Algumas considerações devem ser feitas antes de iniciarmos este estudo
acerca dos sonetos de Andreas Gryphius, principalmente no que concerne à
tonicidade e a métrica empregada pelo poeta − e por grande parte dos
autores do Seiscentismo alemão − em seus versos em língua alemã pós
Buch von der deutschen Poeterey.
Os gregos e romanos mediam os versos em
seqüências temporais separadas por intervalos regulares. Cada sequência
compunha-se de duas ou mais sílabas que eram medidas conforme sua
duração. As sílabas longas, representadas pelo sinal “−”, duravam o
dobro das breves, cujo sinal era
“U “. Assim, seu sistema era quantitativo,
já que considerava a quantidade do tempo gasto pelas sílabas, não sua
tonicidade.
A língua portuguesa, como as demais línguas
românicas, não possuem diferenciação entre vogais breves e longas, como
no latim e no grego. Para nós esse “é um recurso de ênfase, e está
acondicionada pelo acento, pelo contexto fonético ou por múltiplas
razões de ordem afetiva”[1].
Dessa forma, quando da passagem do latim para as línguas românicas, a
métrica quantitativa dos gregos e romanos foi substituída por um sistema
qualitativo, silábico ou acentuativo, levando em conta a intensidade ou
tonicidade das sílabas, dividindo-as em fortes (tônicas) e fracas
(átonas).
Por possuir vogais breves e longas, a
métrica alemã empregou a terminologia greco-romana, adaptando-a ao
sistema qualitativo, ou seja, a vogal longa (Hebung)
corresponderia à vogal tônica e a breve (Senkung),
à átona. Os pés métricos preferidos por Opitz eram o jâmbico ( U − ) e o
troqueu ( − U ), empregados também por Gryphius, que normalmente
utilizava palavras monossilábicas que já eram ou tônicas ou átonas,
apesar de mudar, algumas vezes, sua tonicidade para que o verso ganhasse
maior dinamismo. Além dessa, há algumas outras particularidades na
métrica da lírica de Gryphius que merecem consideração:
a) o poeta fazia a tonicidade das Verbalkomposita recair sobre o radical: auffréiben, ankómmen, einbréchen;
b)
não no prefixo: ‘auffreibe, ‘ankommen,
‘einbrechen
com as composições nominais, a tonicidade iria
sempre para a segunda sílaba: unfrúchtbar, Jungfráuen, grobmütig
(não ‘unfruchtbar, ‘Jungfrauen,
‘grobmütig)[2];
c) querendo transmitir muito, apesar da rigidez do soneto, Gryphius utiliza-se,
mais que qualquer outro poeta do período, de metaplasmos, sobretudo das
apócopes − seh (sehe), sterb (sterbe),
sag (sage), Ehr (Ehre) − e das síncopes
− eur (euer), Feur (Feuer), traurt (trauert),
sehn (sehen), gehn (gehen)[3];
d) em seus primeiros sonetos utilizava a contração da preposição com o
artigo: vorm, ins, preferindo, em edições posteriores,
simplesmente eliminar o artigo;
e) em seus primeiros poemas, utilizava-se
muito de expressões expletivas que conferiam ênfase e musicalidade
ao texto: auch, nun, doch, noch, jetzt, gar, ganz, stets, mehr,
recht, nur, o que foi evitado em edições posteriores, com o intuito
de criar uma linguagem poética, por meio da sintaxe e da escolha
de palavras,[4];
f) Gryphius utilizava-se da aliteração com
habilidade, criando jogos sonoros e demonstrando ser um mestre do ritmo.
Servia-se de duas aliterações no mesmo verso ou em alternância em vários
versos:
Mein Herz das ubersteht numehr den letzten
Strauss/
Ein jeder/ der mich siht spürt
dass das schwache Hauss.
Hier durch
die Schanz
und
Stadt/
rindt
alzeit frisches
blutt.
Dreymal
sind
schon sechs
jahr als
unser
ströme flutt
Von
so viel leichen
schwer/
sich langsam
fortgedrungen.
g) Além dos exemplos acima, fazia uso também da Stabreim, espécie de
rima utilizada nos poemas do antigo alemão: Angst und Ach, kein Tod
kein Teufel, weder Weh noch Wohl, schneidend Schwert, höchste Heiligkeit,
wisch die Wangen, Kind erkoren, der du durch den, ich ruf! o ruht;
h) Enquanto outros poetas do período utilizavam a assonância somente superficialmente[5], Gryphius foi mestre em seu emprego, conferindo a versos de alguns de seus sonetos uma grande musicalidade interna: Segens...Regen, Zank und Brand, Ach nicht Pracht, des Halses falsche Pracht;
i) Outra grande preocupação do poeta, principalmente após sua viagem à Itália e à França, foi em relação às rimas, diferenciando-as quanto à tonicidade, ou seja, uma maior atenção em não rimar vogais longas com breves: Gott com Not, ou hat com Rat. Normalmente utiliza-se de rimas pobres, visto que era comum rimas entre verbos ou entre substantivos:
Erfrische was die glut’ der Hellen hatt’
versehret.
Mitt hartten fussen trit’! kom süsses Himmelbrodt,
(subst.
+ verbo)
undt labe, die der durft und hunger gantz verzehret.
j) Gryphius escreveu alguns poemas utilizando também o dáctilo (− U U), utilizado sobretudo quando queria transmitir comoção, ou em versos que mostravam horror e crueldade;
k)
O metro utilizado por Gryphius em grande
parte de sua obra lírica, bem como com a dramática, foi o Alexandrino,
que o poeta levou à perfeição, não sendo superado por nenhum outro poeta
do século XVII[6]
na Alemanha.
O alexandrino
O alexandrino proveio das canções de gesta francesa que o utilizavam. Temos, por exemplo, Le Pelérinage de Charlemagne à Jérusalem e Roman d’Alexandre de Lambert le Tort, do século XII, do qual, possivelmente, veio sua denominação. Provavelmente, o verso seja uma variante dos versos das tragédias clássicas, que tinha no hexâmetro “o mais célebre e o mais comum dos versos da Antiguidade greco-latina (...) ‘o veículo únicos das gestas, épicas de heróis, da genealogia dos deuses’”[7] ou do trimetro jâmbico (U − U −). O certo é que durante muito tempo fora deixado de lado, ressurgindo no século XVI como verso preferido pelas tragédias francesas (por Corneille e Racine) e um século mais tarde, Martin Opitz escolhe-o como principal metro da poética alemã, com o qual se expressaram os principais poetas do Seiscentos alemão.
Sendo um verso jâmbico, o alexandrino
inicia-se com uma sílaba átona que é seguida com a alternância de seis Hebungen, cada qual intercalada com uma Senkung. A
cadência e as rimas podem ser formadas por vogais átonas (rimas
femininas), ou vogais tônicas (rimas masculinas). Assim, o alexandrino
pode possuir doze ou treze sílabas. O verso é dividido em dois
hemistíquios, por meio de uma cesura, logo após a terceira Hebung.
Assim divididos, poder-se-iam construir idéias antitéticas[8]:
DU sihst/ wohin du sihst nur eitelkeit auf erden.
U
− U − U −
/ U − U −
U −
U
Was dieser heute bawt/ reist jener morgen ein:
U
− U − U −
/ U − U −
U
−
Wo itzund städte stehn/ wird eine wiesen sein
U
− U − U −
/ U − U −
U
−
Auff der ein schäffers kind wird spilen mitt den heerden.
U
− U − U −
/ U − U −
U −
U
Vale acrescentar também que em 1662,
Gryphius torna-se “imortal“ pela
Fruchtbringende Gesellschaft, cujo
objetivo era a pureza da língua alemã. Sente-se, portanto, impelido a
recusar a utilização de palavras estrangeiras em seus textos. Assim, em
1663, a última edição − em vida − de seus sonetos, o poeta germaniza os
estrangeirismos:
|
Modificação |
|
Texto original |
|
Fahrt wohl |
|
Ade |
|
Bilder |
Phantasie |
|
|
Irrend Feur |
Kometen |
|
|
Ufer |
Port |
|
|
Herrenhaus |
Parlament |
Provavelmente, sua origem remonta ao século I a.
C., em Alexandria,
já que alguns elementos fornecem provas de
que tal fórmula era originalmente grega como atestam Sófocles, Górgias e
Platão.[9]
“Através
desse versículo, o número foi santificado como fator constitutivo da
obra divina da criação. Adquiriu dignidade metafísica. Este é o motivo
grandioso da composição numérica na literatura.”[10]
Dessa forma, se o plano de Deus era aritmético, o escritor deveria
deixar-se guiar também pelos números, que haviam se tornado (para o
homem medieval), símbolos da ordem divina.
Os teólogos, por sua vez, eram fascinados pelos números, presentes na
Bíblia, sobretudo no Apocalipse de São João. Procuravam compreendê-los e
utilizá-los em suas obras, para que pudessem imitar o processo da
criação divina. Mesmo na literatura medieval alemã, os números possuíam
um papel importante, mormente na poesia religiosa. é justamente nessa
tradição literária religiosa que Gryphius, filho de um pastor
protestante, cresceu.
[11]Portanto,
não é de se estranhar que o poeta tenha escrito a composição de sua
primeira obra, conhecida por Lissaer Sonette[12],
segundo o princípio numérico e não o da ars
poetica do Renascimento.
Podemos notar isso na construção que o poeta faz no título da obra:
ANDREAE
GRYPHII
SONNETE
Não há no título nenhuma informação sobre o editor, o ano da edição e
seu local, somente três palavras e cada uma com sete letras, além disso
todas as palavras possuem três sílabas. Não se deve esquecer de que os
números 3 e 7 são números importantes na linguagem bíblica. 3 é o número
da Santíssima Trindade, 7 é o da totalidade, da plenitude: Deus criou o
mundo em 7 dias; também pode ser o sinal da aliança entre a divindade e
sua criação: é o resultado de 4 (número dos elementos naturais criados
por Deus: terra, água, fogo e ar) com 3, número da Trindade (divindade).
Um dos livros da Bíblia que mais citam esses números é o Apocalipse de
São João:
João às
sete
igrejas que estão na Ásia.
Apo 1,4
Depois de
três
dias e meio, um sopro de vida veio de Deus e penetrou nos dois profetas.
Apo 11,11
Assim, segundo o esquema de Szyrocki, se somarmos
os números de sílabas (3) com o das letras de cada palavra (7),
obteremos o número 10 (também um número bíblico: o número dos
mandamentos). Logo, o número
correspondente às outras palavras também
será 10 e sua soma geral corresponderá
a 30. Esse é o número de sonetos existentes
na obra, excetuando o poema inicial (uma dedicatória) e o soneto final.
Vale salientar que o poema inicial tem 16 versos; o final, que é um
soneto, 14, assim a soma dos dois poemas corresponderá também a 30
versos. Szyrocki acredita que o número 6 é, para Gryphius, o número da
vanitas,
talvez por ser o número do soneto que leva conceito estampado em seu
título (além de estar destacado com letras maiúsculas):
VANITAS, VANITATUM
ET OMNIA VANITAS
Se contarmos o número de letras do título do
soneto obteremos o número 30, entretanto o porquê de Szyrocki ter
chegado ao 6 como número da vanitas
nos é desconhecido. O próprio Szyrocki esclarece isso em uma nota de
rodapé em sua obra Andreas Gryphius: Sein
Leben und Werk, afirmando que a explicação
para ter chegado a esse número encontra-se em outra obra de sua autoria:
Der junge Gryphius,
a qual não tivemos acesso. O soneto que tratará mais explicitamente da
vanitas,
cujo
título está acima, é o de número 6 que, segundo Szyrocki, somente possui
30, pois excluiu o último como já havia sido informado.
Lissaer Sonette
O grupo que inicia os Lissaer
Sonette
é composto por poemas religiosos[13].
O soneto de abertura é um poema de invocação, entretanto não as musas −
que haviam ressurgido das cinzas, em que estavam confinadas boa parte da
Idade Média, por Dante, Camões e mesmo Milton, com sua musa cristã[14]
−, mas ao Espírito Santo.
A invocação ao Espírito Santo estará presente e iniciando todas as
edições de seus sonetos. Algumas edições (1643, 1650, 1657, 1663)[15]
inclusive, chegando a possuir dois, além de seis outros que nunca foram
publicados, sendo conhecidos somente na edição póstuma de 1698.
An
Gott den Heiligen Geist[16]
( I ) corrobora verdades teológicas fundamentais e é para ser lido como
uma invocação.[17]
Os versos transmitem seriedade e querem levar o leitor à oração.[18]
O wahrer Liebe Fewr! Brunn aller gutten Gaben!
O dreymal grosser Gott/ O höchste Heyligkeit!
O Meister aller Kunst/ O Freud/ die alles Leid
Vertreibt/ O keusche Taub/ vor der die
Hellen-Raben
Após a “invocação” ao Espírito Santo, seguem mais quatro poemas
religiosos. Com exceção do segundo:
An den am Creuz auffgehenckten Heyland
( III )
[Ao Salvador pendente na cruz],
de Matthias Casimir Sarbiewski;
Gedencket
an Loths Weib
( V. )
[Lembrem-se
da mulher de Ló],
de Bernhardus Bauhusius.
O próximo grupo inicia-se com o poema VANITAS VANITATUM, ET OMNIA VANITAS
(VI)
[Vaidade das vaidades, tudo é vaidade]
e refere-se à transitoriedade da vida, como demonstram os seguintes
versos:
Ich seh’ wohin ich seh/ nur Eitelkeit auff Erde/
Was dieser heute bawt/ reist jener morgen ein
Wo jtzt die Städte stehn so herrlich/ hoch und fein
Da wird in kurtzem gehn ein Hirt mit sein Herden
O eu lírico absorto pelo espírito do Eclesiastes
vê e demonstra-nos que as obras e a grandeza humana são passageiras, por
isso não se deve acreditar na eternidade de tudo aquilo que o homem
constrói, principalmente naquilo que parece ser perene. Hoje vemos
cidades que resplandecem, mas de repente, somente ovelhas e seu pastor
lá estarão. Assim, a vanitas fundamenta-se a partir do próprio testemunho do
poeta que pôde senti-la de perto, emprestando sua experiência ao eu
lírico para que este pudesse retratá-la melhor.
Após essa visão pessimista e sem esperança, o eu lírico nos remete a
outras imagens semelhante nos sonetos seguintes:
Há, no próximo grupo, três sonetos ( X, XI e XII ) em que o poeta fala
de seu aniversário, da morte do pai e da morte da mãe:
Was Gott recht fürchten hieb/
was Trew und Heilig seyn![20]
Os
sonetos XIII ao XVIII são uma sequência de poemas de louvor a
conhecidos, a parentes e a benfeitores.
O quinto grupo corresponde, segundo Szyrocki, a Schönborner ( XIX ), seu protetor, e dois a sua filha Elisabeth ( XX e XXI ).
O amor sob seus vários aspectos será o tema dos sonetos XXII ao XXV,
seja:
a)
o amor conjugal:
Auff Herrn Gottfried Eichhorns JC.
Unnd Jungfraw Rosinae Stolzin Hochzeit
(
XXIII ) [Ao casamento do Senhor Gottfried
Eichhorn e da Senhora Rosina Stolzin];
b)
o amor entre os amigos:
c)
o amor sensual:
O
último grupo começa com o mais conhecido soneto
de Gryphius,
Trawklage des verwüsteten
Deutschlandes ( XXVI ) [Lamento
da Alemanha destruída], que será renomeado,
em edições posteriores, para Tränen des
Vaterlandes. Anno 1636
[21]
[Lágrimas da Pátria. Ano 1636].
No poema, o eu lírico demonstra-nos sua desolação frente à guerra e faz
questão de incluir-se entre aqueles que padecem:
Há, no poema, sucessivas imagens que remetem aos Cavaleiros do
Apocalipse:
Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro era a
Morte.
(...) Deram para ele poder sobre a quarta parte da terra, para que
matasse pela
espada,
pela
fome,
pela
peste
e pelas feras da terra.
[A morte]
(Ap
6, 2-8)
(...)
E os sete Anjos com as sete
trombetas
se prepararam para tocar. (...) nessa hora vi e ouvi uma Águia voando no
meio do céu, e gritando em alta voz: “Ai! Ai! Ai! Dos que vivem na
terra! Ainda faltam
três
toques de
trombeta.
E os anjos estão prontos para tocar.”
(Ap
8,6 e 13)
A terça parte dos homens morreu por causa destas pragas: o
fogo,
a fumaça e o enxofre que saíam da boca dos cavalos.
(Ap
9, 18)
Gryphius, imbuído das imagens que presenciara na
Guerra dos Trinta Anos e das alegorias apocalípticas,
(d)escreve assim a destruição da pátria
pela guerra:
Die Jungfrawn sind geschänd; und wo wir hin
nur schawn
Ist Fewr/ Pest/ Mord und Todt
[22]
Além dessas imagens retoma no décimo verso os
números 3 e 6 para designar o tempo transcorrido da guerra, ou segundo
Szyrocki, ratificando a vanitas:
Apesar de tudo isso, o pior ainda estava por vir: a perda do tesouro
espiritual[24]
e com ela a total desesperança, daí ela ser até pior que a morte
corpórea:
(Du Strabburg
weist es wol) der grimmen Hungersnoth
Und dab
der Seelen=Schatz gar vielen abgezwungen.[25]
Nos outros sonetos deste grupo, Gryphius coloca-nos diante de sonetos com características satírico-epigramática sobre a ganância, a falsidade, o desprezo e a difamação[26]
Vale observar como o poeta trabalha a difamação no
penúltimo
soneto (XXX)
da edição de Lissa:
An einen falschen Zwey=züngeler
Die schwarzen sehn/ in dessen schlimmen Mund
Das natterzischen pfeifft/ du mehr alb
tober Hund
Du gantz verschalckter Fuchs/ du Haub
der grimmen Drachen.
[27]
A
sátira, que consistia na crítica e censura de
pessoas, instituições e da sociedade, foi uma criação latina de Lucílio
que lhe deu sua feição definitiva. Era
escrita em hexâmetros, sem uma disposição
fixa, além de utilizar linguagem popular. Dessa forma, sua estrutura e
seu metro adaptaram-se bem à estrutura poética das línguas nacionais[28],
Gryphius utilizar-se-á do alexandrino, como vimos acima.
A sátira pode ser efêmera se a circunstância que a motivou perder-se no tempo, no entanto pode não se desgastar ao longo dos anos se puder revelar defeitos inerentes a grande parte da humanidade. Gryphius fará isso, valendo-se
de lugares-comuns imagéticos, de Horapolo à emblemática. Podemos ver essa inter-relação ao lermos a descrição feita por Cesare Ripa da maledicência em sua Iconologia em relação com o soneto acima:
Mujer de horrible aspecto que aparece sentada y con la
boca
abierta (...). Su traje ha de estar roto por diversos lugares, siendo
del color de la herrumbre y enteramente adornado con muchas lenguas
semejantes a las de las
sierpes.(...)
Se pinta fea porque no solo es de la mayor fealdad el pésimo vicio de la
Maledicencia, siempre dispuesta a causar daño y la ruina del prójimo
(...) gente de la que bien puede decirse que llevan el diablo en la
lengua(...).
(...) la
lengua
del malediciente es igual que una
víbora,
que todo fácilmente lo ensucia con su aliento, siendo también como lanza
agudísima, que de
un solo golpe penetra hasta lo hondo (...).[29]
(...)
pero la imagen de la serpiente asociada a la boca no quiere representar exclusivamente el órgano corporal; también aparece en relación con el habla, con las artes de la palabra, es decir, con la Dialéctica.[30]
“Vanitas”
Seguramente a vanitas será uma das idéias recorrentes na poética de Andreas Gryphius e que permeará também sua obra dramática. Dessa forma pode-se até falar que a Guerra dos Trinta Anos tenha influenciado seu modo de pensar e de criar: nada é eterno, tudo é efêmero, tudo passa: juventude, poder, força, ciência, riqueza... Tudo para o poeta é vaidade e passageiro, já que ele próprio, tendo sido testemunha ocular da guerra, presenciou dia-a-dia a destruição e a decadência de tudo que é mundano. [31] Vemos isso desde seus primeiros poemas de forma expressiva, como no primeiro verso do soneto Vanitas, vanitatum et omnia vanitas:
Ich seh’, wohin ich seh’[32]
G
ryphius, então com vinte anos, ainda estava sob o impacto das imagens presenciadas e vivenciadas, expõe sua expressão pessoal diante daqueles infortúnios, utilizando dessa forma a primeira pessoa: Ich. Na outra edição desse poema, Es ist alles Eitel [Tudo é vaidade], o poeta será menos subjetivo, menos pessoal:
Temos também como exemplo da vanitas o soneto Menschlisches Elend
[34], em que o eu lírico, por meio de uma indagação ontológica que sempre perseguiu a humanidade, inicia o primeiro hemistíquio do soneto:
A resposta não poderia ser diferente, o eu lírico explorará a
vanitas, remetendo-nos a série de imagens:
Ein Baal des falschen Glücks/ein Irrliecht dieser zeit/
Ein Schawplatz aller Angst/ unnd Widerwerigkeit/
Ein bald verschmelzter Schnee/ und abgebrannte Kerzen/[35]
Afinal, quem somos? Que somos? Senão uma casa de infortúnios, de dores,
de penas e de tormentos? O lar deveria ser abrigo, aconchego, mas
torna-se um nicho de dores: o eu-lírico espelha-se no poeta, já que o
mesmo teve de ser errante muitas vezes.
O eu lírico também nos remete a um baile, a uma festa, que era
demonstração da pompa e artificialidade da grandeza e do poder social
daquele que a oferecia[36].
Entretanto sua alegria é dissimulada e falsa,
já não é fonte de prazer, pois o baile é de
falsas felicidades, nele não há archotes que nos iluminam para a dança,
mas a luz sinistra do fogo-fátuo e do extermínio indicando-nos que o
caminho é o fim, é a morte, daí não ser necessário a artificialidade,
levando-nos à resignação, não ao protesto, por nosso fado.
Do cemitério, o eu lírico leva-nos ao teatro em cujo palco cada um
representa seu papel: “não há porque levantar-se em protesto pelo
destino que coube a alguém; não há por que lutar violentamente para
mudar as posições designadas aos indivíduos, já que, por si só, na ordem
dramática (...) está assegurada a rápida sucessão das mudanças”
[37],
pois nada é perene na vida.
Vem, pois a constatação de que a vida é
como um palco, não é um palco, ou seja, também sairemos de cena. Como
resultado, temos o medo,
por isso o palco é repleto de medo e
adversidades.
Somos neve e quando o sol da primavera chegar, derreteremos e deixaremos de sê-lo. O eu lírico não estipula o estado em que nos encontramos enquanto neve: ein bald verschmelzter Schnee: nem água, nem vapor, estamos na transitoriedade: uma neve que se derreterá logo. Como se não bastasse, o eu lírico coloca-nos diante de outra imagem que nos remete novamente a vanitas: a vela, que desde a Idade Média já era utilizada para indicar a brevidade e a decadência mortal da vida
[38].
Podemos encontrar vários outros exemplos da vanitas
na obra
lírica de Gryphius como nos exemplos seguintes:
IN angst/ in trüber noth/ in hoffnung/ schmertz vnd pein
In sorgen vnd in ach/ hab ich dib
kurtze Leben/
Wo fern es leben heibt/
der eitelkeit gegeben.[39]
Der steigt und jener fält/ der suchet die Paläst
Undt der ein schlechtes dach/ der herscht undt jener webt,
Was gestern war ist hin/ was itz das gluck erhebt;
Wirdt morgen untergehn/ die vorhin grünen äste
Sindt nuhmehr dür undt todt (...)..[40]
Quando se analisa a
vanitas em Gryphius, deve-se atentar para
não cairmos no senso comum, comentado anteriormente, de acharmos que ela
é um mero resultado de sua experiência pessoal.
Mauser expõe tal problemática da seguinte forma:
Nach diesen Erörterungen kann die Frage
nach dem biographischen Zusammenhang den Vanitas-Sonetten um konkreten
Ereignissen im Leben des Dischters und in der Zeit neu gestellt werden.
An sich überrascht es nicht, dab
die Forschung lange Zeit in Gryphius (...) den dichter des Pessimismus
un der Lebebsnot sah, seine Aussagen als Bekentinisse las un nicht
zögerte, den “Grund für Lebensangst“ im “Geschick des dichters selbst“
zu sehen. Seine Lebensgeschichte und die Wirren des Dreibigjährigen
Krieges gaben dazu reichlich Stoff.[41]
Dessa forma não se deve ver nos sonetos do autor
apenas elementos autobiográficos, pois nos séculos XV e XVI o tema da vanitas já era
recorrente, expandindo-se, no século XVII, para muitas regiões da Europa
como França, Inglaterra, Holanda e Itália, países nos quais a Guerra dos
Trinta Anos não teve influencia direta. Vale a pena lembrar também que a
vida no século XVII, mesmo durante a guerra, não era tão perigosa como
poderiam supor os textos de vários autores da época, inclusive Gryphius,
principalmente em regiões como a Holanda e
a Polônia, onde o poeta escreveu grande parte de seus sonetos.[42]
Normalmente não se leva em consideração, quando se fala da poética do
século XVII, a preocupação que aqueles autores tinham em relação à forma
e a intenção poéticas, pois, mais que uma preocupação com experiências
pessoais, viam-se impelidos a seguir regras retóricas, metáforas,
tópicas e lugares-comuns que estavam à sua disposição. Assim “a poesia
não é expressão de sofrimentos pessoais, agravos, situações aflitivas e
contestações, mas a formulação de um tema de interesse geral (...)”,[43]
que, por sinal, não era prerrogativa apenas da poesia como também das
tendências artísticas e religiosas da vida cultural daquela época.
É inegável, contudo, que as experiências do homem Gryphius não pudessem ser empregadas para explicitar o memento mori que impregnava o pensamento do Seiscentismo, tão escancaradamente amante da morte, apesar de essa obsessão não ter sido uma mera reflexão sobre o fim da vida humana,
[44] mas um objeto de estudo: o cadáver permeará as obras da dramaturgia barroca intensamente. Benjamim considera-o parte integrante da emblemática, mesmo que para isso tenha de estar fragmentado[45], daí os livros de empresa nunca exibirem o corpo humano em sua totalidade.
Dessa forma, Gryphius poderia aliar suas experiências pessoais − diante
do caos que havia presenciado: morte, peste, fogo, desesperança − com a
rigidez das formas retóricas, sem, contudo, fugir dos critérios já
preestabelecidos, pelo contrário, já que era exatamente por esse
material que as preceptivas barrocas ansiavam e buscavam
insistentemente.
Outro fator preponderante que não deve ser
esquecido é a constante presença do sacro na Weltanschauung
do
século XVII, pois aquilo que para nós, leitores do século XXI, soa como
pessimismo, desespero, niilismo e falta total de esperança era
simplesmente a orientação natural desse espírito religioso, cujo
objetivo moralizador queria “reformar, reparar e corrigir os costumes do
homem.”[46]
Qual seria o melhor espelho para refletir essa necessidade moralizadora
senão a própria imagem do Cristo sofredor? Logo, a futilidade do que é
mundano, sempre recorrente na palavra e na imagem barrocas, também terá,
nos sofrimentos de Cristo, relação direta.
Assim se expressa um autor da época, Valerius Herberger:
Dessa forma não podemos dizer que tal sociedade era pessimista ou
niilista na concepção contemporânea da palavra, pois se as marcas do
sofrimento de Cristo são letras e palavras, tais imagens deixam de
representar, simplesmente, uma sensação pessimista da vida e do mundo
para tornarem-se o caminho que leva à salvação e à vida eterna,
justamente o que aquela sociedade almejava.
[1] Cf.: CUNHA, Celso Ferreira da. p. 64.
[2]
Id.ibidem.
p. 49.
[3]
Opitz era contra essa utilização e em relação a supressão do -e no
interior da palavra, dizia que deveria somente ser feito quando a
vogal não fosse seguida de consoante, dessa forma Gryphius procurou
nas outras edições de seus sonetos reduzir o número de metaplasmos
utilizados. A exceção era quando as apócopes eram utilizadas na
formação de rimas, nos imperativos e nas cesuras. Outra
característica que foi sendo abolida foi a contração entre
preposição e artigo, preferindo a supressão do artigo.
[4]
Cf.: SZYROCKI, Marian. p. 52.
[5]
Cf.: id ibidem. p. 52.
[6]
Cf.: TAROT, Rolf. p. 125.
[7]
MOISÉS, Massaud. p.
508.
[8]
Benjamim acredita ser simplista dizer que a predominância do
alexandrino na versificação barroca se deve à rigorosa separação
entre os dois hemistíquios simplesmente para facilitar as antíteses.
Cf.: BENJAMIN, Walter. pp.
227-232.
[9]
Cf.: CURTIUS, Ernst Robert. pp. 616-617.
[10]
Id ibidem.
p.
617.
[11]
SZYROCKI, Marian. p. 56.
[12]
Obra
onde se encontram os sonetos mais conhecidos de Gryphius, portanto
os mais utilizados nas antologias de literatura alemã que abordam a
obra do poeta.
[13]
Utilizaremos aqui a classificação de Szyrocki, por ora não entrando
no da mérito da questão.
[14]
Cf.: CURTIUS, Ernst Robert. pp.
291-311.
[15]
Cf.: MAUSER, Wolfram. p. 37.
[16] Há uma tradução em http://www.jackbran.pro.br/traducoes/traducoes_principal2.htm .
[17]
Cf.: MAUSER, Wofram. p. 29
[18]
Cf.: SZYROCKI, Marian. p.
58.
[19] Há uma tradução em http://www.jackbran.pro.br/traducoes/traducoes_principal2.htm .
[20]
[Tradução livre: Ah! lindíssima flor de virtude, em que se pode
mirar aquilo que Deus chama de reto temor, que é ser fiel e santa!]
[21] Há uma tradução em http://www.jackbran.pro.br/traducoes/traducoes_principal2.htm .
[22]
[Tradução livre: A trombeta furiosa da multidão insolente/ As
virgens foram violentadas; e para onde dirigimos o olhar: é Fogo,
Peste, Assassínio e Morte].
[23]
[Tradução livre:
Já são três (3) vezes seis (6) anos
que nossos rios (...)].
[24]
Gryphius ao reescrever o soneto em 1643, faz significativas
modificações no último terceto, tornando ainda mais claro sua
consternação diante da destruição espiritual. Vide o texto de 1643 −
renomeado − à pág.130.
[25]
[Tradução livre: pior que a morte.(Tu, Estrassburgo, conheces bem)
da feroz penúria da fome/ E até o tesouro espiritual de muitos foi
arrancado.]
[26]
Cf.:SZYROCKI, Marian. p. 61.
[27]
[Tradução livre:
A uma língua de serpente
Tu pessoa má e falsa/ de cuja torta boca/ As serpes pretas vêem/ em
cuja boca ruim/ Assobia o silvo viperino./Tu brames mais que um cão/
Tu raposa traiçoeira/ tu casa do feroz dragão.]
[28]
Cf.:BRUMMACK, Jürgen. p. 601.
[29]
RIPA, Cesare. pp.
37-38.
[30]
HORAPOLLO. pp. 179-180.
[31]
Cf.: MAUSER, Wolfram. p.
122.
[32]
[Tradução livre:
Eu vejo, e para onde eu vejo.]
[33]
[Tradução livre;
Tu vês, para onde tu vês somente vaidade sobre a
terra.]
[34]
Há uma tradução à página 130.
[35]
[Tradução livre:
Uma casa de dores ferozes? Um baile das alegrias
falsas, um fogo-fátuo deste tempo, um palco repleto de medos e
contrariedades, uma neve quase derretida e uma vela queimada.]
[36]
Cf.:
MARAVALL, José Antonio. p.
377.
[37]
Id ibidem. p.
255.
[38]
Cf.: JÖNS, Dietrich Walter. p.
246.
[39]GRYPHIUS,
Andreas. p.
72 (Sonett)
[Tradução livre:
No medo, na penúria turva, na esperança,
na dor e no sofrimento, na preocupação e no clamor dessa
vida, se é que se chama vida, à vaidade.]
[40]Id
ibidem p.
58. [Tradução livre: Este levanta, aquele derruba;
este busca o palácio, aquele um telhado ruim; este domina, aquele
labuta. O que era ontem, está longe; o que levanta a sorte agora,
será amanhã derrubado; os galhos estavam verdes a pouco, agora secos
e mortos.]
[41]
WOLFRAM, Mauser. p. 133. [Tradução livre:
Após
essa considerações, pode-se recolocar a questão referente ao
contexto biográfico dos sonetos da vanitas quanto a fatos
concretos na vida do poeta e no seu tempo. Na verdade não causa
espanto que a pesquisa tenha visto em Gryphius, por muito tempo, um
poeta do pessimismo e da miséria da vida e, que suas afirmações,
tenham sido interpretadas como confissões, não hesitando em ver a “origem
do medo na vida”, no “destino do próprio poeta”. Sua história de
vida e as turbulências da Guerra dos Trinta Anos forneceram rico
material para tanto.]
[42]
Cf.:
id ibidem. p. 133.
[43]
Id ibidem.
p.
134.
[44]
Cf.: BENJAMIM, Walter. p. 241.
[45]
Cf.:
id ibidem. p. 240-241.
[46]
MARAVALL, José Antonio. p. 124.
[47]
Apud
MAUSER, Wolfram. p. 138. [Tradução livre:
Tu
és o verdadeiro livro sagrado da vida (...) teu sagrado corpo está
repleto de escritas e letras, isto é, repleto de hematomas azuis.(...)
Por meio de tuas chagas dolorosas nós somos fiéis eleitos, através
de seus hematomas somos cristãos e esperamos a vida eterna”