
Templo o espaço não é digno do Eterno?
As montanhas, o mar, os céus, os astros
Assaz não ornam do Senhor o templo?
Ou temes que em tão vasto santuário,
Nesse profundo abismo do infinito,
Vê-lo teus olhos míopes não possam?
Como possível é que espaço estreito
Abranja o Criador, que enche o Universo?
Mas pagas um tributo; — Ele to aceita.
Obreiro do Senhor, eia, trabalha,
Sem descanso trabalha dia, e noite;
Que teu Deus não repousa um só instante,
Para a ordem manter de tantos mundos.
Ah se ele um só minuto, repousasse,
Que seria de ti, deste Universo?
Alfim teu templo ergueste; reuniste
Tudo que há de mais belo sobre a terra,
E sec'los no trabalho se passaram!
Tudo aqui fala, tudo aqui revela
A força oculta que sustenta o homem,
E o destino imortal na Eternidade.
A rigidez do mármore, e a brancura
Duração, e pureza simbolizam;
A larga base, a altura, a esbelta forma,
A agulha, cuja ponta as nuvens rompe,
E parece querer fugir do espaço;
A áurea Virgem, que brilha em seu fastígio,
E este povo de estátuas, que a rodeiam,
Todas de branco mármore polido,
Que a glória do Senhor perene cantam;
Tudo, enfim tudo sem cessar proclama,
Que o pensamento que tão alto voa,
Que o pensamento que tais obras cria,
Que o pensamento que só Deus concebe,
Tem no tempo a existência, e não se curva
À lei que rege o habitador do espaço.
Tão simples como Deus, donde ele emana,
Não se aniquila como bruta mole;
Mas em louvor sem fim, a Deus unido,
Vive eternal em toda a Eternidade.
Assim é que o espírito celeste,
Que a massa humana anima, e nela impera,
De seu Deus concebendo a idéia pura,
Da terra se desprende se sublima,
E do sagrado amor nas ígneas asas
Sobe ao seio do Eterno, que o gerara.
Assim é que das lâmpadas do templo
Pirâmides de fogo se levantam,
E se perdem nos ares, qual se perde
O pensamento humano no infinito.
Santa Religião, sublime, augusta,
Tu a idéia de Deus esclareceste,
Idéia que, nas trevas que envolviam
A alma humana, brilhou como um relampo.
Divina inspiração, tu só podias
O espírito subir ao seu Princípio,
A despeito do mundo, e dos sentidos
Nem sempre verdadeiros. Tu revelas
Sacras verdades aos humanos úteis,
Que fora de teu grêmio embalde o homem
Orgulhoso procura; ao desgraçado
Oculta mão estendes caridosa:
Sempre consoladora, afável sempre,
Que mal há aí, que em ti cura não ache?
Ao som de tua voz misteriosa
Os errantes selvagens suspenderam
As mãos de sangue tintas, e prostrados
Sobre a terra, até ali inculta e brava,
A insólita voz tua repetiram
Em espontâneo arroubo. — A Natureza
Riu-se então, quando viu pela vez prima
Um homem abraçar o outro homem,
E em socorro comum viver jurarem.
Quis o homem tecer os teus louvores,
E a primeira palavra foi um hino,
O primeiro discurso Poesia.
E o homem, que até ali solto vagava,
Fraco, impotente entre animais ferozes,
Pelo místico cântico atraído,
A bronca penedia abandonando,
A viver começou em sociedade.
O gênio então nasceu! — Como para o mundo
Entre os astros o sol mais claro brilha,
E aos outros astros sua luz envia,
Deus o gênio acendeu entre mil almas,
Para ser o fanal da Humanidade.
Santa Religião, amor divino,
Que benefícios sobre a terra espalhas!
Quanto é misterioso o Ser que inflamas!
De quanto ele é capaz! Vejo donzelas,
Roboradas por ti, vencer a morte!
Vejo feros tiranos destronados,
Vejo Nações erguidas, e cidades,
Seus louros a teus pés heróis deporem,
As Ciências, e as Artes florescentes,
Firme a Moral, as Leis, a Liberdade,
E a Humanidade inteira que te abraça,
E te proclama como Mãe de tudo.
Oh das Religiões a mais perfeita,
Oh única de Deus, e do homem digna!
Religião plantada no Calvário,
E co'o sangue do Cristo alimentada!
Religião de amor, de paz, de vida!
Tu, que civilizaste a Europa toda,
E primeira na América lançaste
O gérmen da grandeza, a que ela aspira;
Tu, que marcas de Deus a majestade,
Os direitos do homem sobre a terra,
E o seu porvir sublime além da morte;
Tu, que aclaras os povos, e co'os povos
De progresso em progresso ovante marchas,
Como a mãe que acompanha o caro filho,
Sem que a tua divina essência percas;
Teus inefáveis dons benigna espalha
Sobre os filhos dos homens, sempre... sempre.
Religião, inflama, e purifica
Meus pensamentos, e conforto presta
Ao infeliz peregrino que te invoca,
E que só em teu grêmio paz encontra.
Milão, 17 de outubro de 1834
Adeus à Pátria
Adeus, oh Pátria amada,
Terra saudosa, onde eu abri meus olhos
Pela vez prima ao sol americano;
Onde nos braços maternais suspenso,
O teu amor co'a vida
No albor dos anos meus fruí gostoso.
Oh margens do Janeiro,
Eu me ausento de vós com mágoa e pranto!
Adeus, brilhante céu da terra minha!
Adeus, oh serras que vinguei difícil!
Adeus, sombrias várzeas,
Que vezes passeei meditabundo.
Adeus, augustas torres
Do templo, onde lavei-me do pecado!
O som funéreo dos sagrados bronzes
Ainda vem magoar os meus ouvidos,
E n'alma despertar-me
Tristíssimas, cruéis reminiscências.
Eis ali a montanha
Cujos pés beija o mar que em flor se esbarra.
Quantas vezes ali triste, sentado,
Minha alma no infinito se espraiava,
Os olhos vagueando
Sobre este mar, que deve hoje levar-me!
Sim, eu te deixo, oh Pátria;
E deixo-te lutando co'as procelas,
Que no teu horizonte se abalroam.
Ah! quanta dor o coração me punge,
Por ver alguns teus filhos,
Baldos de pundonor, como te olvidam.
Teus filhos... Ah! cubramos,
Se algum há, com desprezo o seu opróbrio.
Feras serpentes qu'entre mansas aves
Se aqueceram nos ovos, e mal nascem
Dilaceram os filhos,
E as próprias aves que lhes deram vida.
Malévolos sicários,
Raça espúria, sem Pátria, ermos de brio,
Já traidores alfanges afiando,
O ensejo só aguardam favorável
De ensopá-los no sangue
Daqueles a quem bens, e honra devem.
Não é pavor, nem susto
De aos pés calcado ser de intrusos Neros,
Nem de rojo levado ao cadafalso,
Que hoje arrancar-me de teu grêmio pode;
Nem a ambição me acena
Qu'eu vá mercadejar por longes terras.
Não, eu não temo a morte,
Nem dos tiranos temo a catadura;
sei firme assoberbar adversos fados;
Que o varão, que o dever toma por norte,
Sempre a Pátria antolhando,
Morte honrosa prefere à vida escrava.
Amor da sapiência,
Desejo de colher lições do mundo
Leva-me às margens do soberbo Sena,
Para, se me não for avessa a sorte,
Ante o altar da Pátria
Meus serviços prestar vir respeitoso.
A ti me voto inteiro,
Tu és o meu amor, minha alma é tua.
Só para te ofertar flores cultivo
Nos mágicos jardins da Poesia;
Se te apraz seu aroma,
Ah! como fico de prazer ufano!
Ah! praza a Deus que a nuvem,
Que obumbra ora teu céu, tão belo sempre,
A cólera do Eterno não desabe
Sobre as tristes cabeças de teus filhos!
Ah! praza a Deus que nunca
Teu Anjo tutelar fuja a teus lares!
Oh Senhor, tu protejes
O povo que se vota à Liberdade;
A Liberdade é dom que nem tu mesmo
Aos homens tiras; como um mortal ousa,
Erguido pó da terra,
Eclipsar os teus dons, manchar teu nome?
Cara Pátria, sem susto
Tua fronte levanta majestosa,
Como tuas montanhas, e teus bosques!
Não sejas só no mundo conhecida
Por teus ricos tesouros,
Pelos prodígios da sem-par Natura.
Oh Pátria, ovante marcha;
Já em teu seio encerras Varões dignos
De renome imortal; não te envergonhes
De cingir-lhes as frontes, de apontá-los.
São eles que te escoram,
E que te hão de elevar à Eternidade.
As solitárias ondas
Que hoje sonoras tuas: praias beijam,
Já outrora, não pedras, não espuma,
Mas cadáveres, e sangue arremessaram,
Cadáveres, e sangue
Dos nascidos nos teus sagrados bosques.
Se inimigos ousarem,
Armados contra ti, em frágeis lenhos,
Expelir o trovão, o raio, e a morte,
Abrir-se-hão estes mares a sorvê-los;
Seus lívidos cadáveres
Tuas areias juncarão de novo.
O coração pressago
Veemente palpita, e voz suave
Em meu peito ressoa, e me anuncia
Que o céu destes horrores te preserva;
O coração não mente;
A paz firmou-se em ti; seja ela eterna.
Como a enchente do Nilo
Que estendendo-se sobre a terra Egípcia,
Deixa após si fertilidade aos campos,
Assim, propicia paz, tu vivificas
O povo que te hospeda,
E por ti bafejada a indústria medra.
Como serei ditoso
Se dado ainda me for correr teus campos,
Beijar de anosos pais as mãos rugosas,
Abraçar os amigos, e arroubado
Nesse celeste instante
Novos, oh Pátria, cânticos tecer-te.
Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833
GONÇALVES DIAS
Canção do Exílio
Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln die Gold-Orangen glühen,
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möcht ich... ziehn.[1]
Goethe
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
O canto do guerreiro
I
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros.
— Ouvi meu cantar.
II
Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem há, como eu sou?
III
Quem guia nos ares
A frecha imprumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
— Guerreiros, ouvi-me,
— Ouvi meu cantar.
IV
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me:
— Quem há, como eu sou?
V
Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
— Quem há mais valente,
— Mais destro do que eu?
VI
Se as matas estrujo
Co os sons do Boré,
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
— Quem é mais valente,
— Mais forte quem é?
VII
Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as malas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar,
São eles — guerreiros,
Que faço avançar.
VIII
E o Piaga se ruge
No seu Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frechados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viveram,
Mil homens são lá.
IX
E então se de novo
Eu toco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escoam
Aos sons do Boré.
— Guerreiros, dizei-me,
— Tão forte quem é?
Canção do Tamoio
I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!
IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!
V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.
VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.
VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!
VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.
IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.
X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.
Ainda uma vez – adeus!
I
Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
II
Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!
III
Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!
IV
Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.
V
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!
VI
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!
VII
Oh! se lutei! ... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?
VIII
Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!
IX
Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!
X
Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
"Ela é feliz (me dizia)
"Seu descanso é obra minha."
Negou-me a sorte mesquinha...
Perdoa, que me enganei!
XI
Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!
XII
Enganei-me!... — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!
XIII
Louco, julguei adornar-me
Com palmas d'alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.
XIV
Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!
XV
És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!
XVI
Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!
XVII
Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!
XVIII
Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão.
Leito de folhas verdes
Por que tardas, Jatir,
que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu, sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.
Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d`alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.
Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!
Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arazóia na cinta me apertaram
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma;
Também meu coração, como estas flores,
Melhor perfume ao pé da noite exala!
Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!