Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão
 
 
Literatura
 
 

Camões e "Os Lusíadas"

 

Gênero Épico

 

A palavra épico vem do grego épos, narrativa, recitação. A poesia épica surge, no Ocidente, com Homero, poeta grego que viveu entre os séculos IX e VIII a.C. e escreveu dois poemas que constituíram os primeiros modelos épicos: a Ilíada e a Odisseia. Depois de Homero, a poesia épica, seguindo certas normas tradicionais que se baseavam na obra do poeta grego, foi cultivada até o Romantismo.

 

Em Roma, a epopeia mais conhecida foi a Eneida, de Virgílio. Na Idade Média, aparecem vários poemas narrativos, especialmente nos séculos XII, XIII e XIV, que se afastam dos padrões clássicos (Homero e Virgílio) pelos assuntos abordados e pela técnica narrativa. São inspirados, geralmente, em façanhas guerreiras da época da cavalaria andante. São mais conhecidos: a Canção de Rolando, o Romance de Alexandre, os romances da Távola Redonda, o Cantar de Mio Cid.

 

No Renascimento, com a revalorização da Antiguidade greco-romana e a consequente imitação de sua literatura, surgem novos poemas épicos cujo modelo são as grandes epopeias gregas e romanas. Datam desse período o Orlando Furioso, de Ariosto, Jerusalém Libertada, de Tasso, ambos na Itália; em Portugal, Camões escreve Os Lusíadas, o maior poema da língua.

 

Como na Antiguidade clássica, o gênero épico, no Renascimento, deveria obedecer a certas regras, a certas normas que o caracterizavam.

 

Divisão da Poesia épica

 

O poema épico deveria ser dividido em cinco partes, a saber:

 

a)      Proposição: em que o autor resumiria o assunto da obra.

 

b)      Invocação: na qual o autor pedia a uma divindade que o inspirasse em sua criação.

 

c)      Oferecimento: parte em que o autor dedicava seu poema a alguém. (Não era obrigatório.)

 

d)     Narrativa: o corpo do poema propriamente dito.

 

e)      Epílogo: fecho do poema. (Não obrigatório.)

 

A narrativa não deveria obedecer à ordem cronológica dos fatos. Ao contrário, deveria iniciar-se o mais próximo possível do fim do acontecimento que deu origem ao poema, retornando aos fatos anteriores através de narrações dos personagens, de sonhos e visões fantásticas.

 

A poesia épica deveria conter o chamado "maravilhoso", isto é, a intervenção direta de seres sobrenaturais, quase sempre deuses da mitologia greco-romana, na vida humana. Ao lado desse maravilhoso pagão, no cristianismo surge também o maravilhoso cristão, ou seja, a intervenção de personagens bíblicos (do Antigo ao Novo Testamento).

 

O gênero épico em verso apresenta três espécies:

 

a)      Epopeia: obra épica de largo fôlego, envolvendo a história de um povo ou de uma nação, ou ainda passagens históricas de importância universal. Por exemplo, Os Lusíadas, de Camões.

 

b)      Poema Épico: trata, também de episódio histórico, mas menos importante e que não ultrapassa os limites do nacional ou mesmo do regional, embora o poema épico seja tão extenso quanto a epopeia. Exemplo: Caramuru, de Santa Rita Durão.

 

c)      Poemeto: mais curto que as duas espécies anteriores, trata de assunto de importância ainda menor que o do poema épico. Exemplo: O Uraguai, de Basílio da Gama.

 

Note-se bem que as diferenças apontadas entre as três espécies da épica clássica tradicional subordinam-se à importância do assunto tratado e às dimensões da obra, e não à valoração ou valor literário dela. Se, normalmente, a epopeia é superior em qualidade ao poema e ao poemeto, pode haver exemplos destas duas últimas espécies com valor literário superior à primeira. Entre os exemplos dados, cumpre observar que o poemeto de Basílio da Gama, O Uraguai é muito superior, literalmente, ao poema épico de Santa Rita Durão, Caramuru.

 

Os Lusíadas

 

 (Apontamentos para a aula)

 

  • escrito em versos decassílabos heróico;

  • oitava-rima;

  • esquema rimático: abababcc;

  • dez cantos (partes) com 1.102 estâncias (estrofes) e 8.816 versos

 

 

Proposição:

 

O narrador indica qual será o tema da narração;

 

Formada pelas três estrofes iniciais.

 

O narrador se propõe a cantar os feitos dos navegantes portugueses que atravessaram mares desconhecidos e realizaram feitos heroicos, maiores, inclusive, que os feitos realizados na Antiguidade:

 

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

 

  • Em suma, o assunto do poema é a construção do Império português, cujo núcleo narrativo é a viagem de Vasco da Gama às Índias (1497-1499);

 

  • Ponto de vista utilizado da aristocracia portuguesa;

 

  • Vemos a busca pela emulação: o poeta tem como modelo a Eneida de Virgílio:

 

Ex. As armas e o varão canto, piedoso (Virgílio)

      As armas e os barões assinalados (Camões)

Invocação

 

O narrador pede engenho e arte às ninfas do Tejo (Tágides)

 

Dedicatória

 

O poema é dedicado a D. Sebastião (1554-1578):

 

(sexta estrofe)

 

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antígua liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande.

 

(oitava estrofe)

 

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;

 

Narração

 

 

CANTO I (clique nos links e leia o texto completo)

 

Tem início na estrofe 19 com os portugueses em meio ao Oceano Índico

 

Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas

 

Os deuses se reúnem para deliberar sobre a sorte dos portugueses: Júpiter vê grandes realizações para os lusos; Baco se opõe; Vênus os protege; Marte apoia Vênus:

 

Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu formoso,
Vêm pela Via-Láctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.

 

Enfrentam várias dificuldades, principalmente de Baco (oitenta e seis):

 

Mas os Mouros que andavam pela praia,
Por lhe defender a água desejada,
Um de escudo embraçado e de azagaia,
Outro de arco encurvado e seta ervada,
Esperam que a guerreira gente saia,
Outros muitos já postos em cilada.
E, porque o caso leve se lhe faça,

Põem uns poucos diante por negaça,

 

que leva os mouros a preparar-lhes emboscadas a fim de detê-los da empreitada (noventa e sete):

Mas o Mouro, instruído nos enganos
Que o malévolo Baco lhe ensinara,
De morte ou cativeiro novos danos,
Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
Dando razões dos portos Indianos,
Também tudo o que pede lhe declara,
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia.

 

ao chegarem a Mombaça, outra cilada os espera:

 

No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

 

CANTO II

 

Vênus e as nereidas impedem que os portugueses entrem no porto de Mombaça (dezoito):

 

As âncoras tenaces vão levando
Com a náutica grita costumada;
Da proa as velas sós ao vento dando
Inclinam para a barra abalizada.
Mas a linda Ericina, que guardando
Andava sempre a gente assinalada,
Vendo a cilada grande, e tão secreta,
Voa do Céu ao mar como uma seta.

 

Vênus dirige-se a Júpiter para protestar (trinta e nove):

 

"Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
Que, para as cousas que eu do peito amasse,
Te achasse brando, afábil e amoroso,
Posto que a algum contrário lhe pesasse;
Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
Sem que to merecesse, nem te errasse,
Faça-se como Baco determina;
Assentarei enfim que fui mofina.

 

Júpiter a conforma, prometendo grandes feitos aos portugueses (quarenta e quatro):

 

"Formosa filha minha, não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos,
Nem que ninguém comigo possa mais,
Que esses chorosos olhos soberanos;
Que eu vos prometo, filha, que vejais
Esquecerem-se Gregos e Romanos,
Pelos ilustres feitos que esta gente
Há-de fazer nas partes do Oriente.

 

Os portugueses se dirigem a Melinde, onde são recebidos por seu rei (setenta e três)

 

Quando chegava a frota àquela parte,
Onde o Reino Melinde já se via,
De toldos adornada, e leda de arte
Que bem mostra estimar o santo dia.
Treme a bandeira, voa o estandarte,
A cor purpúrea ao longe aparecia;
Soam os atambores o pandeiros,
E assim entravam ledos e guerreiros.

 

O rei de Melinde pede que Vasco da Gama conte sobre Portugal (cento e nove):

 

"Mas antes, valeroso Capitão,
Nos conta, lhe dizia, diligente,
Da terra tua o clima, e região
Do mundo onde morais distintamente;
E assim de vossa antiga geração,
E o princípio do Reino tão potente,
Co'os sucessos das guerras do começo,
Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

 

 

CANTO III

 

Vasco da Gama inicia a história de Portugal (três):

 

Prontos estavam todos escutando
O que o sublime Gama contaria,
Quando, depois de um pouco estar cuidando,
Alevantando o rosto, assim dizia:
"Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
De minha gente a grão genealogia:
Não me mandas contar estranha história,
Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

 

O capitão conta a história de Inês de Castro (cento e vinte):

 

"Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

 

e sua morte (cento e trinta):

 

"Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais, e cavaleiros?

 

(cento e trinta e dois):

 

"Tais contra Inês os brutos matadores
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha;
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

 

 

CANTO IV

 

Vasco da Gama continua a narração da história de Portugal. Explana os fatos que levaram à Batalha de Albajurrota: em 1383, el-rei D. Fernando morreu sem um filho varão que herdasse a coroa. A sua única filha era a infanta D. Beatriz, casada com o rei D. João de Castela. A burguesia mostrava-se insatisfeita com a regência da Rainha D. Leonor Teles e do seu favorito, o conde Andeiro e com a ordem da sucessão, já que com ela isso significaria anexação de Portugal por Castela. O conde Andeiro foi morto e o povo pediu ao mestre de Avis, filho bastardo de D. Pedro I, de Portugal, que ficasse por regedor e defensor do Reino (sete):

 

"Beatriz era a filha, que casada
Co'o Castelhano está, que o Reino pede,
Por filha de Fernando reputada,
Se a corrompida fama lhe concede.
Com esta voz Castela alevantada,
Dizendo que esta filha ao pai sucede,
Suas forças ajunta para as guerras
De várias regiões e várias terras.

 

(quarenta e dois)

 

Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
A multidão da gente que perece
Tem as flores da própria cor mudadas;
Já as costas dão e as vidas; já falece
O furor e sobejam as lançadas;
Já de Castela o Rei desbaratado
Se vê, e de seu propósito mudado.

 

A aliteração em /r/, /t/ e /s/ e as rimas nasais, lembram os ruídos dos combates (trinta e um):

 

"Já pelo espesso ar os estridentes
Farpões, setas e vários tiros voam;
Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam;
Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
Quedas co'as duras armas, tudo atroam;
Recrescem os amigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.

 

Vasco da Gama também narra ao rei de Melinde o sonho de D. Manuel, quando dois anciãos falam das conquistas portugueses no Oriente. Esses anciãos representavam os rios Ganges e Indo, dessa forma o rei português é motivado para preparar uma expedição ao Oriente (sessenta e oito):

 

"Estando já deitado no áureo leito,
Onde imaginações mais certas são?
Revolvendo contino no conceito
Seu ofício e sangue a obrigação,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
Sem lhe desocupar o coração;
Porque, tanto que lasso se adormece,
Morfeu em várias formas lhe aparece.

 

(setenta e quatro):

 

— "Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
Celeste tenho o berço verdadeiro;
Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra
Que vês, seu nascimento tem primeiro.
Custar-te-emos contudo dura guerra;
Mas insistindo tu, por derradeiro,
Com não vistas vitórias, sem receio,
A quantas gentes vês, porás o freio."—

 

Há neste canto a famosa passagem do Velho de Restelo que prega o desprezo por valores vãos como a glória e a fama (noventa e quatro):

 

"Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

 

(noventa e cinco)

 

—"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

            

 

CANTO V

 

São descritas passagens da viagem, quando se descrevem fenômenos naturais como o fogo-de-santelmo (dezoito):

 

"Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e coisa certo de alto espanto,
Ver as nuvens do mar com largo cano
Sorver as altas águas do Oceano.

 

Neste canto há a passagem do gigante Adamastor, personificação do Cabo das Tormentas (trinta e oito):

 

"Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo o negro mar, de longe brada
Como se desse em vão nalgum rochedo.
— "Ó Potestade, disse, sublimada!
Que ameaço divino, ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?" —

 

(trinta e nove)

 

"Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

 

CANTO VI

 

Partida de Melinde (dois):

 

Com jogos, danças e outras alegrias,
A segundo a polícia Melindana,
Com usadas e ledas pescarias,
Com que a Lageia Antônio alegra e engana
Este famoso Rei, todos os dias,
Festeja a companhia Lusitana,
Com banquetes, manjares desusados,
Com frutas, aves, carnes e pescados.

 

Baco, não contente com o avanço português, desce à profundidade do mar em busca da ajuda de Netuno para juntos destruírem a frota portuguesa (oito):

 

No mais interno fundo das profundas
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
Lá donde as ondas saem furibundas,
Quando às iras do vento o mar responde,
Netuno mora, e moram as jocundas
Nereidas, e outros Deuses do mar, onde
As águas campo deixam às cidades,
Que habitam estas úmidas deidades;

 

Violenta tempestade acomete aos portugueses (setenta e quatro):

 

Os ventos eram tais, que não puderam
Mostrar mais força do ímpeto cruel,
Se para derribar então vieram
A fortíssima torre de Babel.
Nos altíssimos mares, que cresceram,
A pequena grandura dum batel
Mostra a possante nau, que move espanto,
Vendo que se sustém nas ondas tanto.

 

Vênus intervém novamente, enviando suas ninfas para seduzir os ventos raivosos (oitenta e sete):

 

Grinaldas manda pôr de várias cores
Sobre cabelo; louros à porfia.
Quem não dirá que nascem roxas flores
Sobre ouro natural, que Amor enfia?
Abrandar determina, por amores,
Dos ventos a nojosa companhia,
Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
Que mais formosas vinham que as estrelas.

 

 

CANTO VII

Chegada a Calicute  (um):

 

Já se viam chegados junto à terra,
Que desejada já de tantos fora,
Que entre as correntes Indicas se encerra,
E o Ganges, que no céu terreno mora.
Ora, sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora,
Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante.

 

Vasco da Gama estabelece contatos com as autoridades indianas: com o Samorim, imperador, e Catual, governador de Calicute (vinte e dois), por meio de Monçaide:

 

Da terra os naturais lhe chamam Gate,
Do pé do qual pequena quantidade
Se estende uma fralda estreita, que combate
Do mar a natural ferocidade.
Aqui de outras cidades, sem debate,
Calecu tem a ilustre dignidade
De cabeça de Império rica e bela:
Samorim se intitula o senhor dela.

 

(quarenta e quatro):

 

Na praia um regedor do Reino estava,
Que na sua língua Catual se chama,
Rodeado de Naires, que esperava
Com desusada festa o nobre Gama.
Já na terra, nos braços o levava,
E num portátil leito uma rica cama
Lhe oferece, em que vá, costume usado,
Que nos ombros dos homens é levado.

 

 

CANTO VIII

 

Baco aparece a um sacerdote muçulmano e instiga-lhe contra os portugueses. Vasco da Gama é traído por Catual, que possuía interesses com os muçulmanos (oitenta e um):

 

Era este Catual um dos que estavam
Corruptos pela Maumetana gente,
O principal por quem se governavam
As cidades do Samorim potente.
Dele somente os Mouros esperavam
Efeito a seus enganos torpemente.
Ele, que no conceito vil conspira,
De suas esperanças não delira

 

CANTO IX

 

Catual e seus aliados retardam a partida de Vasco da Gama, esperando uma armada proveniente de Meca que destruiria os navios portugueses (um):

 

Tiveram longamente na cidade,
Sem vender-se, a fazenda os dois feitores
Que os infiéis, por manha e falsidade,
Fazem que não lha comprem mercadores;
Que todo seu propósito e vontade
Era deter ali os descobridores
Da Índia tanto tempo, que viessem
De Meca as naus, que as suas desfizessem.

 

Os portuguesas deixam a Índia, levando provas de que a aviam alcançado, alguns prisioneiros e várias mercadorias (quatorze):

 

Leva alguns Malabares, que tomou
Por força, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda não ficou,
A noz, e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, com a canela,
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.

 

Levam também a Monçaide, que se converterá ao cristianismo (quinze):

 

Isto tudo lhe houvera a diligência
De Monçaide fiel, que também leva,
Que, inspirado de angélica influência,
Quer no livro de Cristo que se escreva.
Ó ditoso Africano, que a clemência
Divina assim tirou de escura treva,
E tão longe da pátria achou maneira
Para subir à pátria verdadeira!

 

Vênus recompensa os portugueses ofertando-lhes repouso na Ilha dos Amores, paraíso dedicado ao prazer, onde ninfas os aguardavam (setenta e dois):

 

Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam:
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Umas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando.

 

(setenta e três)

 

Outra, como acudindo mais depressa
A vergonha da Deusa caçadora,
Esconde o corpo n'água; outra se apressa
Por tomar os vestidos, que tem fora.
Tal dos mancebos há, que se arremessa,
Vestido assim e calçado (que, co'a mora
De se despir, há medo que ainda tarde)
A matar na água o fogo que nele arde.

 

(oitenta e três)

 

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vênus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

 

 CANTO X

 

Tétis e as ninfas oferecem um banquete aos navegantes.  A deusa mostra a Vasco da Gama uma miniatura do Universo (Máquina do Mundo) (oitenta):

 

«Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfícia tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.

 

O poema se encerra com um tom pessimista do narrador (cento e quarenta e cinco):

 

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dua austera, apagada e vil tristeza.

 

 

 

 

 

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