By JackBran Consultoria Ltda.

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Texto I

 

 

 

1. Leia atentamente o seguinte texto:

 

 

Senhor,

 

Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que –  para o bem contar e falar –  o saiba pior que todos fazer!

(...)

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

(...)

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

(...)

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

(...)

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

(...)

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

(...)

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior – com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

(...)

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

 

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

 

 

Pero Vaz de Caminha

 

 

Questões:

 

1. Pode-se dizer que a Carta de Pero Vaz de Caminha é um texto literário? Exemplifique.

 

2. O Capitão (...) estava sentado em uma cadeira, (...) com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. (...) E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram (...). Que pode representar essa esse espanto do escriba? Explique.

 

3. Que elementos, presentes na missiva de Pero Vaz de Caminha, são comprobatórios de que os indígenas não eram cristãos? Exemplifique.

 

4. Leia o seguinte excerto presente na Dedicatória do poema épico de Camões Os Lusíadas:

 

E vós, ó bem nascida segurança 
Da Lusitana antígua liberdade, 
E não menos certíssima esperança 
De aumento da pequena Cristandade; 
Vós, ó novo temor da Maura lança, 
Maravilha fatal da nossa idade, 
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, 
Para do mundo a Deus dar parte grande.

 

A partir dele e da leitura do excerto da Carta de Pero Vaz de Caminha, pergunta-se: quais eram os dois objetivos principais dos portugueses em relação ao achamento da nova terra? Exemplifique.

 

 

 

Texto II

 

 

DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO

 

 

 

Oh que pão, oh que comida,

Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar

cada dia.

 

Filho da Virgem Maria
Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou

crua morte.

 

E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento

sua graça.

 

Esta divina fogaça
É manjar de lutadores,
Galardão de vencedores

esforçados.

 

Deleite de enamorados
Que com o gosto deste pão
Deixem a deleitarão

transitória.

 

Quem quiser haver vitória
Do falso contentamento,
Goste deste sacramento

divinal.

 

Ele dá vida imortal,
Este mata toda fome,
Porque nele Deus é homem

se contêm.

 

É fonte de todo bem
Da qual quem bem se embebeda
Não tenha medo de queda

do pecado.

 

Oh! que divino bocado
Que tem todos os sabores,
Vindes, pobres pecadores,

a comer.

 

Não tendes de que temer
Senão de vossos pecados;
Se forem bem confessados,

isso basta.

 

Que este manjar tudo gasta,
Porque é fogo gastador,
Que com seu divino ardor

tudo abrasa.

 

É pão dos filhos de casa
Com que sempre se sustentam
E virtudes acrescentam

de contino.

 

Todo al é desatino
Se não comer tal vianda,
Com que a alma sempre anda

satisfeita.

 

Este manjar aproveita
Para vícios arrancar
E virtudes arraigar

nas entranhas.

 

Suas graças são tamanhas,
Que se não podem contar,
Mas bem se podem gostar

de quem ama.

 

Sua graça se derrama
Nos devotos corações
E os enche de benções

copiosas.

 

Oh que entranhas piedosas
De vosso divino amor!
Ó meu Deus e meu Senhor

humanado!

 

Quem vos fez tão namorado
De quem tanto vos ofende?!
Quem vos ata, quem vos prende

com tais nós?!

 

Por caber dentro de nós
Vos fazeis tão pequenino
Sem o vosso ser divino,

se mudar.

 

Para vosso amor plantar
Dentro em nosso coração
Achastes tal invenção

de manjar,

 

Em o qual nosso padar
Acha gostos diferentes
Debaixo dos acidentes

escondidos.

 

Uns são todos incendidos
Do fogo de vosso amor,
Outros cheios de temor

filial,

 

Outros com o celestial
Lume deste sacramento
Alcançam conhecimento

de quem são,

 

Outros sentem compaixão
De seu Deus que tantas dores
Por nos dar estes sabores

quis sofrer.

 

E desejam de morrer
Por amor de seu amado,
Vivendo sem ter cuidado

desta vida.

 

Quem viu nunca tal comida
Que é o sumo de todo bem,
Ai de nós que nos detém

que buscamos!

 

Como não nos enfrascamos
Nos deleites deste Pão
Com que o nosso coração

tem fartura.

 

Se buscarmos formosura
Nele está toda metida,
Se queremos achar vida,

esta é.

 

Aqui se refina a fé,
Pois debaixo do que vemos,
Estar Deus e homem cremos

sem mudança.

 

Acrescenta-se a esperança,
Pois na terra nos é dado
Quanto lá nos céus guardado

nos está.

 

A caridade que lá
Há de ser aperfeiçoada,
Deste pão é confirmada

em pureza.

 

Dele nasce a fortaleza,
Ele dá perseverança,
Pão da bem-aventurança,

pão de glória.

 

Deixado para memória
Da morte do Redentor,
Testemunho de Seu amor

verdadeiro.

 

Oh mansíssimo Cordeiro,
Oh menino de Belém,
Oh Jesus todo meu Bem,

meu Amor.

 

Meu Esposo, meu Senhor,
Meu amigo, meu irmão,
Centro do meu coração,

Deus e Pai.

 

Pois com entranhas de Mãe
Quereis de mim ser comido,
Roubai todo meu sentido

para vós

 

Prendei-me com fortes nós,
Iesu, filho de Deus vivo,
pois que sou vosso cativo,

que comprastes

 

Com o sangue que derramastes,
Com a vida que perdestes,
Com a morte que quisestes

padecer.

 

Morra eu, por que viver
Vós possais dentro de mim;
Ganha-me, pois me perdi

em amar-me.

 

Pois que para incorporar-me
E mudar-me em vós de todo,
Com um tão divino modo

me mudais.

 

Quando na minha alma entrais
É dela fazeis sacrário,
De vós mesmo é relicário

que vos guarda.

 

Enquanto a presença tarda
De vosso divino rosto,
O saboroso e doce gosto

deste pão

Seja minha refeição
E todo o meu apetite,
Seja gracioso convite

de minha alma.

 

Ar fresco de minha calma,
Fogo de minha frieza,
Fonte viva de limpeza,

doce beijo.

 

Mitigador do desejo
Com que a vós suspiro, e gemo,
Esperança do que temo

de perder.

 

Pois não vivo sem comer,
Como a vós, em vós vivendo,
Vivo em vós, a vós comendo,

doce amor.

 

Comendo de tal penhor,
Nela tenha minha parte,
E depois de vós me farte

com vos ver.

 

Amém.

 

 Pe.  José de Anchieta

 

Questões

 

1. Apesar de Anchieta estar inserido naquilo que se convencionou chamar de Renascimento (Classicismo, na Literatura), é possível encontrar elementos desse período em seu texto? Exemplifique.

 

2. Que argumentos Anchieta emprega para descrever o Santíssimo Sacramento?

 

3. Que figuras de linguagem Anchieta emprega em seu texto? Destaque-as.

 

4. Qual é a forma poética empregada por Anchieta? Ela remete a que período?

 

5. A obra de Anchieta reflete os anseios de Santo Inácio de Loyola e da Companhia de Jesus? Exemplifique.