Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão
 
 
Introdução ao estudo verbal
 
 

Estudo verbal

 

Verbo é a classe de palavra que possui a maior quantidade de flexões: tempo, modo, pessoa e número. Isso nos ajuda a identificá-lo, pois enquanto outras palavras não podem ser conjugadas, o verbo pode.

  eu escrevo / eu escrevi
ele escreve / ele escreveu

Além disso, o verbo expressa ação, estado. E não só isso. Pode expressar o resultado de uma ação: "Cláudio comprou um livro". Uma sensação: "Ele se apavorou". Um sentimento: "Eu não o invejo"; e muitas outras ideias, sempre com a possibilidade de referir-se a alguém ou a algo – o sujeito – e de situar-se no tempo passado, presente e futuro. O verbo também é essencial para a ação. Não existe oração sem verbo e, às vezes, basta o verbo para que a oração esteja completa:

                        Ganhei!                                 Cheguei.                               Chove.

 

Estrutura do verbo

 

Uma forma verbal é constituída por radical, desinências, vogal temática.

 Radical ou lexema: onde se concentra o significado do verbo. Repete-se em todas as formas, salvo nos verbos  irregulares:

Cantei, cantaste, cantou

 Desinências: indica o modo, o  tempo, o número e a  pessoa:

Falássemos

-sse-: desinência modo-temporal (subjuntivo-pretérito imperfeito)

-mos: desinência número-pessoal (1ª pessoa do plural)

Vogal temática: além de permitir a ligação do radical com as desinências, indica a que conjugação o verbo pertence:

Falaste  – a –  1ª conjugação  (verbo falar);

Vendeste – e –   2ª conjugação ( verbo vender);

Partiste – i –   3ª conjugação (verbo partir).

 

Tempo

 

O tempo verbal indica o momento em que o processo verbal acontece: se é anterior, simultâneo ou posterior. Essas possibilidades são expressas pelo:

Pretérito, que pode ser perfeito (ação iniciada e concretizada no passado), imperfeito (ação iniciada e não concretizada num dado momento)  e mais-que-perfeito (ação iniciada e concretizada no passado anterior a outra também realizada e concretizada no passado); 

Presente é o momento, o agora, o átimo; é indivisível;

Futuro, que pode ser do presente (ação certa) e do pretérito (ação provável dependente de outra).

Além dessas ideias, podemos afirmar que os tempos verbais também podem estabelecer outras relações:

Presente do indicativo, além de revelar simultaneidade, pode indicar:

a)        Um processo habitual:

Eu ando de bicicleta pela manhã.

b)        Um processo permanente:

A água ferve a 100ºC.

c)         Futuro:

  Amanhã eu volto!

d)        Passado (o presente histórico):

Os revolucionários chegam à Bastilha e a tomam.

→ O presente do verbo estar + gerúndio pode transmitir simultaneidade:

O que você está fazendo?

Estou lendo.

Imperfeito do indicativo, além de indicar uma ação iniciada e não concluída no passado, pode:

a)        ter valor de futuro do pretérito, sobretudo na linguagem coloquial.

Se eu não fosse tímido, te dava um beijo!

b)        indicar uma ação passada  habitual ou repetitiva:

Ia ao parque e caminhava como se aquilo fosse sua religião.

c)         indicar polidez para atenuar uma afirmação ou um pedido:

O senhor podia chamar a Sandra?

 

Mais-que-perfeito do indicativo, pode  indicar, na literatura, futuro do pretérito ou imperfeito do subjuntivo:

[...] Mais servira se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida. (Camões)

 

Futuro do presente e o futuro do pretérito do indicativo podem indicar presente ou passado, com nuances de dúvida, de idéia aproximada. Desta forma, esses tempos verbais são muito usados na linguagem coloquial:

Ela terá hoje uns vinte anos.

Ela teria naquele tempo uns dezessete anos.

 

Essas e outras variações servem para dar um valor especial ao texto. Por estar fora de seu contexto real nas orações acima, o verbo ter pode ser substituído pelo verbo estar sem que isso altere a idéia da oração:

Ela estará hoje com uns quinze anos.

Ela estaria naquele tempo com uns quinze anos.

 

O futuro do presente também pode ter valor imperativo:

Não cobiçarás a mulher do próximo.

 

Modo

 

Temos, na Língua Portuguesa,  três modos verbais:

 Indicativo: exprime, em geral, ideias objetivas e não dependentes de outra.

Eu escreverei um livro.

 Subjuntivo: exprime em geral ideias subjetivas, hipotéticas, fazendo sempre parte de  uma oração subordinada.

Se eu fosse capaz, escreveria um livro.

 Imperativo: exprime ordem, pedido, súplica.

Escolha um livro!

 Tais ideias, entretanto, não são tão rígidas, pois é possível

a)  usar o indicativo em situações hipotéticas:

Se eu te pego colando, recolho tua prova!

b) usar o subjuntivo em situações reais:

Como estivesse de bermuda, não o deixaram entrar.

c)  pedir ou mandar sem usar o imperativo. O futuro do pretérito sugere boas maneiras:

Motorista, poderia parar no próximo ponto?

 

Aspecto

 

O momento de ocorrência de um processo verbal é marcado pelo tempo, mas há ainda certas marcações que indicam outras gradações do mesmo. São os aspectos verbais, que podem indicar, por exemplo,

a) se um processo verbal foi concluído (aspecto perfeito):

Ele jantou fora.

b) se o processo verbal se estende por um período (aspecto imperfeito):

Ele janta fora aos domingos.

c) se ele está no início (aspecto iniciativo):

Ele começou a jantar.

d) ou se o processo verbal está no fim (aspecto conclusivo):

Ele acaba de jantar.

→ Atenção: os aspectos verbais são marcados geralmente por perífrases verbais ou por sufixos, como -ecer (que indica início: amanhecer, anoitecer) ou -ejar (indica repetição: sacolejar, pestanejar).

 

Formas simples e formas compostas

 

As formas simples são as constituídas por uma só palavra. As formas compostas são constituídas pelos verbos auxiliares ter e haver + o particípio do verbo principal:

Eu tinha almoçado.

Alguns tempos possuem apenas formas simples, outros, apenas a forma composta.

Não se pode esquecer que, além desses tempos compostos, existem as locuções verbais, formadas por verbos auxiliares (em geral, ser, estar, ter e haver) + verbo principal em uma das formas nominais:

Eu estava caminhando.

Ele tinha sido convidado.

Lúcia vai ser convidada para o chá.

 

Formas nominais

 

São aquelas que podem comportar-se como nome (substantivo, adjetivo ou advérbio). Há três formas nominais em português:

I. Infinitivo: é o nome do verbo; é a forma que mais se aproxima do substantivo e freqüentemente ocupa o lugar de um sujeito:

Falar é prata, calar é ouro.

Há dois tipos de infinito:

a) o impessoal, que não se refere a nenhum ser em especial e não é flexionado;

b) o pessoal que se refere a uma das pessoas do discurso, sendo, portanto, flexionado.

 

Emprego do infinitivo pessoal

Emprega-se o infinitivo pessoal basicamente, quando o sujeito do infinitivo é diferente do sujeito do verbo da oração principal:

Passei aqui para jantarmos juntos.

Jamais se usa o infinitivo pessoal em locuções verbais:

Nós vamos trabalharmos.           

II. Particípio: é a  forma verbal que se aproxima do adjetivo e  a única que apresenta flexão de gênero:

Ela é conhecida por todos.

Ele é conhecido por todos.

Há alguns verbos que  apresentam mais de um particípio, são os chamados verbos abundantes, como é o exemplo do verbo tingir, cujo particípio pode ser tingido (particípio regular) e tinto (particípio irregular). Normalmente, os regulares são utilizados com os verbos ter e haver (tempos compostos) e os irregulares com os verbos ser e estar (voz passiva)

III. Gerúndio: é a forma verbal que se aproxima do advérbio, normalmente presente em orações adverbiais reduzidas:

Só amando você pode ser feliz.

 

Tempos e modos verbais

 

É necessário saber que temos dois tipos de tempos verbais:

a) tempos primitivos - a partir dos quais os outros  tempos se originam:  presente do indicativo, pretérito perfeito do indicativo e infinitivo impessoal;

b) tempos derivados - todos os tempos que se originam dos primitivos.

 

Tabelas  práticas para consulta:

 

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Vozes verbais

As vozes verbais são três:

Ativa: quando o sujeito é agente do processo verbal:

 Jônatas plantou uma árvore.

Passiva: quando o sujeito é o paciente do processo verbal, isto é, ele não age, mas é atingido pela idéia expressa pelo verbo:

 Uma árvore foi plantada por Jônatas.

Há dois tipos de voz passiva:

 a) passiva analítica: formada pelo verbo auxiliar ser (ou estar) + particípio do verbo:

  Os livros foram impressos há uma semana.

 b) a passiva sintética ou pronominal: verbo + pronome apassivador se :

  Imprimiram-se os livros há uma semana.

 c) reflexiva: quando o sujeito agente faz e recebe sua própria ação:

  Jônatas feriu-se com a faca.

 

(ENTRE PARÊNTESES)

 A palavra “se” pode funcionar como:

I. Conjunção                      

a) Integrante: Não sei se ela aceitará.

b) Condicional: Choverá se ventar.

c) Índice de indeterminação do sujeito:  Precisa-se de braços.

 

II. Pronome oblíquo

a) Pronome reflexivo: Paulo cortou-se.    

→ Pode ser substituído por a si mesmo, a si próprio            

b) Partícula apassivadora: Não se alugou o apartamento

O pronome apassivador “se”  JAMAIS deve ser confundido com o índice de indeterminação do sujeito “SE”.

Observe:

Viu-se ali uma cena dantesca.

→ Observe que, nessa oração, o sujeito é “uma cena dantesca”, logo temos uma passiva sintética. Pode-se substituir o SE da oração anterior pelo verbo SER  + o particípio do verbo principal correspondente:    Uma cena dantesca foi vista ali.

 Entretanto, nesta oração:

 Tratava-se de um novo contato.

→  Sendo seu verbo transitivo indireto (atente para a preposição  após o verbo), não se pode formar voz passiva. ( → JAMAIS se forma passiva com verbos transitivos indiretos, intransitivos e de ligação.) Neste caso, “um novo contato” não pode ser sujeito do verbo anterior por dois motivos:

        o sujeito jamais pode ser preposicionado (salvo em:  Não havia a menor intenção de as pessoas terminarem a obra.); Justamente por isso sou obrigado a acabar com a elisão da preposição de + o artigo as

         não é possível fazer a substituição do SE em destaque pelo verbo SER + o particípio do verbo principal correspondente:

            De um novo contato era tratado. (!)

c) Partícula integrante do verbo

→ Há verbos que são essencialmente pronominais e conjugados com o pronome. Não se deve confundi-los com os verbos reflexivos, que são, acidentalmente, pronominais. Os verbos essencialmente pronominais geralmente se referem a sentimentos e fenômenos mentais: indignar-se, ufanar-se, atrever-se, admirar-se, lembrar-se, esquecer-se, orgulhar-se, arrepender-se, queixar-se, etc.:

                                   Pedro se orgulha de sua gente.

 d) Partícula expletiva ou de realce

→ quando seu uso não é rigorosamente necessário, ocorrendo ao lado de verbos de movimento ou que exprimam atitudes da pessoa em relação ao próprio corpo como ir-se, partir-se, chegar-se, rir-se, sentar-se:

                                   Todos se partiram bem cedo.

e) Sujeito de um infinitivo

os pronomes oblíquos atuarão como sujeito após os verbos auxiliares causativos (deixar, mandar e fazer) e sensitivos (ver, ouvir, sentir etc.) quando seguidos de objeto direto na forma de oração reduzida:

                                   Deixou-se ficar à janela o dia todo.

Deixou-se → oração principal        

ficar à janela o dia todo. → oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo

                                   Portanto,se da oração 1 (Deixou-se) é o sujeito da 2 (ficar à janela o dia todo).

Da mesma forma em:       

            O irmão deixou-se envolver por más companhias.

            Lúcia deixou-se guiar pelo cão ensinado.

 

(ENTRE PARÊNTESES)

 

Classificação dos verbos

I. Regulares são aqueles cujos radicais não se alteram e cujas terminações obedecem ao paradigma da conjugação a que pertencem.

II. Irregulares são aqueles que apresentam irregularidades no radical ou nas terminações.

III. Anômalos são aqueles que apresentam profundas modificações em seus radicais. Há dois na Língua Portuguesa: ser ou ir.

IV. Defectivos são aqueles que não possuem todas as formas.

a) verbos impessoais: anoitecer, chover, gear, ventar, que só se conjugam na 3ª pessoa do singular;

b) verbos que indicam vozes de animais: latir, cacarejar, relinchar, que só se  conjugam na 3ª pessoa do singular (ele) e do plural (eles).

c) verbos que, normalmente, por motivos eufônicos não apresentam todas as formas e cuja maioria pertence a 3ª conjugação (-ir). Exemplos: abolir, banir, colorir, extorquir (não têm a 1ª pessoa do singular do presente do indicativo); falir, precaver (só têm 1ª e 2ª pessoas do plural – nós, vós – no presente do indicativo).

V. Abundantes são aqueles que apresentam mais de uma forma para uma mesma flexão:

a) verbo haver: hemos/havemos

b) particípio duplo: imprimido (regular), impresso.

 

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