Prof. Dr. Jack Brandão
 
 
Apontamentos de linguística
 
 

A Antiguidade clássica e os estudos linguísticos

 

I

Grécia

  • Primeiros dados da ciência linguística: séc. V a.C.;

  • Os gregos do período clássico reconheciam diferenças entre as línguas devido ao comércio com outros povos devido ao comércio, além de suas próprias diferenças dialetais; os estrangeiros possuíam línguas bárbaras;

  • Alguns dialetos não tiveram representação gráfica.

  • Ilíada e Odisseia: serviram como base de formatação linguística (recitados em praça pública desde o séc. VI a.C. em Atenas).

  • Alfabeto grego: primeiro a distinguir os segmentos de vogais e consoantes (distintivos) a partir do alfabeto fenício (não possuía vogais);

  • Importância dos sofistas (vendiam conhecimento);

  • Crátilo: discussão entre se haveria uma relação entre significante x significado (por exemplo, palavras onomatopaicas, tese seguida pelos defensores da natureza) ou seria simplesmente uma arbitrariedade (segundo os defensores do convencionalismo); defendia o caráter natural da língua;

  • Sócrates: primeiro a investigar as potencialidades da gramática. Não deixou nada escrito;

  • Platão e sua obra Crátilo: repleto de referências linguísticas;

  • Estoicos: os primeiros a tratar as questões linguísticas de modo mais concreto; já diferenciavam a dicotomia significante x significado; trataram da fonética, gramática (especialmente o desenvolvimento da teoria e terminologia) e etimologia; naturalistas, anomalistas;

  • Aristóteles: convencionalista (afinal as onomatopéias variam de língua para língua, dependendo do sistema fonológico de cada uma), analogista;

  • Período helenístico: desenvolvimento de glossários de dialetos; surgimento das marcas de acento e pontuação na escrita (prosódia); grande estudo dos textos homéricos;

  • Controvérsias: princípio da convenção (thésis) x natureza (physis) [analogistas x anomalistas];

  • Dicotomia: analogistas (língua sob o princípio da analogia) x anomalistas (língua sob princípio da anomalia);

  • Principais ramos para os gregos: etimologia (não muito desenvolvida), fonética (ideia de sílaba; distinção entre vogal e consoante; distinção entre fonema, forma escrita do fonema e designação do fonema; sequências sonoras) e gramática baseada em palavras: identificação da palavra; conjunto de classes de palavras; categorias gramaticais.

  • Dionísio da Trácia: primeira descrição explícita da língua grega; gramática de Dionísio: apresentação do valor fonético das letras (os antigos não conseguiram diferenciar sons de letras); desenvolvimento da morfologia; descrição gramatical > valor mínimo: palavra; valor máximo: frase (expressão de um pensamento completo); classes de palavras: nomes, verbos, particípio, conjunção, preposição, artigo, pronome, advérbios; Nomes> gênero: masculino, feminino, neutro; tipo: primitivo, derivado; forma: simples, composta; número: singular, plural, dual; caso: nominativo, acusativo, dativo, genitivo, vocativo; verbos: modo, voz, tipo, forma, número, pessoa, tempo, conjugação.

 

II

 

A cidade de Atenas passa a ter grande importância após as batalhas de Maratona (492 a.C.) e Salamina (482 a.C.), quando os gregos barraram a expansão persa em direção a seu território, afinal foi a principal beneficiada da guerra contra o geral inimigo. Com uma pseudoprosperidade instalada (houve após esse momento, guerras intestinais entre as cidades gregas), há o triunfo político da democracia. Visto que o domínio pessoal, em tal regime, depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão, passa a ter grande importância a oratória e, dessa forma, os mestres de eloquência dedicam-se aos estudos de gramática e retórica.

Em vista desta necessidade, desenvolveu-se o magistério, quase sempre particular e ministrado por mestres, conhecidos por sofistas. Estes querendo conquistar fama e riqueza, tornaram-se mestres de eloquência, de retórica, ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber, a cultura, de modo enciclopédico, não por si mesmo como no caso dos filósofos, mas pelo pagamento.

 

Sócrates (469-399 a.C.), no entanto se fez um contestador dos sofistas. Ensinava nas praças, apesar de também atender em casa e como possuísse profissão (escultor como o pai), além de ter se envolvido com a política (foi Senador), pode-se compreender porque pudesse subsistir como pregador sem salário.

Nenhum livro sobrou do tempo dos primeiros filósofos e sofistas. Ficaram, porém,  fragmentos na obra de Platão, Aristóteles e outros que os citaram e discutiram.

 

Platão (427-347 a. C.), nascido em Atenas, fundou a Academia (cerca do ano 387 a.C.), escreveu um diálogo em que, entre outras questões, abordou a origem da língua, intitulando-o Crátilo, em homenagem a um dos interlocutores. Esse é um primeiro documento importante sobre a ciência da língua e em particular de sua origem. Platão também se referiu à língua em Íon, Fedro, República, Leis.

 

Aristóteles (384-322 a. C.) foi mais sistemático que seu mestre Platão. Escreveu os tratados conhecidos como Retórica e Poética, além de importantes referências à linguagem nos livros do Órganon e Metafísica. Aristóteles aprofundou o princípio de que "o semelhante é conhecido pelo assemelhado" (Da alma I, 2. 405 b 15), como teoria explicativa do conhecimento. Este princípio se aplica à explicação da arte. Também tratou do caráter convencional da linguagem.

Após este período clássico da filosofia grega serão mais profusos os trabalhos dos filósofos e gramáticos, dentre os quais se destacarão no futuro próximo Dionísio da Trácia e Apolônio Díscolo (gramáticos gregos), Donato e Prisciano (gramáticos latinos).

 

A língua e os antigos

A questão fundamental sobre a língua é sua definição: ou ela é uma expressão, que remete a atenção para um objeto (ou assunto), ou é apenas uma obra sem intencionalidade. Essa pergunta pode se alargar e abranger a arte em geral, será que essa exprime intencionalidade ou não. Contudo, em nenhum momento da antiga história dos estudos linguísticos e da arte em geral como expressão intencionalística foi claramente posta.

O problema, entretanto, esteve incubado, porque já era tratado em relação à expressão mental. Aristóteles desenvolveu amplamente a natureza do pensamento como expressão. O pensamento não é apenas um ente em si, fechado sobre si mesmo. É um ente essencialmente virado para o objeto, mediante uma relação intencionalística. Este teoria não se aplicou logo à arte.

Os antigos, até o início dos tempos modernos, tendem a conceber a arte simplesmente como coisa. Esta coisa seria uma criação artificial realizada pelo homem; sua criação tinha como paralelo a coisa natural. Por vezes se fazia até o paralelo; arte, coisa bela criada pelo homem; natureza, coisa bela criada por Deus.      Obviamente, a distinção entre língua como expressão e como instrumento de comunicação também não teve desdobramento na Antiguidade. 

 

A artificialidade da língua, defendida pelo analogistas contra os anomalistas: eis o acento das discussões antigas. Tratavam de determinar, se a língua é produto de uma convenção humana (e então a língua seria artificial), ou se ela existe de natureza (e então a língua seria natural, ainda que por corruptela se diferenciasse entre os povos).
Atenda-se aqui para a polissemia da proposição "língua natural", pois também se denomina a "língua natural" o que, embora se considere convencional, surge espontaneamente, isto é, naturalmente, no curso da eventualidade das circunstâncias.

Efetivamente, é natural ao homem a capacidade de inventar a língua, mas a língua em si mesma não é natural. Portanto, o ponto de partida da história da linguística e da filosofia da língua está se responder a pergunta sobre a convencionalidade ou a naturalidade da língua.

 

Os analogistas

A convencionalidade da língua já tinha sido discutida no final do período pré-socrático da filosofia grega pelos sofistas, atomistas, derivando o assunto finalmente para dentro dos diálogos de Platão, em que se mostra também o envolvimento de Sócrates, bem como pela escola de Alexandria.

            A convencionalidade da língua já havia sido sugerida por Parmênides de Eleia, quando este diz que as palavras são etiquetas das coisas ilusórias. Reflete-se ali a gnosiologia do grande metafísico de Eléia (cidade da Magna Grécia, hoje Vélia na Itália), para o qual o ser é uno e imutável, como demonstra a inteligência; em consequência, temos de considerar ilusórias as variações numéricas e qualitativas apresentadas pelos sentidos e denominadas pelas palavras. Não conhecemos outros detalhes do pensamento de Parmênides a respeito da língua.

Repetiu-se o pensamento unicista da metafísica eleática na escola socrática menor de Mégara (junto de Atenas). Ali esteve Platão antes da fundação de sua Academia (387 a.C.) e sofreu a influência da referida escola. Mencionados pelo fundador da Academia, os megáricos são partidários da teoria convencionalista da língua, conforme texto de Platão:
 

Para Hermógenes e muitos outros... os nomes procedem de convênios que representam as coisas para os que intervierem nestas convenções, conhecendo-as com antecipação. A propriedade dos nomes nasce exclusivamente deste pacto. Não existe nenhuma razão para fixar-se no sentido que têm no presente. Do mesmo modo poder-se-ia chamar grande o que se chama pequeno, como pequeno o que se chama grande. (Crátilo 433)


O atomista Demócrito (460-400 a.C.) oferece argumentos em número de quatro, em favor da convencionalidade da língua:

1.    coisas diversas são denominadas pelos mesmos nomes (homonímia);

2.    diversidade de nomes para a mesma coisa (sinonímia);

3.    possibilidade de mudança dos nomes;

4.    ausência de analogias na mudança dos nomes.

Na mesma época, os sofistas sustentaram uma posição cética, tanto do pensamento em relação às coisas, como da língua em relação ao pensamento. Esta posição favoreceu a doutrina da convencionalidade da língua. Declarou Górgias (487-380 a.C.):

A língua não exprime as coisas existentes, nem as coisas existentes manifestam a própria natureza a uma delas.

Finalmente é o mesmo Platão (427- 347 a.C.), autor do Crátilo, quem assume a posição convencionalista da língua, defendida pela boca de Sócrates, principal dialogante, frente aos demais,  Hermógenes (convencionalista) e Crátilo (naturalista).

A tradição analogista permanecerá, como já foi dito,  com os gramáticos de Alexandria.

 

Os anomalistas

Teve alguma consistência entre os gregos a teoria da linguagem como expressão natural (não convencional). Seus defensores vieram depois a chamar-se anomalistas e eram
representados sobretudo por Crátilo de Atenas, e depois pelos gramáticos de Pérgamo (contra os de Alexandria) e pelos estoicos, os quais por isso deram desenvolvimento à etimologia.

A naturalidade da língua defendida pelos anomalistas não se diz apenas no sentido de capacidade natural do homem criar uma língua; neste caso, o produto seria artificial. Não é desta capacidade natural de criar a língua, que falam os defensores da língua como expressão natural. Trata-se da relação natural entre a língua e os objetos expressos. A pintura e a escultura expressam naturalmente objetos, enquanto apelam a uma mimese natural entre as cores e as formas da expressão e as cores e as formas do objeto. Aconteceria a mesma relação natural entre a língua e os objetos expressos.

Os defensores da língua natural estabelecem diferentes graus para esta naturalidade mimética entre expressão e objeto expresso. Uns afirmam uma relação natural maior de semelhança; outros uma relação menor, com diferenças acidentais, que explicariam a variação entre si das línguas.

A questão é intrigante, pois em última instância, também a convenção é uma espécie de mimese natural. A língua operando por equivalentes convencionados, estes são em primeiro lugar uma mimese, ainda que convencional; são mimese, porque deverão funcionar como se fossem idênticos aos objetos e, por serem assim considerados, idênticos, os conseguem expressar.

Em segundo lugar, os equivalentes são coisas naturais, como sons, cores, formas; no caso da língua se trata de sons; em outras linguagens convencionais, são ainda tomados como equivalentes as cores, as formas. Tais coisas naturais são operadas pelo homem, dando-lhes significados por convenção. A teoria da linguagem natural elimina a necessidade da convenção, porque por natureza as palavras possuiriam o poder de significar.

Com referência ainda à possibilidade de inserir o natural no conceito de língua convencional, deve-se mencionar a teoria dos que consideram o código da língua de tal maneira difícil de ser criado que, ainda que convencional, precisa de Deus para estabelecê-lo e dá-lo a conhecer. Neste plano se situam todas as mitologias, as quais atribuem a Deus o ensino da língua ao homem, bem como sua diversificação, como na curiosa narrativa da Torre de Babel (Gn 11).

 

Crátilo de Atenas (séc. V a.C.), já mencionado, foi o primeiro a defender o caráter natural da língua. Ligado ao pensamento naturalista da Escola Jônica a que pertenceram Tales de Mileto e Heráclito de Éfeso, tendeu a procurar na mesma natureza a língua, por vezes até ao ponto de explorar a semelhança das letras com o objeto, com vistas a interpretar a capacidade de expressão da palavra, do mesmo modo como por simples imitação as cores e formas exprimem na pintura e escultura.

Platão fora, inicialmente, discípulo de Crátilo e conhecia a nova teoria da língua. Em torno dela montou o diálogo, a que deu o título de Crátilo, cujos interlocutores são o mesmo Crátilo (da língua natural) e Hermógenes (da língua convencional) e entre os dois é introduzido Sócrates que, nos diálogos de Platão, representa as ideia s deste que, no caso, argumenta contra a teoria da linguagem natural.

Hermógenes, no diálogo, se dirige ao outro lado, apresentando Sócrates, quando também resume a teoria da língua natural, de seu contendor:

 

Hermógenes. Ó Sócrates, eis aqui Crátilo, que pretende que cada coisa tenha um nome, pertencente por natureza à cada realidade; que não é um nome aquele, de que se valem alguns, depois de o haverem posto, por acordo, para servir-se dele; e que um nome com tais condições só consiste em uma certa articulação da voz; que existe um sentido de denominação originária tanto para os gregos como para os bárbaros. (Crátilo 183 a. C.).

 

Mais tarde os gramáticos da escola de Pérgamo (Ásia Menor) e os gramáticos estoicos defenderão uma variante do naturalismo linguístico inaugurado por Crátilo de Atenas. A discussão sobre o caráter natural ou convencional da língua – tão cedo ocorrida na história da linguística – incidiu sobre uma das questões mais graves da língua, ainda que não essencial como é a mesma expressão. Ainda que seja mais fundamental tratar da língua como expressão, onde se encontra a sua essência, ganha imediatamente após importância a pergunta, - se a expressão é natural, ou se é apenas convencional.

A resposta plena, sobre a naturalidade ou convencionalidade da língua, somente se pode dar, principiando pela expressão em si mesma. Não é uma questão simples, porque importa numa teoria.  Suponha-se a teoria, que a expressão se processa fundamentalmente por mimese. Consiste a mimese no fenômeno pelo qual o semelhante expressa o assemelhado.  E então ainda se verifica haver duas alternativas:  a mimese é natural entre as qualidades; é convencional em outros casos.

No segundo caso, no da mimese por convenção,  os equivalentes se estabelecem por obra do "faz de conta que...".

As relações convencionais entre a língua e os objetos foram abordadas por Aristóteles, ao mesmo tempo que tratou da lógica e da retórica. No opúsculo Da interpretação (segundo livro do Órganon) afirma expressamente o caráter convencional da língua:

 

Nenhum dos nomes é tal por natureza, mas somente quando se tornou convenção. (Da interpretação, 2.16 a 18).

           

Ainda que a língua não seja a tradução direta do pensamento, mas dos objetos, estes aparecem por meio da mente. Por isso, a língua não expressa as coisas concretas tais quais são, mas ao modo como são mentalizadas, sobretudo na forma de juízo. Esta sequência, já  notada por Aristóteles, é sua característica.

 

Gramática antiga.

Os gregos cuidaram mais da gramática do que da linguística. Trataram, pois, da língua já realizada em um determinado sistema de expressão. A gramática é sempre a gramática de uma língua, e não o estudo das condições totalmente gerais da língua.

A linguística para os gregos se limitou a alguns aspectos como, por exemplo, o do caráter convencional ou natural das palavras. Os gregos ainda não faziam clara distinção entre o que se apoiava em considerações racionais da filosofia e o que em constatações empíricas ao modo do método das ciências positivas. Por isso os resultados por eles obtidos, interessam hoje, ora ao filósofo, ora ao linguista. Quando os dados simplesmente apontam para elementos concretos da linguagem, eles se situam na fase preliminar, chamada do objeto material; este é idêntico para todas as ciências, as quais apenas se vão distinguir no objeto formal, isto é, no ponto de vista abordado. Só aos poucos os gregos foram apontando para os diferentes fatos da língua: o nome, o verbo, a conjugação, etc.

Platão destacou na linguagem a sentença, como a unidade que compõe o discurso.
 Na sentença apontou a distinção entre o nome e o componente verbal. A partir dali se desenvolveu posteriormente a análise sintática e a classificação dos vocábulos.

Aristóteles acrescentou ao nome e ao verbo os súndesmoi, com o que indicava o que atualmente equivale ao artigo, conjunção, pronome. No grego, súndesmoi significa conexões, ataduras. Aristóteles também advertiu para a especificidade do adjetivo; chamou-o igualmente de verbo, já que, no grego, o adjetivo tem um comportamento sintático similar ao verbo.
Posteriormente, os alexandrinos dirão que o adjetivo é uma subclasse dos substantivos. ainda Referiu-se à derivação e às variações dos casos resultantes das declinações que, no grego, são numerosas. Denominou também de casos as variações de tempo dos verbos. Depois de Aristóteles crescem, sobretudo, os conhecimentos de gramática, sem todavia perder de vista os de linguística em geral, os estoicos esclarecerão melhor os casos, no sentido como ainda hoje se entendem as declinações das palavras.

 

Linguística dos helênicos

Criado o império helênico por Alexandre Magno, estendendo-se da Índia à Grécia, tornou-se Alexandria, por ele fundada em 332 a.C., o principal centro cultural, a segunda Atenas, notabilizando-se pela sua grande biblioteca e escolas de saber.
Vinha logo atrás a própria Atenas, onde persistiam as escolas, com seu longo passado. E na Ásia Menor, Antioquia e Pérgamo, onde passou também a florescer a literatura grega, havendo tido a gramática campo próprio de desenvolvimento.

Dionísio da Trácia destacou-se em fins do séc. II a.C.  Ocupou-se com o sistema morfológico, então indicado como regularidades analógicas. Sua gramática descreveu duas unidades básicas: a sentença (lógos) e o vocábulo (léxis). Cuidou principalmente dos vocábulos, que são "partes do discurso", arrolando ao todo oito classes: artigo (árthron), nome (ónoma), verbo (rhema), princípio (metoché), pronome (antonymía), advérbio (epirrhema) e conjugação (súndesmoi).

Três séculos mais tarde, Apolônio Díscolo completará a Dionísio com o desenvolvimento da sintaxe, mostrando na oração a binaridade nome e verbo, e ainda apontando as relações de concordância destas duas classes entre si e com as demais.
Ainda que não alcançando uma gramática plena, os trabalhos de Dionísio o Trácio e Apolônio Díscolo integram ainda hoje o sistema que se apresenta como sendo o da língua.

Os estoicos foram os que mais se ocuparam com os estudos da gramática. Embora os escritos dos primeiros estoicos sobre gramática se tenham perdido, ficaram, todavia, alguns dos seus resultados conhecidos por informações de terceiros.

Em geral anomalistas, os estoicos defenderam o caráter natural da língua. Apontando para suas irregularidades, contestavam aos analogistas. A gramática dos estoicos oferece quatro classes das palavras: nome, verbo, conjunção, artigo. Nesta classificação os adjetivos são citados entre os nomes.

Dividindo posteriormente entre nomes próprios e comuns, passaram os estoicos a referir-se a cinco classes de palavras. Introduziram também a distinção entre caso reto (nominativo) e os casos oblíquos (acusativo, genitivo, dativo). O nominativo seria a forma primeira; os demais, dele derivados. Classificaram os verbos em passivos e ativos, em transitivos e neutros intransitivos. Distinguiram entre aspectos concluso e inconcluso do verbo.

 

Anomalistas x analogistas

A ocorrência das exceções na língua foi um segundo importante questionamento específico linguístico já tratado pelos antigos, sobretudo a partir do séc. II a. C.  A discussão sobre a forma da palavra em relação ao seu significado foi finalmente concentrar-se no fato de haver exceções. Enquanto a maioria das palavras seguia um modelo (paradigma, no grego), verifica-se uma grande frequência das exceções. Dali resultaram as denominações das duas diretrizes já citadas sobre a origem da língua: a dos anomalistas (ou da língua natural) a que pertencem sobretudo os filósofos estoicos e os gramáticos da escola de Pérgamo; e a dos analogistas (ou da língua convencional), dos gramáticos de Alexandria, sobretudo Dionísio da Trácia e Apolônio Díscolo.

Os anomalistas insistiam na frequência das exceções e na presença de diversos tipos de analogias dentro de uma mesma classe de palavras.   Estabeleceram que a língua não podia depender da convenção do homem; se assim fosse deveria ser mais regular, porque a lógica prevaleceria sobre a irregularidade. Resulta que a língua nasce da natureza, revelada no uso.

Admitiam os estoicos uma relação entre o significado da palavra e seu portador material, de cuja forma natural este significado derivava. Ainda que o uso corrompesse a palavra natural, ela permanecia, podendo ser procurada.

Em consequência estimularam os estoicos a ciência da etimologia para estudo dos étimos (étymos = verdadeiro, real) Haveria, pois, uma aproximação entre a linguagem e as artes que expressam por mimese natural. Este conceito de língua natural persistiu através dos tempos e se apoiava inclusive em vagas afirmações dogmáticas das religiões, cujos mitos davam a Deus o mérito de haver criado as línguas.

Por quase dois séculos floresceu a cidade de Pérgamo, capital de um reino helênico, na Ásia Menor (280-133 a. C.), cujos gramáticos eram analogistas, ou seja, defensores do caráter natural da língua com base, entre outros motivos, na frequência das exceções.

Continuam também os analogistas. Desde o séc. III a.C., os analogistas de Alexandria cultivaram a gramática, desenvolvendo amplamente o estudo das diferenças, inclusive as entre o grego contemporâneo e o clássico (de Homero), com glossários para facilitar a leitura deste. Apesar de haver dominado a corrente convencionalista (ou analogista) da linguagem, continuou a persistir fortemente a imagem da língua natural.

Não haveria tão cedo uma tentativa de língua criada por convenção expressa.
Continuou a linguística de dois milênios limitada ao estudo meramente antropológico de línguas preexistentes, seja nos seus aspectos sincrônicos, seja nos diacrônicos ou históricos, como se a linguística consistisse apenas em um compreender e conservar máquinas velhas, sem inventar novas e mais adequadas aos interesses da sociedade.

 

Adaptado de:

www.cfh.ufsc.br/~simpozio/megaestetica/estetica_literaria/apresenta.htm

 

 

 

 












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