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História da Alemanha Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão |
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A Guerra dos Trinta Anos, além de ter sido uma guerra religiosa e européia, foi uma variante político-militar de uma crise geral que se abateu sobre o Velho Continente no século XVII; constituindo uma forma extrema rumo à mudança sócio-política da Alemanha e da Europa em direção à modernidade, mesmo que esse impulso modernizador tenha trazido com ele tamanho horror.[1] Como a história já demonstrou inúmeras vezes, quem mais sofre direta e indiretamente com os conflitos é a população. Veremos a repetição dessa máxima durante os trinta anos do conflito que dominou o cenário europeu na primeira metade do século XVII. Dados apontam para mais de 300.000 pessoas mortas nos campos de batalha, além de milhares de civis, em decorrência de doenças, da desnutrição, da ferocidade das tropas, dos grandes êxodos e deportações em massa – entretanto, vale salientar que, apesar de haver muitos dados sobre as perdas humanas na Alemanha ao longo da guerra, nunca será possível precisar seu número, pois são muito contraditórios. Alguns dão conta que cerca de dois terços da população alemã pereceu, cinco sextos das aldeias do império foram destruídos[2]; segundo Buchholz, a Alemanha possuía, por volta de 1600, 15 milhões de habitantes, número que chegou perto dos 10 milhões em 1650.[3] Provavelmente, seja possível afirmar que as maiores perdas foram no campo − cuja população mais sofreu com as nefastas conseqüências da guerra[4] −, oscilando entre 35% a 40%; na cidade − cuja proteção aparente era devida à proteção de suas inexpugnáveis muralhas −, entre 25% e 35%[5]: Die Verlust auf dem Lande werden im Allgemeinen auf etwa 35 bis 40 v. H. Geschätzt, die der Stadt auf 25 bis 30 v. H., wobei die Städte immer relativ schnell einen Teil der Verlust durch Flüchtinge vom Lande ausgleichen konnten. Um detalhe importante é que nem todas as regiões do Império foram assoladas pela guerra concomitantemente: muitas foram poupadas; outras, em contrapartida, foram devastadas várias vezes. Será que somente a guerra, com sua brutalidade e inumanidade, poderia ter causado tamanha destruição no solo europeu e alemão? Houve fatores paralelos a tamanha miséria? Poder-se-ia justificar tal barbárie somente por contendas religiosas ou seriam também elas sociais, apesar de sua inter-relação? Maravall afirma que “não se pode identificar essa crise comum do século XVII com um fenômeno novo derivado da conflagração quase generalizada da Guerra dos Trinta Anos, porque começa muito antes, afeta esferas não ameaçadas pela guerra, foi mais grave nos países que não sofreram os estragos da soldadesca e seu processo de restabelecimento não acompanhou a linha de recuperação das perdas da guerra. A crise do século XVII não pode ser entendida (...) sem que se leve em conta o amplo contexto europeu no qual se desenvolve (...) Tampouco é possível entender essa crise se referindo apenas às dificuldades econômicas por mais graves que tenham sido (...).“[6] Vemo-nos diante de uma sucessão de conflitos banais e crises econômicas num momento de transição, quando o capitalismo, que deu seus sinais vitais já no Renascimento, impulsionando os navegadores em busca de riqueza por meio econômicos, vê-se diante de uma nobreza inepta, que visaria à riqueza e ao lucro fácil por meios da exploração da riqueza alheia. Dessa forma, a grande potência do século XVII, a Espanha, cuja Casa também dominava o Império, é a representação fidedigna do exposto acima, pois enquanto mercadores da Inglaterra, Holanda e França amontoavam fortunas enormes no comércio, os espanhóis haviam descoberto uma forma mais simples de aumentar as somas de dinheiro do tesouro: a exploração das minas de ouro e prata da América.[7] O afluxo dos metais à Europa resultou numa revolução de preços jamais vista: “os preços das mercadorias em 1600 eram mais de duas vezes superiores ao que foram em 1500, e em 1700 estavam ainda mais altos – mais de três vezes e meia o que haviam sido quando a revolução dos preços teve início.”[8] De repente, a Espanha viu-se assolada por uma inflação sem precedentes que, rapidamente, se espalhou por toda a Europa. As pessoas não tinham como comprar nada, sequer conseguiam entender o porquê daquela situação e buscavam culpar-se mutuamente, pois era-lhes incompreensível que tal fato tivesse origem internacional.[9] Dessa forma, a Europa vê-se ocupada por um sem-número de mendigos que ocupavam todos os grandes centros; Paris, por exemplo, na década de 1630, contava com um quarto de sua população constituída por eles.[10] Essa massa de indigentes, deslocados e cheios de rancor, surgiram das guerras, das epidemias, da opressão dos poderosos, da falta de trabalho à [sic] que obriga a crise da economia. No século XVII, eles se encontravam em todos os lados: são conhecidos na França, na Alemanha, em Flandres.[11] Assim, essa crise encerrará uma grande dicotomia em solo europeu: apesar de ter sido uma época de profundo desenvolvimento econômico – vislumbrado na expansão colonial −, será uma época repleta de miseráveis; a burguesia que havia sido a co-responsável pelos descobrimentos, vê-se agora relegada a um segundo plano, enquanto a nobreza tenta de toda forma aumentar seu patrimônio, pois já reconquistara seu poder político, levando pequenos proprietários à penúria e obrigando-os a abandonar o campo, o que aumentava os deslocamentos das massas humanas em direção às cidades.[12] Havia, portanto, de um lado grupos que tentam manter e aumentar seus privilégios e riquezas − e podem fazê-lo −, já que vêem a crise os ameaçar; de outro, uma massa, aparentemente amorfa, açoitada por pestes, pobreza, fome e guerra. Aqueles, sabendo que os recursos de repressão física podem não conter esta, vêem-se obrigados a buscar uma cultura coercitiva, para manter a massa dentro da ordem estabelecida socialmente.[13] Dessa forma, buscaram-se meios de penetração nas consciências bem como o controle psicológico que favoreceriam o processo de integração, além de combater os rancores e a violência. A nobreza estaria assegurando assim sua superioridade sobre o conjunto. Utilizam-se todos os recursos ideológicos, artísticos e sociais para manterem-se as vontades sob controle.[14] Podemos verificar que toda arte barroca acaba sendo um drama estamental: a submissão do indivíduo à moldura da ordem social; reprime-se, assim, toda a individualidade. Na França de Richelieu aspectos tradicionais da estrutura de poder e da sociedade eram mantidos pela força, assim como a sujeição imposta ao povo e a dura repressão de seus protestos (...). ‘Sempre foi o castigar razão de Estado’, escrevia C. de Bocángel, mas nunca como na monarquia do século XVII, sua razão de ser tão principal”[15]. Isso fica claro nas relações dentro dos regimentos do exército, pois não havia mais uma antiga camaradagem, mas uma constituição senhoril severa. Os próprios comandantes e seus oficiais utilizavam de extrema violência para com os soldados, que eram dominados por uma rígida disciplina e submetidos a castigos.[16] Contra esse estado de tensão e mesmo diante de tamanho aparato, eclodiam levantes por toda Europa; parcela da população insurgia-se contra as autoridades locais, viam-se ondas de sedições e de revoltas que eram prontamente sujeitadas pelos exércitos reais e pelos nobres. Muitos desses, temerosos da perda de seu status quo e das nefastas proporções a que tais atos poderiam levar[17], sequer cumpriam sua única ou quase única carga, o serviço militar. Alguns nobres furtavam-se assim de suas obrigações, preferindo até “contribuir” com o rei ou mesmo alegando que não possuíam “fundos para custear os gastos da expedição[18]. Mais uma vez, o ônus dessa situação recairá sobre os mais pobres, que irão aos campos de batalha à força. Demonstra-se, assim, que as bases sociais em que estavam alicerçadas essa sociedade começariam a ruir em todas as camadas. Diante desse estado de infortúnios, surgem, por toda Europa, legiões de ladrões e salteadores. “Existe inegavelmente uma relação entre Barroco e crise social. Encontramo-nos − não apenas na Espanha mas em toda a Europa − diante de uma época que, em todas as esferas da vida coletiva, se vê arrastada por forças irracionais, o apelo à violência, a multiplicação de crimes, o relaxamento moral, as formas alucinantes de devoção etc. etc. Todos esses aspectos são resultado da situação patética na qual se exterioriza a crise social subjacente e que se expressa nas manifestações da mentalidade geral da época.”[19] Isso tornaria a Guerra dos Trinta Anos extremamente perversa, pois não havia mais limites para as ações humanas, o caos instaurara-se, como demonstram as relações entre os membros do exército, mormente os soldados. Estes eram os profissionais mais inseguros que havia no momento, não só por verem-se a todo momento diante da morte, mas também por terem de trabalhar meses, anos e, de repente, seu regimento não existir mais, vendo-se na rua com mulher e filhos.[20] Não que a profissão fosse recompensada à altura dos inúmeros sacrifícios exigidos, porque não era, já que o soldo prometido mormente não era pago, quando era pago; entretanto, poderiam ressarcir-se por meio de extorsões e pilhagens, pois essas eram permitidas.[21] Assim, o despojo era um elemento do qual não poderiam abrir mão para a segurança existencial de si mesmos e de suas famílias. Em primeiro lugar estava a luta pela sobrevivência, não uma tendência criminosa latente, que os levava a roubar.[22] Die Soldaten sind ganz arm, bloss, nackend, ausgemattet - Lebensverhältniisse und Organisationsstruktur der militärischen Gesellschaft während des Dreibigjährigen Krieges. Dessa forma, a população local ficava à mercê dos regimentos e dos exércitos que invadiam suas cidades, obrigando-os a toda sorte de maus-tratos e violações. Nos cinco a seis meses de inverno, por exemplo, os soldados aquartelavam-se nas casas dos moradores. Os que estavam a pé ficavam nas cidades, os a cavalo, no campo, usufruindo de tudo que o morador pudesse ou não oferecer. A exceção eram as casas de príncipes, nobres e sacerdotes.[23] A exação compensatória pelo não recebimento dos soldos, imposta através da ocupação dos exércitos, era extremamente dura à população local. Além do aquartelamento, vinha outra solicitação − a “contribuição” imposta pelo comandante, atingindo tanto o campo quanto a cidade, que era o pagamento único e em prazo curto de uma alta soma de dinheiro.[24] Encontramos, por exemplo, essa situação nos exércitos que travaram as inúmeras batalhas na Guerra dos Trinta Anos, cuja principal característica em relação às outras foi a casualidade. “Tudo nela foi casual: sua origem, seu desenvolvimento, seu alargamento, seu fim”[26]. Pode-se demonstrar isso na própria formação de seus exércitos, cujos soldados ou eram obrigados a se alistar ou não tinham outra opção diante da miséria que se alastrava por todos os meios, sem contar os exércitos como o de Wallenstein, cujos soldados não tinham compromissos com povo algum, diferindo muito do de Gustavo Adolfo, cuja formação era de camponeses extremamente religiosos e nacionalistas[27].
© Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão
[1] Cf.: SCHILLING, Heinz. p. 164. [2] Cf.: HUBERMANN, Leo. p. 107. [3] Cf.: BUCHHOLZ, W. p. 46 [4] Cf.: MOHRMANN, Ruth E. p. 319. [5] HENNIG, Friedrich-Wilhelm. p. 242. [6] MARAVALL, José Antonio. Op cit. p. 74 [7] Cf.: HUBERMANN, Leo. p. 108. [8] Id. ibidem , p. 109. [9] Cf.: id. Ibidem, p. 110. [10] Cf.: id ibidem, p. 107. [11] MARAVALL, José Antonio. Op cit. p. 106. [12] Cf.: id ibidem. p. 85. [13] Cf.: id. Ibidem. p. 88. [14] Cf.: id. Ibidem. p. 105. [15] Id ibidem. p. 94. [16] Cf.: FLEMMING, Willi. 144. [17] Não se pode esquecer que em 1649, após uma revolução, Carlos I da Inglaterra fora decapitado. Impressionado com esse ato, Gryphius publica, no mesmo ano, seu drama Die ermordete Majestät oder Carolus Stuardus, König von Grobbritannien, utilizando, desta vez, como material não a história, mas seu próprio presente e, ao mesmo tempo, reprovando a revolução inglesa. Cf.: GRYPHIUS, Andreas. Gryphius: (Werke ...) p. XIX (Einleitung). [18] Cf.: MARAVALL, José Antonio. Op cit. p. 109. [19] Id ibidem. p. 115. [20] Cf.: FLEMMING, Willi. p. 142. [21] Cf.: id ibidem. p. 145. [22] Cf.: KOERNER, Bernhard. p. 289. [23] Cf.: LANGER, Herbert.. p. 294. [24] Cf.: Id ibidem. p. 294. [26] FRIEDELL, Egon. p. 414. [27] Cf.: FLEMMING, Willi. p. 10. |