DA ICONOLOGIA À ICONOFOTOLOGIA:
UMA MUDANÇA
PARADIGMÁTICA
Antônio
Jackson de Souza Brandão
Resumo: O
presente artigo propõe uma nova abordagem da leitura de
textos de períodos extemporâneos e, para isso, fez-se
necessário criar um novo termo que correspondesse a essa
expectativa: a iconofotologia. Para que um leitor
contemporâneo possa ler e compreender textos retóricos
dos séculos XVI, XVII e XVIII, teria de ter acesso a uma
chave sígnica a que somente seus leitores tinham acesso:
as iconologias. No entanto, esse referencial se perdeu,
por isso o substituímos por um outro, a partir do acervo
imagético-fotográfico de que dispomos hoje e que
chamamos de iconofotológico. A partir dele, será
possível lermos, sob o ponto de vista contemporâneo (não
sob o ponto de vista seiscentista, por exemplo), os
poemas que denominamos fotográficos.
Palavras-chave:
Iconofotologia, iconologia, imprensa, poesia,
fotografia.
Abstract:
The present article intends to give a new approach to
the reading of texts from the untimely periods and, for
that, it was necessary to create a new term that
corresponded to this expectation: the iconophotology. In
order to enable a reader to read and understand
rhetorical texts from 16th, 17th and 18th centuries, he
would have to have access to a signical key to which
only readers of that moment had access: the iconologies.
However, such reference has been lost; therefore, we
have to replace it by another one, from the imagetic-photographic
collection we have, which is called iconophotological.
With this premise, it will be possible to read, under
the contemporary point of view (not under the baroque
point of view), the so-called photographic poems.
Keywords:
Iconophotology, iconology, printing,
poetry, photography.
A formação da virtù visiva
e o poder imagético
Na passagem do medievo para a
modernidade, verificou-se, em uma das muitas alterações
cognitivas por que o ser humano passou, o deslocamento
de sua percepção sensorial que de auditiva e tátil
converteu-se em visual. Foram necessários, para sua
concretização, vários embates em diversos campos do
saber humano e ao longo de anos. Essa querela, porém,
não foi exclusiva da Idade Média, pode-se encontrá-la na
Grécia antiga. Platão, por exemplo, considerava, em A
República, a visão a mais perfeita das sensações,
enquanto Aristóteles, em Da Alma, dava o mérito à
audição, na medida em que esta tem a ver com o discurso
que é causa da aprendizagem; o próprio Estagirita,
entretanto, afirmara o oposto em a Metafísica.
(Cf.: Aristóteles, 1987, p. 3)
Ginzburg exemplifica, em um
ensaio, essa mudança ao tratar da questão do pecado. Ele
aponta que, por volta de 1540, o pecado mais abordado
pelos manuais para confessores da Igreja Católica era o
da avareza, seguido pelo da luxúria. Este ainda se
manifestava, particularmente, por meio do tato e da
audição (Cf.: Ginzburg, 1991, pp. 138-139), revelando a
importância que o ouvido possuía tanto na tradição
medieval, como até meados do século XVI. A visão quase
não é mencionada, não se advertia contra imagens
impudicas, porque sua difusão deveria ser mínima ou
inexistente, a não ser entre as classes elevadas. (Cf.:
ibidem, p. 139)
Se a difusão imagética restringia-se, até o final do
medievo, à arte sacra e à vida privada de alguns membros
da sociedade – alto clero, nobreza –; torna-se
significativa, com o advento da modernidade, quando
estende seu alcance, encerrando o predomínio da verdade
auditiva: Deus não fala mais ao homem por meio do ouvido,
mas por meio de imagens. (Cf.: Brandão, 2009, p. 7) Seus
reflexos fazem-se sentir ainda hoje: desconfiamos
daquilo que ouvimos, afinal “uma imagem vale por mil
palavras”.
Alguns fatores foram preponderantes para que a virtù visiva ocupasse o centro da percepção humana, bem como a disseminação e a valorização imagética:
a) o perspectivismo de Alberti e a visão unilocular;
b) o aprofundamento da alegorização da sociedade: buscava-se aliar as sentenças dos auctoritas – compiladas durante a Idade Média – a imagens, as quais buscavam não só descrevê-las, mas também interpretá-las;
c) a inclusão dos pintores nas artes liberais (ars liberae);
d) a imprensa de Gutemberg;
e) a Reforma
protestante com sua iconoclastia e o consequente avanço
imagético católico, que se tornará seu antípoda.
Lutero, ao fixar suas 95 teses na igreja de Wittenberg
não tinha como preocupação evidente a condenação das
imagens, tampouco seu emprego nas igrejas – apesar de
considerar sua quantidade um exagero –, afinal estava
mais preocupado em atacar o Papa e a venda de
indulgências. Entretanto, ao radicalizar-se a Reforma,
esta saiu do controle de seu mentor e alguns de seus
membros passaram a destruir imagens religiosas: esse foi
o start para que o culto às imagens não só fosse
intensificado como também se tornasse o maior trunfo
propagandístico do status quo católico,
corroborado pelo Concílio de Trento, em 1563. Em uma de suas sessões, ratificaram-se a função
intermediária dos santos, dos anjos e da Virgem Maria e
a importância das imagens como instrumento da prática
devocional em oposição às ideias iconoclastas
protestantes. Esse reconhecimento fundamentava-se na
tradição estabelecida nos primórdios da era cristã,
legitimada pelo Concílio de Niceia de 787 que
estabelecera a tríplice função das imagens na ortodoxia
cristã: a) reavivar a memória dos fatos históricos; b)
estimular a imitação daqueles que eram representados; c)
permitir sua veneração.
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Figura 1
O bom pastor, pintura do
interior da catacumba de Santa Priscila, segunda metade
do século III, Roma.
São Boaventura, no século XIII,
também reiterava a tradição imagética católica, já que
essa deriva de três causas: a incultura do simples, a
frouxidão dos afetos e a impermanência da memória.
(Oliveira, 2000, p. 247)
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Figura 2
Âncora como
representação da cruz, Catacumba de Santa Domitila,
Roma.
Diante do embate em que se
viu inserida com o advento da Reforma, a Igreja Católica
tinha consciência do poder imagético que detinha que
havia aperfeiçoado durante séculos. Precisava, portanto,
adotar uma atitude de autoafirmação e de propaganda
contra uma doutrina que buscava centrar-se no vazio da
concretude imagética – exterior ao sujeito –,
apoiando-se somente no logocentrismo bíblico.
Os protestantes iconoclastas
esqueceram-se de que o λόγος
(lógos) também é imagem, e que ambos possuíram uma
fonte comum, a natureza. Assim, a re-apresentação
simbólica do λόγος poderia ser transferida
a um είκών (eikón) correspondente – também ele
uma reapresentação –, afinal por seu meio os mais
simples conseguiriam aplacar sua incultura, sua
inaptidão diante do todo construído pela humanidade,
incluindo os mistérios da fé. Tanto o λόγος
quanto o είκών dizem algo, são representações; o
λόγος transmite a informação de forma literal,
enquanto o είκών faz o mesmo num relance.
Não se deve esquecer de que
tanto na imagem logocêntrica quanto na pictórica há a
figura do leitor que, devido a seu repertório interno é
que vai direcionar aquilo que será possível, ou
não, compreender do que foi dado. Sem repertório, não
bastarão belos discursos nem quadros repletos de
detalhes, pois a compreensão pode não se efetivar
plenamente. A
linguagem, por exemplo, é transcendida por aquilo que
ela revela, e aquilo que é revelado representa seu
verdadeiro sentido. (Cf.: Iser, 1999, p. 66)
Como representar aquilo que
se desconhece de forma mais eficiente do que a
utilização de uma imagem? Isso faz muito mais sentido em
se tratando da representação daquilo que não se vê, ou
seja, quando se trata do sentimento religioso e de sua
experiência: como enxergar o que não se sabe, o que não
se imagina? Precisa-se da luz para que seja possível
discernir; mas, o que se fez com a supressão imagética
iconoclasta foi cercar o homem de trevas para que ele
pudesse, sozinho, tentar atingir o inimaginável, como um
cego que tenta reconhecer o rosto de seus entes sem
poder tocá-los: eis a visão de um Deus desfaciado.
Entretanto, segundo a
doutrina cristã, Deus tornou-se concreto e mostrou sua
face por meio de seu λόγος cujo poder é tornar-se
imagem real e perceptível daquilo que não é possível
enxergar devido às trevas da ignorância humana. Se
Deus se fez conhecer por meio de sua própria imagem
encarnada, por que cortar a luz que dissipa as trevas do
não conhecimento – cujo elemento básico é a
representação imagética religiosa, enquanto essência do
pensamento simbólico –, privando o homem do acesso
perceptível do divino por meio das próprias imagens?
Esse é o resultado da iconoclastia ao se abolir a imagem
religiosa, pois acabar com sua representação simbólica,
torna-se mais escuro o liame que separa a realidade da
transcedência, já que
com a retirada das imagens
do interior das igrejas protestantes destruiu-se o
pensamento simbólico tão constitutivo para o
cristianismo. (...) Observando
imagens religiosas aprendemos a sentir simbolicamente.
(Dreher, 2001, p. 31)
Os suportes simbólicos
presentes nas imagens religiosas pressupõem a capacidade
de ver em uma coisa o que ela não é, logo de vê-la
diferente do que é (Cf.: Castoriadis, 1982, p. 154);
além disso, depreende-se de seu emprego que haja
um acordo entre uma coletividade para sua utilização.
Essa torna-se, desse modo, arbitrária em relação àqueles
que lhe são estranhos – da mesma forma que o signo é
arbitrário – por isso nem todos podem compreendê-la.
Necessita-se de códigos e chaves comuns, sem as quais
sua decodificação não é possível; supõe, portanto, a
capacidade de estabelecer um vínculo permanente entre
dois termos, de modo que um represente o outro. (ibidem,
p. 155)
Essa diferença entre o ser e
o representar minimiza a não compreensão do mítico, pois
é possível se apoiar no simbólico para visualizar o
transcendente, utiliza-se, dessa forma, aquele para que
serva como um espelho deste, ou seja, da divindade.
Diante do crucifixo, por exemplo, pode-se entrar em
êxtase, apesar de se saber que o mesmo não é, na
realidade, Jesus Cristo. Eis porque chamar as imagens
católicas de ídolos é absurdo: elas estabelecem,
simbolicamente, o que querem representar, buscam
recordar o que se convencionou dizer Cristo
crucificado, a Virgem Maria ou qualquer outro santo.
Outro ponto a se observar é
que essas imagens sacras são codificadas segundo o
momento em que estão inseridas, ou seja, também
participam de uma convenção social a que estão
submetidas, sofrendo, muitas vezes, mudanças na forma
como são representadas, principalmente no Ocidente.
No Oriente, por outro lado, a
confecção de ícones utilizados pela Igreja Ortodoxa
ainda segue os mesmos procedimentos de seu início como
arte sacra: nunca é assinada, não há feixe de luz
externo que incida sobre a imagem em nenhum dos lados, a
luz deve emanar do próprio Cristo, para representar sua
divindade. Há, portanto, uma interpretação metafísica da
representação do corpo humano, pois a proporção está
ligada a aspectos alegóricos, não figurativos,
valorizando aqueles em detrimento destes. E é por
diferir de nosso padrão fotográfico (enquanto
cópia fidedigna da natureza, ou uma realidade
mimética), que o ícone ortodoxo pode não atingir
o teísta ocidental: não representa a realidade
que gostaría de ver.
Se se contempla, sem os olhos
de devoto, o crucifixo em estilo bizantino (fig. 3) da
Igreja de São Damião, em Assis, provavelmente não se é
levado à comoção. No entanto, foi exatamente a
contemplação dessa imagem, de sua expressão e linguagem
simbólica, que São Francisco de Assis foi levado a seu
arrebatamento e conversão.
Infere-se, dessa maneira, que
a expressão realidade mimética como mera cópia e
simulacro do real poderia não atingir o homem do medievo:
seu olhar não estava codificado para ver pela janela
o mundo em perspectiva, afinal a ratio medieval
era transcedente, não estava ligada ao mundo
fenomenológico, nem ao racionalismo renascentista que o
substituiria.
Figura
3
Crucifixo de São Damião, autor desconhecido, aproximadamente século XII.
Assim, o crucifixo de São Damião, como representação de Cristo, reflete aquilo que seus leitores queriam e podiam ver. Tem legitimidade diante de uma sociedade que ainda não está interessada em ver, no Cristo crucificado, um homem das dores, mas Deus que, apesar da morte, ressucitou.
Corrobora-se, portanto,
com o fato de que a imagem sacra – como um ícone
ortodoxo –, é legitimada pela cultura em que
está inserida, e produz efeito naqueles que
enxergam nela muito mais do que tinta e um
pedaço de madeira, mas a própria emanação do
divino que representa. Não há imitação fidedigna,
cópia da realidade, afinal não há a menor
preocupação com as proporções, mas com a
alegorização.
As primeiras imagens de
Jesus crucificado, por exemplo, mostravam-no de
olhos abertos, vestido como sacerdote (fig. 4).
Somente a partir do século XII, é que tem início
a representação da dor e do sofrimento, quando
atingem o ápice da angústia no século XVII:
vemos estampado no Cristo crucificado o
desespero pelo abandono na cruz e a angústia
diante da morte: a igreja mudara seu enfoque e
perspectiva, as imagens deveriam levar à
comoção e à comiseração. Não é essa a
representação imagética da cruz de São Damião; é
possível que uma imagem barroca seria
execrada pela sociedade medieval, que não veria
nela sua representação de Cristo.
Renascimento e
iconologia: ponte entre a Antiguidade e o
medievo
Dizer que o Renascimento
foi um período de desenvolvimento artístico,
econômico e cientificista, cuja visão
antropocêntrica retirou o homem da escuridão
medieval, centrada numa visão simbólica e
deturpada do mundo, é simplista demais.
Afinal, parte das transformações que se deram no
período renascentista tiveram participação dos
estudos medievais. Buscava-se, com esses,
racionalizar a fé cristã a partir de exemplos
dos autores pagãos, apesar de que tal atitude
não ter sido consenso entre os Padres da Igreja
nessa busca. (Cf.: Curtius, 1996, pp. 75-76)
Desse embate de ideias
se formará o pensamento intelectual e conceitual
da Idade Média que atravessou o período,
perpassou o Renascimento, chegando a meados do
século XVIII. Os teóricos medievais, por exemplo,
não se contentavam em restringir seu
conhecimento a um mero embate teológico,
mas em buscar o conhecimento das figuras de
retórica, do tropos e outros elementos
semelhantes (Cf.: ibidem, p. 85); já que
as artes tornam-se indispensáveis para a
compreensão da Bíblia (Cf.: ibidem, p.
82): acreditava-se que os Livros Sagrados também
haviam sido escritos numa linguagem artística e
sob normas gramaticais e poéticas. Assim, os
autores da Antiguidade tornavam-se
indispensáveis para a ampliação dos
conhecimentos dos intelectuais do medievo.
Apesar desses estudos constantes, os estudiosos medievais ainda não podiam distinguir, de forma clara, a poesia da época de Augusto e a do fim da Antiguidade (Cf.: ibidem, p. 88), demonstrando que ainda lhes faltava consciência histórica e crítica (Cf. ibidem, p. 89). Isso pode ser demonstrado no anacronismo artístico – também encontrado na Antiguidade –, pois acontecimentos e tipos humanos daquelas longínquas épocas eram transferidos para as formas e condições de vida contemporâneas: César, Enéias, Pilatos, tornavam-se cortesãos; José de Arimatéia, burguês, e Adão, um camponês do século XII ou XIII. (Cf.: Auerbach, 2004, p. 285)
Figura
4
Crucificação de Cristo, afresco romano do século VIII, Roma.
No medievo, os autores da Antiguidade foram elevados à categoria de autoridades e seu prestígio beirava a cegueira, buscava-se neles aquilo que o medievo ainda não possuía: a autoridade científica (pelo menos em nossa acepção moderna), por isso deixaram de ser uma simples fonte de consulta e de saber, para se tornarem um tesouro da ciência e da filosofia da vida.
Muitos versos de poetas
antigos que condensassem experiências
psicológicas e regras de vida eram decorados ou
colecionados em ordem alfabética para serem
consultados (Cf.: Curtius, 1996, p. 95); além
disso, acreditava-se que as obras dos filósofos
da Antiguidade – como as de Platão – expressavam,
mesmo de forma velada, revelações que anunciavam
a chegada de Cristo ao mundo.
Todas essas informações
formavam mais do que uma coleção de apotegmas,
constituiam um núcleo de conhecimentos – muitos
dos quais imagéticos – que serviriam como base
para muitos preceitos e explicações assimiladas
pelas iconologias e pelos livros de emblemas,
tão apreciados a partir do século XVI. Cesare
Ripa, autor da obra Iconologia, ao
exemplificar suas alegorias, valia-se do vasto
material propiciado por essas sentenças,
conforme podemos comprovar por meio de suas
referências a Homero, Horácio, Ovídio, Virgílio
e Aristóteles.
Convém lembrar que
somente no século XII, tem início a redescoberta
e o aprofundamento da obra de Aristóteles, que
chega à Europa via Averróis (1126-98), maior
aristotélico árabe medieval. Apesar de o
pensamento do Estagirita ter sido condenado, num
primeiro momento, o mesmo foi reabilitado por um
dos maiores pensadores medievais: São Tomás de
Aquino, que procurou conciliar a doutrina cristã
com o pensamento filosófico pagão.
Dessa forma – e apesar
do embate pela aceitação ou não de doutrinas
pagãs pelo cristianismo –, a partir do século
XIII, a doutrina filosófica e teológica de Santo
Agostinho passa a ser compartilhada juntamente
com a de Aristóteles, cujos princípios eram
hauridos por muitos estudiosos em antologias ou
Auctoritates. (Cf. Nunes, 2001) Além
disso, acreditava-se que obras consideradas
herméticas, com conhecimentos encobertos e de
difícil interpretação poderiam expressar
verdades ocultas não só concernentes ao homem,
mas também de acesso à divindade.
Foi essa a leitura que
teóricos do Renascimento fizeram da obra
Hieroglyphica, de Horapolo – que
desvendaria a chave sígnica dos hieróglifos
egípcios –, que aparecera em Florença em 1419 e
que, em pouco tempo, se tornaria um anseio
intelectual, levando a uma busca frenética por
tudo aquilo que se referisse ao Egito –
manuscritos, papiros, obeliscos –, afinal todos
também queriam ter acesso a essa chave sígnica.
Assim, pode-se afirmar que parte do pensamento iconológico renascentista era composto:
1º) pelo acervo de sentenças, de apotegmas e de exempla (paradeigma) dos auctoritas, compilados na Idade Média (Cf.: Curtius, 1996, pp. 96-97);
2º) pelos bestiários e os herbanários – aquele eram tratados medievais sobre animais, este sobre as plantas ––, cuja tradição remonta às versões latinas do Phisiologus grego;
3º) pelo hermetismo
imagético propiciado pelos hieróglifos egípcios,
decorrentes da obra de Horapolo.
Faltava apenas um enlace
final que agrupasse todos esses sistemas
sígnicos em um. Isso foi efetivado, em 1531, com
a obra Emblematum Liber, de Alciati.
Este deu corpo àquilo que já fazia parte do
ambiente cultural europeu desde inícios do
século XV, ao amalgamar todas essas figuras
alegóricas provenientes da Bíblia, das sentenças,
dos hieróglifos e dos bestiários,
concedendo-lhes, além de textos elucidativos,
uma forma visual: nascia o gênero emblemático.
Este se difundiu e
permeou grande parte dos fazeres artísticos do
período – e dos outros que se seguiriam,
chegando inclusive ao século XVIII –, quando
essas imagens trancenderam o meramente estético
e converteram-se em tratados de significações
doutrinais. Dessa forma, a arte ultrapassou
aquilo que poderíamos enxergar como realismo
aparente, maneira como a arte renascentista (e
depois a barroca) é, muitas vezes, visualizada.
Leitura iconológica
Para corroborar essa
utilização imagética empregada nos séculos XV,
XVI e XVII, e tendo em mãos apenas a obra de
Horapolo, far-se-á uma leitura iconológica de
uma obra de Mantegna, a partir dos animais
presentes na cena. (fig. 5)
É possível visualizar,
no primeiro plano, Pedro, Tiago e João que
dormem profundamente, apesar de estarem ali para
vigiar; Jesus está acima deles, em um morro,
postado em oração; do lado oposto, vê-se Judas
chegando com uma turba. Aqui não se propõe fazer
nenhuma análise da construção plástica da obra,
mas somente se ater aos animais nela expostos:
um abutre, lebres e cegonhas.
O abutre, do alto de uma árvore, lança seu olhar para Jesus que está ajoelhado. Apesar de se associar o abutre como a representação da morte, já que se alimenta dela, não é essa a visão iconológica que Mantegna quer nos passar, mas a dada por Horapolo. Este via no abutre a imagem de Deus, já que a ave não precisava de nenhum par para procriar-se – acreditava-se que essas aves eram hermafroditas e se reproduziam por meio do vento. (Cf.: Horapolo, 1991, pp. 92-93) Dessa forma, a imagem do abutre quer dizer que, apesar do sacrifício iminente, Cristo é Deus e seu sacrifício não será em vão, pois reunirá céu e terra novamente.
No caminho que vai dar aos apóstolos, que
dormem, como também próximo a Jesus, é possível
se verem três lebres. Esse animal, segundo
Horapolo, representava a vigilância, devido ao
fato de sempre permanecer com os olhos abertos.
Exatamente o que Jesus havia pedido a seus
apóstolos. (Mt 26, 36-38) Mas, apesar do pedido,
os apóstolos caíram num sono profundo. Não
obstante o torpor dos apóstolos, há três lebres
próximas aos discípulos que continuam alertas,
assim como a que está ao lado de Jesus que,
apesar da agonia deste, vigiava a seu
lado.
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Figura
5
Oração no Jardim das Oliveiras, de Andreas Mantegna, 1460.
Com a consolidação do emprego imagético
propiciado pela obra Hieroglyphica de
Horapolo e a consequente efetivação do gênero
emblemático, os livros desse novo gênero
tornaram-se uma febre na Europa. Várias edições
do Emblematum Liber foram
publicadas, imitadas e traduzidas de tal forma
que os leitores europeus podiam se perder em
meio a essa infinidade de símbolos e
hieróglifos. É nesse contexto que surge uma
obra, publicada em 1593, que seria “a chave
das alegorias dos séculos XVII e XVIII”,
explorada por artistas e poetas tão ilustres
quanto Bernini, Poussin, Vermeer e Milton
(Panofksy, 2004, p. 216), a Iconologia,
de Cesare Ripa
Ripa, portanto,
estabeleceria o elo necessário para que a
Iconologia se firmasse como um modelo
epistemológico. Para o teórico italiano, a
função de sua obra seria uma descrição
fundamentada das imagens, aquilo que Panofksy
denominaria de iconografia. Poder-se-ia inferir
que para Ripa ainda não estava claro o próprio
significado da palavra iconologia, fato que
somente foi realizado após sua morte, na edição
de 1630, quando é possível encontrar a
referência etimológica do termo.
Na página de rosto de
sua edição de 1613, Ripa demonstrara que, mais
do que uma mera compilação de imagens e
palavras, sua Iconologia trataria das
regras que as regem (ibidem, p. 45),
ou seja, estabeleceria uma metodologia de
aplicação de conceitos alegóricos aos mais
diversos fins de que sua sociedade necessitaria.
Para isso, opta pelo método aristotélico a
partir da Lógica e da Retórica, desta retirará a
base teórica da metáfora; daquela, a técnica da
definição.
Além da Antiguidade –
Grécia, Roma[1],
Egito –, merecem destaque na composição da obra
de Ripa o material compilado durante a Idade
Média – as sentenças, as exempla –, bem
como seus teóricos e poetas – Santo Agostinho,
São Tomás de Aquino, Dante, Petrarca –, e do
material propiciado pela emblemática – Ripa,
cita Alciato várias vezes.
Ripa, no proêmio da
obra, cita-nos a máxima que diz ser o homem a
medida de todas as coisas, por isso na imagem,
segundo o propósito estabelecido na
Iconologia, tem de haver a figura humana
(cf.: ibidem, p. 46), afinal é dela que
se pretendem particularizar as contradições
morais. Dessa forma, seria inapropriado que o
corpo do qual se define algo não aparecesse na
definição proposta para o mesmo. (cf.: ibidem,
pp. 46-47)
Havia, para o teórico
italiano, dois conceitos possíveis para se
alegorizar: a) os naturais, que
corresponderiam às imagens dos deuses da
Antiguidade; e b) os inerentes ao próprio
homem. Os naturais já possuíam uma codificação
própria repassada pelos clássicos: cada deus
corresponderia a um ou mais fenômenos; os
referentes ao homem, poderiam ser simbolizados
de várias formas: ou valorizando,
individualmente, o conceito ou repelindo-o.
A partir desse
momento, o autor pontua como definir a
alegorização, a partir de dois princípios
básicos: a) disposição, ou seja, a
expressão física adequada daquilo que se quer
retratar (Cf.: ibidem,
p. 47); b) qualidade,
ou o conjunto de elementos essenciais que
diferenciam algo ou alguém (Cf.:
ibidem, p. 47).
À continuação, Ripa nos diz que quase todas as imagens desenhadas pelos Antigos possuíam essas características, quando levavam em consideração a significação das cores e as características da fisionomia humana; e, para isso, cita a autoridade de Aristóteles. (Cf. ibidem, p. 47) É baseando-se no Estagirita que demonstra a necessidade de se observar os quatro princípios de uma definição:
a) a matéria, os atributos que constituirão os fundamentos para a formação da alegoria;
b) a eficiência, o ser ou não possível a representatibilidade da matéria por meio de uma alegoria;
c) a forma,
a construção da imagem mediante seus atributos;
d) o fim, a percepção visual do conceito
abstrato que se pretende alegorizar.
Para se elaborar uma
alegoria, não se deve fazer uma simples analogia
entre a ideia alegorizante e seu atributo
simbólico, o que demonstraria falta de engenho,
e de pouco valor, como representar o
Desespero com alguém com uma corda amarrada
ao pescoço, ou Amizade, quando se veem
duas pessoas que se abraçam. (ibidem, p.
48) Além disso, convém lembrar que Ripa dava
extrema importância à nomeação das alegorias,
desde que não se tratasse de um enigma, pois sem
ter acesso a sua denominação, não é possível
alcançar o conhecimento de que se quer
significar. (Cf.: ibidem, p. 50)
Vê-se, portanto, que a Iconologia constitui-se em um dos projetos mais ambiciosos para buscar as fontes das personificações e das alegorias que chegaram ao homem do Renascimento, sem que se soubesse [muitas vezes de forma precisa] de que esfera cultural da Idade Média elas provinham. A Iconologia de Ripa é a obra que estabelece parâmetros que por muito tempo vão vigorar na interpretação da simbologia das representações. (Rosa, 2007, p. 247)
A obra de Ripa tornar-se-ia muito mais do que um manual de imagens e sentenças, pretendia moralizar, ser uma taxionomia de virtudes e de vícios acompanhados de suas alegorias visuais. Sua lógica imagética era duplamente articulada, fosse como uma técnica construtiva, fosse como uma técnica interpretativa (Cf.: Hansen, 1986, p. 87-88). Essa interpretação, por exemplo, só seria possível por aqueles que detivessem a chave sígnica que abriria suas portas: era isso que demonstraria o engenho tanto do autor – que não perdera tempo enquanto escrevia (Cf.: Ripa, s/d, v. 1, p. 50) –, quanto do leitor – que teria prazer, na contemplação da obra, e em identificar nela o que se pretendia dizer. (Cf.: Aristóteles, 1996, p. 33)
Da forma como fora concebida por Ripa, a
Iconologia constituira-se em um manual a
ser observado, cujas raízes remontavam tanto à
Antiguidade, quanto à Idade Média; e, apesar de
ter sido concebida no Renascimento, nortearia o
pensamento do homem seiscentista e, ao chegar à
Era da Razão, cairia em descrédito. Algo
que não causa surpresa, visto que parte dos
conceitos de Ripa, bem como da emblemática,
ligavam-se à Weltanschauung medieval,
execrada durante o Século das Luzes, inclusive
com a criação do epíteto de Idade das Trevas.
A imprensa de Gutenberg e a dissiminação do λόγο
A τέχυη (téchne) teve um papel importantíssimo no desenvolvimento da humanidade. Vê-se isso de maneira clara no futuro em que se está e diante das vertiginosas transformações por que se passa atualmente. Conceitos como velocidade e reprodutibilidade fazem parte constante do dia a dia e sequer se dá conta disso.
Tais fatores também foram decisivos para o desenvolvimento do capitalismo e da burguesia, bem como para a disseminação de novas ideias e novas formas de arte, como a vislumbrada a partir dos Quinhentos.
As transformações socioeconômicas e culturais por que passou a Europa em meados do século XV, levaram aquela sociedade a buscar formas mais eficientes e duradouras para se registrarem os éditos reais, notariar custos e gastos, e acompanhar acontecimentos e informações diversas, isso porque se verificou uma maior sofisticação e complexidade em comparação ao período anterior. O desenvolvimento no fabrico do papel, por exemplo, tornou-o mais barato e acessível, não só facilitando seu emprego como também o universalizando e promovendo, inclusive, o acesso de um número maior de pessoas ao λόγος.
Essa dinamicidade criou condições favoráveis para que Johannes Gutenberg aperfeiçoasse a imprensa e seus tipos móveis de chumbo. Tal acontecimento mostrou-se revolucionário, já que por seu meio, a velocidade e a reprodutibilidade de ideias, de teorias e de conhecimentos, atingiram um nível jamais visto na sociedade humana anteriormente.
A maior prejudicada diante desses acontecimentos foi a Igreja Católica que perdeu o status de detentora exclusiva do conhecimento humano, já que foi retirado dela o poder exclusivo de confeccionar e de manter sob seu poder o λόγος escrito, atividade a cargo de monges copistas. Afinal, por esses pertencerem à instituição, esse material manuscrito permaneceria na mesma, resguardando-se sempre numa autogestão, já que não se destinava a outros segmentos da sociedade.
Diante da novidade proporcionada pela imprensa, houve uma rejeição inicial da Igreja, principalmente no que diz respeito à possível popularização da leitura de textos proibidos – inclusive a própria Bíblia, que constava em seu Index Librorum Prohibitorum. No entanto, ao enxergar vantagens para propagar sua doutrina e manter seu status quo, a Igreja não só aceita a novidade como a empregará de várias maneiras.
Mas, o acesso a um número cada vez maior de textos e a rápida propagação de novas ideias filosóficas e religiosas dão início a constantes questionamento contra a própria hegemonia religiosa, desencadeando discussões que levariam a não aceitação da Igreja Católica como única guardiã da verdade espiritual e que culminariam não só com a Reforma de Lutero, como também com uma nova visão cientificista do mundo.
Mais do que questionar, a imprensa levou a mudanças expressivas que contribuíram, inclusive, para ampliar e universalizar as inovações trazidas pelo Renascimento, como a visão unilocular – devido à disseminação da teoria albertiana –; a divulgação de tratados e obras da Antiguidade que, em muitos casos, foram traduzidas para o vernáculo; a propagação e a disseminação sem igual da nova teoria imagética propiciada pelo gênero emblemático e pelas ideias iconológicas de Ripa; sem contar, evidentemente, com a revolução na comunicação humana e sua propagação que seriam vistos, nessa amplitude, apenas séculos depois.
Com a propagação do λόγος escrito, teremos o pleno domínio da visão e o rompimento de parte da interação comunitária, pois o homem foi substituindo, lentamente, o ouvir em grupo para o ler individual, ou mesmo a interação do contador de histórias – que troca experiências entre o grupo – para o orador – que somente se dirige, quando muito, a um grupo –, o reino do ouvir estava cedendo espaço para o do ver. (Cf.: Bacelar, 1999, p. 4)
Pode-se, inclusive
inferir que essa busca pelo individual
assemelhou-se ao boom verificado pela
expansão imagética que se constatou no
Renascimento. As imagens, na Idade Média, tinham
de se dirigir à multidão daí o nivelamento de
sua representação. Facilitava-se com isso, o seu
direcionamento, ela iria aonde seus senhores
quisessem; além disso, a ideia do individual
era relativa, já que se pensava coletivo (e no
coletivo).
Quando se pensa em
leitura no período, deve-se lembrar dos monges
copistas que executavam seu trabalho na
privacidade das salas comunais e de estudo dos
mosteiros medievais, quando falar nem sempre era
permitido; o contrário se via nos campos, quando
a faina normalmente era acompanhada de música ou
de longas conversas para minimizar o esforço de
que, muitas vezes, sequer se tinha juízo –
afinal se estava condicionado para isso e não se
enxergava uma outra realidade que não fosse
essa.
Com o advento da
imprensa, por exemplo, a própria privacidade
monacal ganha em amplitude e chega àqueles que
podem dar-se ao luxo de lerem tanto o λόγος
ali estampado, como também as imagens que
possam estar geminadas a ele, ilustrando-o e
sendo por elas ilustrado, como em um processo de
iniciação: o λόγος ainda sente
necessidade do είκών para se firmar, para
clarificar, já que a tradição escrita, apesar de
longa, esteve durante séculos restrita a poucos;
por isso, para que essa ruminação
logoicônica fosse possível, era necessário
privacidade.
Pode-se dizer que a
imprensa operou uma estandardização das ideias e
conhecimentos e sua dissiminação por diversos
receptores espalhados geograficamente (Cf.:
ibidem, p. 4), contudo essa padronização
não deve ser entendida como aquela que havia no
medievo, pois aqui ela é direcionada ao
indivíduo via λόγος; à diferença daquela,
voltada ao coletivo e por meio exclusivo do
είκών existente nas grandes catedrais (ou
mesmo nas igrejas locais), ou mesmo do ouvido.
Apesar disso, ambas podem doutrinar, à diferença
de que aqueles que têm perfeito domínio do
λόγος possuem maior liberdade para a
escolha, tanto para dominar o mundo como para
não se deixar dominar por ele (Brandão, 2008)
ainda mais quando o λόγος está imiscuído
com o είκών.
De certa forma, a
Igreja tinha razão de temer a imprensa, já que
esta abriu novas possibilidades de se ler o
mundo em que se está inserido e de se questionar
o
status quo. No entanto, se houve baixas
no lado católico, também houve ganhos,
principalmente quando se verificou que o mesmo
λόγος
é que se tornou sua própria força,
quando utilizada por sacerdotes que podiam
dominar os recursos oratórios e retóricos em
busca de embates para a disseminação de ideias,
ainda mais quando, junto ao
λόγος, a
Igreja pôs a seu serviço o είκών.
Exemplo
desse sucesso foram os jesuítas e seu trabalho
ao redor do mundo, pois mal o globo havia sido
descoberto, lá estavam eles com seus
livros, sua capacidade cognitiva, suas imagens,
e seus papéis (junto com toda a rede epistolar
de que dispunha a ordem), cuja função era
ad
majorem gloria Dei.
O rompimento do modelo iconológico
O tempo passou e essa visão e emprego
iconológicos (entre eles o gênero emblemático)
foram sendo relegados ao esquecimento, já em
meados do século XVIII. Apesar disso, as imagens
não se dissiparam, pois o homem necessita delas,
mas dispensou-se o είκών
para compreender-se o λόγος, este se
tornou livre daquele. O vernáculo
estabelecera-se em busca de caminhos mais
refinados, o que se verificou no jogo poético
com suas construções imagéticas, ou em outros
gêneros que viriam como o romanesco. Além disso,
hoje não há mais espaço para compêndios
iconológicos: o mundo mudou, o futuro chegou e o
tempo absorve a sociedade de mil maneiras: não
há mais tempo a perder com charadas,
busca-se a originalidade artística, o plágio,
por exemplo, já era repelido em pleno século
XIX, no Romantismo.
Quando, no século XX, os movimentos
vanguardistas romperam com o conceito mimético,
abriram surpreendentes possibilidades para o
fazer artístico, antes preso a modelos que
deveriam ser simplemente seguidos: não se
enxergava outra possibilidade de fazer arte em
que não houvesse o emprego
μίμησις (mimese):
desconhecia-se o que se conhece por liberdade de
criação, presos que estavam a seus
próprios modelos referenciais.
No entanto, ao se
libertar das amarras da μίμησις,
encerrou-se aquele fazer artístico que a tinha
como modelo, no limbo; e, por não se dispor mais
daquilo que está perdido, de sua
referencialidade iconológica, teve-se de criar
sua própria fonte imagética provedora. Esta,
porém, é única e individual, apesar de coletiva.
Assim, ao se deparar com textos que são alheios
a sua própria Weltanschauung,
redireciona-se a construção dessa leitura
icônica para outros modelos que não são aqueles,
dos quais não se dispõe mais da
referencialidade, mas a outros que se foi
construindo ao longo da vida.
O texto seiscentista,
por exemplo, sempre apontava para um manancial
iconológico predeterminado, logo o jogo entre o
escritor e o leitor consistia em verificar em
que grau aquele conseguia tornar seu texto mais
engenhoso para este, estimulando no leitor o
prazer em solucionar uma dificuldade.
Ao ruir esse sistema,
e ao optar-se pelo novo, pelo inédito, a leitura
de mundo tem de ser construída continuamente. O
mesmo, evidentemente, se dá com a leitura de
poemas e das imagens por eles evocadas, já que
esses têm como função apontar, dizer o
que pretende. (Cf.: Iser, 1999, p. 15)
Não é possível,
porém, apontar para aquilo que não existe mais,
a menos que esse apontamento seja substituído
por um outro correspondente, ou por aquilo que
nós, enquanto leitores, colocarmos em seu lugar,
para que seja possível ativar uma correlação
semântica entre aquilo que foi lido – no caso um
texto extemporâneo – com o mundo a que
pertencemos. Dessa forma, ao se lerem textos
seiscentistas, verificar-se-á que se tem diante
de si um abismo, pois essas correlações que se
farão, serão artificiais demais,
ocasionando certo aborrecimento, pois as imagens
evocadas não se fecham em elos coesitivos, ou se
perdem em interpretações non sense.
Quebra-se, portanto,
a protensão esperada pelo texto, e as
expectativas em relação a ele. Frustra-se,
inclusive, o que dizia Gracián – para quem a
leitura quanto mais difícil, er mais agradável
(Cf.: Gracián, 1987, p. 44) – em relação à
fruição em uma leitura, pois se está diante de
um referencial que se desconhece: o fato que se
acreditava e era esperado, não o é realmente: o
navio que afunda antes de chegar ao porto, não é
um navio, nem porto é um local
para ancoragem!
Essa realidade é
verificada todos os dias por aqueles que ainda
se propõem a ensinar literatura nas
escolas ou mesmo no ensino superior: para seus
alunos, assim como para a maioria das pessoas,
navio sempre será navio, nunca a vida humana!
Por isso, ao ler um texto seiscentista,
acredita-se que o mesmo seja ou infantil
demais – com suas descrições simples, sem
sentido (afinal a maioria está alegorizado) – ou
difícil demais – devido à falta de capacidade
para se abrir a chave sígnica da alegoria, ao
preciosismo da língua, às palavras
desconhecidas, e a sua sintaxe mais rebuscada.
Diante dessa
problemática, verifica-se o interrompimento do
fluxo contínuo da leitura. Essa descontinuidade,
no entanto, não é a mesma que se verifica nos
textos ficcionais contemporâneos que são, muitas
vezes, aguardados, pois é essa quebra da
expectativa que revela a maestria, ou não, do
escritor, afinal deve haver algo por trás
daquilo que não esperávamos. As sequências de
frases nos textos ficcionais devem ser ricas em
mudanças inesperadas, já que essas são
aguardadas. Assim, o fluxo contínuo da sequência
pode até assinalar que existe algo escondido a
ser revelado. (Cf.: Iser, p. 18)
Verifica-se que a
fruição pretendida por Gracián – e que permeará
todo os Seiscentos – consistia no prazer
proporcionado pela revelação do oculto e em sua
dificuldade, no entanto para nós tal prazer
advém muito mais dos momentos de protensão e
retenção, quando
cada correlato de
enunciação consiste ao mesmo tempo em intuições
satisfeitas e em representações vazias. (...)
Quando um novo correlato começa a preencher a
representação vazia do correlato anterior no
sentido da antecipação, produz-se uma satisfação
crescente da expectativa evocada. (ibidem,
p. 16)
Essa satisfação,
portanto, advém da dedução daquilo que, se sabe,
virá num ato contínuo. Esse fruir, no entanto,
só será totalmente possível quando se está
inserido dentro de um grupo com o qual se
partilham ideias comuns; caso contrário, não
será decodificado plenamente, já que pode haver
ruídos em sua transmissão.
Como pode existir
hoje essa satisfação na leitura de textos
extemporâneos, se não é possível completar o
ciclo em que cada correlato individual de
enunciação se abre a um outro, a partir do qual
a ideia do anterior é completada? Reside aí o
fastio que se tem com textos do período
conhecido por barroco, pois esse ciclo não se
fecha. É muito difícil aproximar as duas pontas
do elo sígnico: de um lado as instituições
anteriores não se completam, logo não se
podem evocar representações vazias que
tenham de ser preenchidas. Esse horizonte vazio
somente existirá se o outro também tiver sido
preenchido anteriormente; caso contrário, o
fluxo da leitura interrompe-se. Agora, se se
pensar em um texto poético – muitas vezes
construído por meio de imagens que se sobrepõem
e que podem, inclusive, ressaltar os lampejos do
inconsciente do um eu leitor – e se se delimita
o período em que esse esteja inserido, como o
barroco, ver-se-á que pode haver muitos momentos
vazios ao longo de seus versos, não só no
devir, mas nas relações verso-verso ou
imagem-imagem.
Esses espaços vazios
têm de ser preenchidos, a fim de que se possa
manter pelo menos um mínimo de fluidez possível
na leitura. Esse preenchimento se dará, não com
as imagens que pertenciam àquele momento
extemporâneo, mas com outras: as que pertencem
ao leitor hodierno, pois
aqueles leitores que
não compartilham o código reproduzido [num
determinando momento] se deparam com grandes
dificuldades para compreender o texto. Se o
ponto de vista do leitor é cunhado pelas
concepções de um determinado público histórico,
ele apenas se avivará se reconstruirmos os
códigos históricos que esse público dominara – a
não ser que adotemos uma postura crítica em
relação ao ponto de vista (...). (ibidem,
p. 83)
Dessa forma,
acrescentar-se-ía, durante a leitura de textos
extemporâneos, naqueles espaços vazios –
e são vazios também por nos faltarem elementos
com os quais possamos preenchê-los, devido ao
não conhecimento dos pressupostos que regiam
aquela sociedade como as icononologias –,
imagens retiradas de um acervo individual do
leitor.
É esse acervo que
chamamos de iconofotológico, cuja
fonte seria um acervo fotográfico virtual,
construído durante toda nossa vida. Isso se
torna necessário, porque a dicronia faz com que
o λόγος não se mantenha o mesmo durante o
correr dos anos, já que não é matéria amorfa e
estanque; dessa forma, as imagens, por ele
evocadas, ao sofrerem também elas modificações
sígnicas diacrônicas, não transmitirão o mesmo
conceito/ideia que transmitiam, pois cada
palavra materializa a prática social do grupo ou
classe social que a utiliza e que a modifica
permanentemente no seu cotidiano, a partir de
suas vivências. (Baccega, 2005, p. 2)
Por não se dispor
mais dos manuais iconológicos que dispunham os
artistas do século XVII, necessitar-se-á, ao se
tentar ler textos do período, de outros suportes
imagéticos, a fim de que se possa substituir
aquelas imagens, adequando seus dados/referentes
imagéticos ao momento por que se está passando,
tornando-os legíveis no presente. Isso,
evidentemente, será possível por meio do acervo
iconofotológico de que dispomos hoje, já que o
passado sempre se atualiza no presente,
reconfigurado em novas práticas; além disso,
ambos – presente e passado – servem de base para
planejar o futuro, que está virtualmente contido
neles. (Cf.: ibidem, p. 6)
É, portanto, a esse
estoque imagético individual que se tem
de recorrer para o preenchimento daqueles
espaços vazios durante a leitura. Esses, na
realidade, deveriam apenas indicar o devir
significativo que se tería de preencher com base
naquilo que o autor escrevera, e com base no
próprio repertório do leitor. Assim, devido ao
vínculo sígnico – do lido com o que vai ser lido
– vislumbrar-se-ía a ideia antecipadamente,
gerando a fruição por ver o não visualizado
ainda, ou seja, deduzindo o fato antes de o
mesmo acontecer. Como, normalmente, será mais
difícil preencher esses espaços em textos de
momentos literários tão distantes do presente –
por falta daqueles elementos sígnicos de que não
se dispõe mais –, isso ficará a cargo das
próprias iconofotologias, já que essas seriam o
acervo de que se dispõe hoje; não mais de cunho
coletivo e impositivo, mas cujo alcance é bem
maior do que a limitação retórica imposta pelos
Seiscentos; devido, exatamente, à liberdade de
escolha individual.
As iconologias
dirigiam-se ao coletivo – aos partícipes das
sociedades aristocráticas europeias dos
Quinhentos e dos Seiscentos – a partir de um
acervo cultural também coletivo. Por outro lado,
as iconofotologias também possuem uma fonte
coletiva, visto que são extraídas do meio em que
estão inseridas, porém sua escolha é individual.
Sem dúvida, hoje
existe uma grande pressão social para que se
escolha essa ou aquela imagem que servirá como
paradigma, devido ao poder da propaganda, porém
nem todos se deixam levar por aquelas que lhe
são impostas. Assim, apesar de o acervo
iconofotológico ser coletivo, a leitura feita
por um eu pessoal sempre será diferente daquela
feita por um outro, já que a construção da
Weltanschauung individual tende a predominar
frente a uma coletiva. Isso equivaleria dizer
(em tese) que hoje as pessoas deixam-se
influenciar pelas imagens se, realmente,
quiserem, não por imposição do sistema político,
social ou econômico, apesar de estarmos,
constantemente, sendo influenciados e
direcionados por eles: em tese, hoje, não se é
obrigado a nada, afinal não se vive mais em uma
sociedade estratificada. É possível, inclusive,
verem-se deslocamentos constantes nos diversos
estratos sociais, inclusive mudanças de
tribos, cujos membros podem abandoná-las
(também em tese) por sua própria vontade.
Isso seria
inimaginável na sociedade aristocrática,
absolutista e estamental seiscentista, para a
qual não havia individualidade e liberdade de
escolha: todos tinham de cumprir um papel
determinado, todos eram personagens em uma peça
teatral, cujo palco era o mundo. Assim, não
havia por que reclamar do papel designado a cada
um, já que somente se goza ou se sofre durante
uma representação. Assim, a tópica do grande
teatro do mundo converteu-se em um
instrumento imobilista da maior eficácia: não há
por que levantar-se em protesto pelo destino que
coube a alguém. (Cf.: Maravall, 1997, p. 255)
A imagem
fotográfica e a construção do modelo
iconofotológico
Há quase dois
séculos, a fotografia revolucionou aquilo que
conhecemos por imagem e ela esta cada vez mais
próxima e acessível a todos. Esse seu poder de
estar em todos os lugares, sua ubiquidade.
Essa individualidade
e opção de escolha faz com que nossa
iconofotologia seja sempre diferente da do outro,
por mais que vivamos na mesma sociedade e que
sejamos, igualmente, influenciados por ela e
pela infinitude de imagens que a cercam. Cabem
aqui, por exemplo, os conceitos de punctum e
de studium de Barthes, para quem nem todas
as fotografias têm a mesma recepção pelo eu
individual, ou seja, dá-se atenção mais a
algumas, enquanto, simplesmente, se passa de
forma rápida por outras.
Dependendo do
conhecimento individual, bem como da
familiaridade com determinado tema, algumas
fotografias chamam a atenção em detrimento de
outras. Algo as impele para que, ao se passar
por elas – via revista, livro, internet –, tenha-se,
pelo menos, de deter-se e contemplá-las. É pelo
studium que se verá o olhar do leitor
cruzar-se com o do fotógrafo, à semelhança da
pintura albertiana, quando o pintor forçava-o a
buscar o que ele pretendia. Reconhecer o
studium é fatalmente encontrar as intenções do
fotógrafo, entrar em hamonia com elas,
aprová-las, desaprová-las, discuti-las em mim
mesmo. (Barthes, 1984, p. 48)
Isso quer dizer que, por
meio do studium, leem-se, racionalmente,
as fotografias que se tem diante de si,
analisando-as e buscando encontrar
intencionalidades nelas; diante delas, sequer se
demonstra prazer ou pesar, mas curiosidade. Além
disso, são dominadas na medida em que estão a
serviço da ratio, quer dizer, pode-se
descartá-las quando se quiser. É pelo studium
que se reflete: essa tomada foi ou não
proposital? Essa fotografia é ou não uma
montagem? Algo parecido quando se tem, diante
dos olhos, uma cena como a fotografia 1, quando
se vê a tomada de Berlim pelos soviéticos que
hasteiam a bandeira vermelha sobre o
Reichstag Em seu outro conceito, o punctum,
Barthes diz: não sou eu que vou buscá-lo, é
ele que parte da cena, como uma flecha, e vem me
transpassar. (ibidem, p. 46) Será o punctum que forçará a reterem-se
determinadas imagens em detrimento de outras,
visto que, ao ser atingidos por elas, é-se
impelido a permanecer mais tempo diante delas,
analisando-as, encontrando a origem da seta
que atingiu o leitor.
![]()
Fotografia 1
Hasteamento
da bandeira vermelha no Reichtag, após a
capitulação alemã, 1945.
Assim, enquanto as
imagens iconológicas, nos Seiscentos, serviam a
artistas e a poetas como modelos epistemológicos acabados; hoje, são as imagens
fotográficas, das quais se vale como repertório
imagético completo. Vê-se que a sinonímia
acabado x completo, diferencia-se por uma ser
instransitiva, enquanto a outra é transitiva, ou
seja, uma está encerrada em si mesma (o modelo
iconológico); enquanto a outra, encontra-se
aberta (modelo iconofotológico).
No texto prosaico,
por exemplo, o narrador é o sujeito das
imagens por ser ele o mediador entre elas e
a significação que quer dar. (Cf.: Guimarães,
1997, p. 78) Poderíamos, porém, transferir essa
autoridade exatamente para o eu leitor em
relação a um eu lírico criador dessas
imagens, visto que é aquele que reordenará as
imagens propostas por este, a partir de seu
próprio mundo. Se o narrador/eu lírico nos
apresentar algo para aquilo para que não estamos
preparados, ou que está fora de nosso campo de
conhecimento, pouco valerá tal indução, visto
que o leitor não será capaz de decodificar
conforme o enunciador queria. Iser nos diz que
No entanto, quando se
dá a cisão entre o sujeito e o objeto
proposta por Iser (Cf.: Iser, 1999, p. 85), o
leitor ocupa-se com os pensamentos do autor;
aquele se abandona diante deste e de seus
pensamentos (cf.: Ibidem, p. 88) e,
quando a fusão sujeito x objeto é rompida, é que
se permitem as experiências extrapessoais na
leitura textual, quando a memória do leitor
entra em ação, e seu acervo iconofotológico
permeará sua leitura, principalmente de textos
não contemporâneos, visto que nos hodiernos
ainda persistem muitos elementos de contato
entre o escritor e o leitor. Por outro lado,
esse fato não se verifica de forma tão clara em
um poema, cujo autor está muito distante do
receptor.
Dessa forma, para que
o start da compreensão imagética seja
acionado – não só para uma possível
interpretação, mas também para que fosse
possível, mesmo num primeiro momento, sua
leitura – deve haver um ponto de contato, um elo
perceptivo. Esse está, exatamente, nas imagens,
as mesmas que ultrapassam a percepção por
todos os lados (Bergson, 1999, p. 268), mas
não aquelas que estão perdidas num passado
distante, que fariam com que tivéssemos prazer
se dispuséssemos de seu referencial, mas as que
temos hoje, em nossa memória virtual formada por
nosso acervo iconofotológico.
Temos de valer-nos
das palavras de Foucault e de sua arqueologia
proposta em As palavras e as coisas,
quando nos diz que se não houvesse na
representação o obscuro poder de tornar
novamente presente uma impressão passada,
nenhuma jamais apareceria como semelhante a uma
precedente ou dessemelhante dela, ou seja, sem
imaginação não haveria semelhança entre as
coisas. (Cf.: Foucault, 2007, p. 95)
Portanto, somente por
meio de uma representação nova (não no
sentido epistemológico que havia nos Seiscentos)
seria possível uma leitura de textos barrocos,
devido à inexistência de um referencial
acessível, bem como de uma vontade para fazê-lo.
Assim, verificamos ser natural o avizinhar
termos, mesmo que não correspondam ao que
pretendia seu autor; a palavra pérolas,
por exemplo, ter de ser lida como
adorno,
como jóia, não como
lágrimas.
Assim, representaríamos o que lemos por
imagens que estejam a nosso alcance – via
imaginação –, para que pudéssemos estabelecer
outras relações, mesmo que incipientes com o
mundo pesquisado, no caso, a poética de um
momento específico, conhecido por Barroco.
Para Bergson, a representação tem de abandonar algo de si para
que possa representar, assim pérola tem
de deixar de ser um material orgânico duro,
produzido por ostras, para que possa se tornar lágrima, como era lida nos seiscentos.
Mas, mais do que isso, seria necessário
suprimir de uma só vez o que a segue, o que a
precede, e também o que a preenche, não
observando mais do que sua crosta exterior, sua
película superficial, isolando, se fosse
possível seu invólucro. (Cf.: ibidem, p.
33)
Não é necessário
muito para que se efetive essa mudança
conceitual, esse deslocamento do signo,
principalmente por parte do poeta, cujo objetivo
maior é, exatamente, jogar com o λόγος.
Assim, mais do que isolar o objeto imagem,
esse não deve destacar-se nem iluminar-se.
Afinal, que é um poema senão quadros feitos
de palavras (Carone Neto, 1974, p. 71), os
quais se abrem diante de nós para que sejam
visualizados e nos causem prazer nos moldes da
fotografia?
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[1] Seu modelo foi obtido a partir das medalhas empregadas no Império Romano, já que essas possuíam além de uma imagem, um conceito alegorizante.