By JackBran Consultoria Ltda.




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Algumas considerações devem ser feitas antes de iniciarmos este estudo acerca dos sonetos de Andreas Gryphius, principalmente no que concerne à tonicidade e a métrica empregada pelo poeta − e por grande parte dos autores do Seiscentismo alemão − em seus versos em língua alemã pós Buch von der deutschen Poeterey.

 

Os gregos e romanos mediam os versos em seqüências temporais separadas por intervalos regulares. Cada sequência compunha-se de duas ou mais sílabas que eram medidas conforme sua duração. As sílabas longas, representadas pelo sinal “−”, duravam o dobro das breves, cujo sinal era  “U “. Assim, seu sistema era quantitativo, já que considerava a quantidade do tempo gasto pelas sílabas, não sua tonicidade.

 

A língua portuguesa, como as demais línguas românicas, não possuem diferenciação entre vogais breves e longas, como no latim e no grego. Para nós esse “é um recurso de ênfase, e está acondicionada pelo acento, pelo contexto fonético ou por múltiplas razões de ordem afetiva”[1]. Dessa forma, quando da passagem do latim para as línguas românicas, a métrica quantitativa dos gregos e romanos foi substituída por um sistema qualitativo, silábico ou acentuativo, levando em conta a intensidade ou tonicidade das sílabas, dividindo-as em fortes (tônicas)  e fracas (átonas). 

 

Por possuir vogais breves e longas, a métrica alemã empregou a terminologia greco-romana, adaptando-a ao sistema qualitativo, ou seja, a vogal longa (Hebung) corresponderia à vogal tônica e a breve (Senkung), à átona. Os pés métricos preferidos por Opitz eram o jâmbico ( U − ) e o troqueu ( − U ), empregados também por Gryphius, que normalmente utilizava palavras monossilábicas que já eram ou tônicas ou átonas, apesar de mudar, algumas vezes, sua tonicidade para que o verso ganhasse maior dinamismo. Além dessa, há algumas outras particularidades na métrica da lírica de Gryphius que merecem consideração:

 

  

a)   o poeta fazia a tonicidade das Verbalkomposita recair sobre o radical: auffréiben, ankómmen, einbréchen;

 

b) não no prefixo: ‘auffreibe, ‘ankommen, ‘einbrechen com as composições nominais, a tonicidade iria sempre para a segunda sílaba: unfrúchtbar, Jungfráuen, grobmütig (não ‘unfruchtbar, ‘Jungfrauen, grobmütig)[2];

 

c) querendo transmitir muito, apesar da rigidez do soneto, Gryphius utiliza-se, mais que qualquer outro poeta do período, de metaplasmos, sobretudo das apócopes − seh (sehe), sterb (sterbe), sag (sage), Ehr (Ehre) − e das síncopes − eur (euer), Feur (Feuer), traurt (trauert), sehn (sehen), gehn (gehen)[3];

 

d) em seus primeiros sonetos utilizava a contração da preposição com o artigo: vorm, ins, preferindo, em edições posteriores, simplesmente eliminar o artigo;

 

e) em seus primeiros poemas, utilizava-se muito de expressões expletivas que conferiam  ênfase e musicalidade ao texto: auch, nun, doch, noch, jetzt, gar, ganz,  stets, mehr, recht, nur, o que foi evitado em edições posteriores, com o intuito de criar uma linguagem poética,  por meio da sintaxe e da escolha de palavras,[4];

 

f) Gryphius utilizava-se da aliteração com habilidade, criando jogos sonoros e demonstrando ser um mestre do ritmo. Servia-se de duas aliterações no mesmo verso ou em alternância em vários versos:

 

  Mein Herz das ubersteht numehr den letzten Strauss/

             Ein jeder/ der mich siht spürt dass das schwache Hauss.

 

             Hier durch die Schanz und Stadt/ rindt alzeit frisches blutt.

             Dreymal sind schon sechs jahr als unser ströme flutt

Von so viel leichen schwer/ sich langsam fortgedrungen.

 

g)  Além dos exemplos acima, fazia uso também da Stabreim, espécie de rima utilizada nos poemas do antigo alemão: Angst und Ach, kein Tod kein Teufel, weder Weh noch Wohl, schneidend Schwert, höchste Heiligkeit, wisch die Wangen, Kind erkoren, der du durch den, ich ruf! o ruht;

             h) Enquanto outros poetas do período utilizavam a assonância somente superficialmente[5], Gryphius foi mestre em seu emprego, conferindo a versos de alguns de seus sonetos uma grande musicalidade interna: Segens...Regen, Zank und Brand, Ach nicht Pracht, des Halses falsche Pracht;

 

             i) Outra grande preocupação do poeta, principalmente após sua viagem à Itália e à França, foi em relação às rimas, diferenciando-as quanto à tonicidade, ou seja, uma maior atenção em não rimar vogais longas com breves: Gott com Not, ou hat com Rat. Normalmente utiliza-se de rimas pobres, visto que era comum rimas entre verbos ou entre substantivos:

 

 Erfrische was die glut’ der Hellen hatt’ versehret.

            O leichter lebenstaw, erquicke was der todt                    (verbo +  subst)      

            Mitt hartten fussen trit’! kom süsses Himmelbrodt,        (subst. +   verbo)             

                                             undt labe, die der durft und hunger gantz verzehret.

 

 j)  Gryphius escreveu alguns poemas utilizando também o dáctilo (− U  U), utilizado sobretudo quando queria transmitir comoção, ou em versos que mostravam horror e crueldade;

 

k)  O metro utilizado por Gryphius em grande parte de sua obra lírica, bem como com a dramática, foi o Alexandrino, que o poeta levou à perfeição, não sendo superado por nenhum outro poeta do século XVII[6] na Alemanha.

 

O alexandrino

 

O alexandrino proveio das canções de gesta francesa que o utilizavam. Temos, por exemplo, Le Pelérinage de Charlemagne à Jérusalem e Roman d’Alexandre de Lambert le Tort, do século XII, do qual, possivelmente, veio sua denominação. Provavelmente, o verso seja uma variante dos versos das tragédias clássicas, que tinha no hexâmetro “o mais célebre e o mais comum dos versos da Antiguidade greco-latina (...) ‘o veículo únicos das gestas, épicas de heróis, da genealogia dos deuses’”[7] ou do trimetro jâmbico (U − U  −). O certo é que durante muito tempo fora deixado de lado, ressurgindo no século XVI como verso preferido pelas tragédias francesas (por Corneille e Racine) e um século mais tarde, Martin Opitz escolhe-o como principal metro da poética alemã, com o qual se expressaram os principais poetas do Seiscentos alemão.

 

Sendo um verso jâmbico, o alexandrino inicia-se com uma sílaba átona que é seguida com a alternância de seis Hebungen, cada qual intercalada  com uma Senkung. A cadência e as rimas podem ser formadas por vogais átonas (rimas femininas), ou vogais tônicas (rimas masculinas). Assim, o alexandrino pode possuir doze ou treze sílabas. O verso é dividido em dois hemistíquios, por meio de uma cesura, logo após a terceira Hebung. Assim divididos, poder-se-iam construir idéias antitéticas[8]:

 

DU sihst/ wohin du sihst nur eitelkeit auf erden.

U  −  U  −  U  − / U  −  U  −  U  −  U

Was dieser heute bawt/ reist jener morgen ein:

U  −  U  −  U  − / U  −  U  −  U  

Wo itzund städte stehn/ wird eine wiesen sein

U  −  U  −  U  − / U  −  U  −  U  

Auff der ein schäffers kind wird spilen mitt den heerden.

U  −  U  −  U  − / U  −  U  −  U    U

 

Vale acrescentar também que em 1662, Gryphius torna-se “imortal“ pela Fruchtbringende Gesellschaft, cujo objetivo era a pureza da língua alemã. Sente-se, portanto, impelido a recusar a utilização de palavras estrangeiras em seus textos. Assim, em 1663, a última edição − em vida − de seus sonetos, o poeta germaniza os estrangeirismos:

 

Modificação

 No lugar de

Texto original

Fahrt wohl

 

Ade

Bilder

 

Phantasie

Irrend Feur

 

Kometen

Ufer

 

Port

Herrenhaus

 

Parlament

 

 Princípio de composição no Lissaer Sonette

              Segundo Curtius, um dos textos bíblicos mais citados durante a Idade Média foi extraído do livro da Sabedoria:

 

             Mas tudo dispuseste com medida, número e peso. (Sb, 11,21)

 

Provavelmente, sua origem remonta ao século I a. C., em Alexandria,  já que alguns elementos fornecem provas de que tal fórmula era originalmente grega como atestam Sófocles, Górgias e Platão.[9]  Através desse versículo, o número foi santificado como fator constitutivo da obra divina da criação. Adquiriu dignidade metafísica. Este é o motivo grandioso da composição numérica na literatura.”[10] Dessa forma, se o plano de Deus era aritmético, o escritor deveria deixar-se guiar também pelos números, que haviam se tornado (para o homem medieval), símbolos da ordem divina.

 

Os teólogos, por sua vez, eram fascinados pelos números, presentes na Bíblia, sobretudo no Apocalipse de São João. Procuravam compreendê-los e utilizá-los em suas obras, para que pudessem imitar o processo da criação divina. Mesmo na literatura medieval alemã, os números possuíam um papel importante, mormente na poesia religiosa. é justamente nessa tradição literária religiosa que Gryphius, filho de um pastor protestante, cresceu. [11]Portanto, não é de se estranhar que o poeta tenha escrito a composição de sua primeira obra, conhecida por Lissaer Sonette[12], segundo o princípio numérico e não o da ars poetica do Renascimento.

 

Podemos notar isso na construção que o poeta faz no título da obra:

 

                ANDREAE

                  GRYPHII

                  SONNETE

 

Não há no título nenhuma informação sobre o editor, o ano da edição e seu local, somente três palavras e cada uma com sete letras, além disso todas as palavras possuem três sílabas. Não se deve esquecer de que os números 3 e 7 são números importantes na linguagem bíblica. 3 é o número da Santíssima Trindade, 7 é o da totalidade, da plenitude: Deus criou o mundo em 7 dias; também pode ser o sinal da aliança entre a divindade e sua criação: é o resultado de 4 (número dos elementos naturais criados por Deus: terra, água, fogo e ar) com 3, número da Trindade (divindade). Um dos livros da Bíblia que mais citam esses números é o Apocalipse de São João:

 

             João às sete igrejas que estão na Ásia. Apo 1,4

 

              O Cordeiro tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. Apo 5,6

 

              Vi quando o Cordeiro abriu o primeiro dos sete selos. Apo 6,1

 

              A terça parte do mar virou sangue. A terça parte das criaturas do mar morreu. A terça parte dos navios foi destruída. Apo 8, 9

 

             Depois de três dias e meio, um sopro de vida veio de Deus e penetrou nos dois profetas. Apo 11,11

 

 

Assim, segundo o esquema de Szyrocki, se somarmos os números de sílabas (3) com o das letras de cada palavra (7), obteremos o número 10 (também um número bíblico: o número dos mandamentos). Logo, o número  correspondente às outras palavras também será 10 e sua soma geral corresponderá  a 30. Esse é o número de sonetos existentes na obra, excetuando o poema inicial (uma dedicatória) e o soneto final. Vale salientar que o poema inicial tem 16 versos; o final, que é um soneto, 14, assim a soma dos dois poemas corresponderá também a 30 versos. Szyrocki acredita que o número 6 é, para Gryphius, o número da vanitas, talvez por ser o número do soneto que leva conceito estampado em seu título (além de estar destacado com letras maiúsculas):

 

 

                        VANITAS, VANITATUM  ET OMNIA VANITAS

 

Se contarmos o número de letras do título do soneto obteremos o número 30, entretanto o porquê de Szyrocki ter chegado ao 6 como número da vanitas nos é desconhecido. O próprio Szyrocki esclarece isso em uma nota de rodapé em sua obra Andreas Gryphius: Sein Leben und Werk, afirmando que a explicação para ter chegado a esse número encontra-se em outra obra de sua autoria: Der junge Gryphius, a qual não tivemos acesso. O soneto que tratará mais explicitamente da vanitas, cujo título está acima, é o de número 6 que, segundo Szyrocki, somente possui 30, pois excluiu o último como já havia sido informado.

 

 

Lissaer Sonette

O grupo que inicia os Lissaer Sonette é composto por poemas religiosos[13]. O soneto de abertura é um poema de invocação, entretanto não as musas − que haviam ressurgido das cinzas, em que estavam confinadas boa parte da Idade Média, por Dante, Camões e mesmo Milton, com sua musa cristã[14]  −, mas ao Espírito Santo. 

A invocação ao Espírito Santo estará presente e iniciando todas as edições de seus sonetos. Algumas edições (1643, 1650, 1657, 1663)[15] inclusive, chegando a possuir dois, além de seis outros que nunca foram publicados, sendo conhecidos somente na edição póstuma de 1698.

 

              An Gott den Heiligen Geist[16] ( I ) corrobora verdades teológicas fundamentais e é para ser lido como uma invocação.[17] Os versos transmitem seriedade e querem levar o leitor à oração.[18]

 

O wahrer Liebe Fewr! Brunn aller gutten Gaben!

O dreymal grosser Gott/ O höchste Heyligkeit!

O Meister aller Kunst/ O Freud/ die alles Leid

Vertreibt/ O keusche Taub/ vor der die Hellen-Raben

            

Após a “invocação” ao Espírito Santo, seguem mais quatro poemas religiosos. Com exceção do segundo:

 

              Uber des HERREN JEsu Gefängnüb  ( II ) [Sobre a prisão do Senhor Jesus] ;

 

  todos os outros são traduções de poemas latinos de jesuítas conhecidos:      

 

             An den am Creuz auffgehenckten Heyland ( III )  [Ao Salvador pendente na cruz], de Matthias Casimir Sarbiewski;

 

              Vber des Herren Jesu todten Leichnamb ( IV ) [Sobre o corpo morto do Senhor Jesus], de Jakob Bidermann;

 

            Gedencket an Loths Weib ( V. ) [Lembrem-se da mulher de Ló],  de Bernhardus Bauhusius.

 

O próximo grupo inicia-se com o poema VANITAS VANITATUM, ET OMNIA VANITAS (VI) [Vaidade das vaidades, tudo é vaidade] e refere-se à transitoriedade da vida, como demonstram os seguintes versos:

 

Ich seh’ wohin ich seh/ nur Eitelkeit auff Erde/

Was dieser heute bawt/ reist jener morgen ein

Wo jtzt die Städte stehn so herrlich/ hoch und fein

Da wird in kurtzem gehn ein Hirt mit sein Herden

 

O eu lírico absorto pelo espírito do Eclesiastes vê e demonstra-nos que as obras e a grandeza humana são passageiras, por isso não se deve acreditar na eternidade de tudo aquilo que o homem constrói, principalmente naquilo que parece ser perene. Hoje vemos cidades que resplandecem, mas de repente, somente ovelhas e seu pastor lá estarão. Assim, a vanitas fundamenta-se a partir do próprio testemunho do poeta que pôde senti-la de perto, emprestando sua experiência ao eu lírico para que este pudesse retratá-la melhor. 

 

Após essa visão pessimista e sem esperança, o eu lírico nos remete a outras imagens semelhante nos sonetos seguintes:

 

             Trawrklage des Autoris in sehr schwerer Kranckheit ( VII )[19] [Lamento do autor numa grave doença];

 

              Der Welt Wollust ist nimer ohne Schmerzen ( VIII ) [A volúpia do mundo jamais é sem dor] ;

              Menschlisches Elende ( IX ) [Miséria humana].

             Há, no próximo grupo, três sonetos ( X, XI e XII ) em que o poeta fala de seu aniversário, da morte do pai e da morte da mãe:

                         Ach schönste Tugendblum/ an der man konte schawen

                        Was Gott recht fürchten hieb/ was Trew und Heilig seyn![20]

 

           Os sonetos XIII ao XVIII são uma sequência de poemas de louvor a conhecidos, a parentes e a benfeitores.

 

             O quinto grupo corresponde, segundo Szyrocki,  a Schönborner ( XIX ), seu protetor, e dois a sua filha Elisabeth ( XX e  XXI ).

 

             O amor sob seus vários aspectos será o tema dos sonetos XXII ao XXV, seja:

 

a)     o amor conjugal:

 

              Auff Herrn Joachin Spechts vornehmen Medici und Philosophi Hochzeit ( XXII ) [Ao casamento do renomado médico e filósofo Senhor Jochin Specht] ;

 

             Auff Herrn Gottfried Eichhorns JC. Unnd Jungfraw Rosinae Stolzin Hochzeit  ( XXIII ) [Ao casamento do Senhor Gottfried Eichhorn e da Senhora Rosina Stolzin];

 

b)     o amor entre os amigos:

              An Johannen Fridericum von Sack ( XXIV ) [ A Johannen Fridericum von Sachsen];

c)      o amor sensual:

 

              An eine Jungfraw ( XXV ) [A uma jovem senhora].

 

O último grupo começa com o mais conhecido soneto de Gryphius, Trawklage des verwüsteten Deutschlandes ( XXVI ) [Lamento da Alemanha destruída], que será renomeado, em edições posteriores, para Tränen des Vaterlandes. Anno 1636 [21] [Lágrimas da Pátria. Ano 1636]. No poema, o eu lírico demonstra-nos sua desolação frente à guerra e faz questão de incluir-se entre aqueles que padecem:

 

              Wir sind doch numehr gantz  ja mehr alb gantz vertorben.

 

Há, no poema, sucessivas imagens que remetem aos Cavaleiros do Apocalipse:

 

 

             Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro era a Morte. (...) Deram para ele poder sobre a quarta parte da terra, para que matasse pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra. [A morte]  (Ap 6, 2-8)

             (...)

             E os sete Anjos com as sete trombetas se prepararam para tocar. (...) nessa hora vi e ouvi uma Águia voando no meio do céu, e gritando em alta voz: “Ai! Ai! Ai! Dos que vivem na terra! Ainda faltam três toques de trombeta. E os anjos estão prontos para tocar.” (Ap 8,6 e 13)

 

             A terça parte dos homens morreu por causa destas pragas: o fogo, a fumaça e o enxofre que saíam da boca dos cavalos. (Ap 9, 18)

 

 

Gryphius, imbuído das imagens que presenciara na Guerra dos Trinta Anos e das alegorias apocalípticas,  (d)escreve assim a destruição da pátria pela guerra:

 

             Der frechen Völcker schar/ die rasende Posaun

             Die Jungfrawn sind geschänd; und wo wir hin nur schawn

             Ist Fewr/ Pest/ Mord und Todt [22]

 

Além dessas imagens retoma no décimo verso os números 3 e 6 para designar o tempo transcorrido da guerra, ou segundo Szyrocki, ratificando a vanitas:

 

              Dreymal sind schon sechs Jahr als unser Ströme Flutt[23]

 

Apesar de tudo isso, o pior ainda estava por vir: a perda do tesouro espiritual[24] e com ela a total desesperança, daí ela ser até pior que a morte corpórea:

 

              (...) was stärker als der Todt

             (Du Strabburg weist es wol) der grimmen Hungersnoth

             Und dab der Seelen=Schatz gar vielen abgezwungen.[25]

 

Nos outros sonetos deste grupo, Gryphius coloca-nos diante de sonetos com características satírico-epigramática sobre a ganância, a falsidade,  o desprezo e a difamação[26]

 

             An eine seiner Bekanten/ welcher sich in unzeitige Ehe eingelassen (XXVII) [A um conhecido seu que se casou fora do tempo];

 

              An eine Geschminckte (XXVIII)  [A uma mulher maquiada];

 

              An eine Hönische unnd mehr als kluge Person (XXIX) [A um sarcástico e mais que uma pessoas inteligente];

 

Vale observar como o poeta trabalha a difamação no penúltimo  soneto (XXX)  da edição de Lissa:

 

                                      An einen falschen Zwey=züngeler

 

                         Du falscher böser Mensch/ aub dessen krummen Rachen

                        Die schwarzen sehn/ in dessen schlimmen Mund

                        Das natterzischen pfeifft/ du mehr alb tober Hund

                        Du gantz verschalckter Fuchs/ du Haub der grimmen Drachen. [27]

 

A sátira, que consistia na crítica e censura de pessoas, instituições e da sociedade, foi uma criação latina de Lucílio que lhe deu sua feição definitiva. Era  escrita em hexâmetros, sem uma disposição fixa, além de utilizar linguagem popular. Dessa forma, sua estrutura e seu metro adaptaram-se bem à estrutura poética das línguas nacionais[28], Gryphius utilizar-se-á do alexandrino, como vimos acima.

 

A sátira pode ser efêmera se a circunstância que a motivou perder-se no tempo, no entanto pode não se desgastar ao longo dos anos se puder revelar defeitos inerentes a grande parte da humanidade. Gryphius fará isso, valendo-se  de lugares-comuns imagéticos, de Horapolo à emblemática. Podemos ver essa inter-relação ao lermos a descrição feita por Cesare Ripa da maledicência em sua Iconologia em relação com o soneto acima:

 

                                                            Maledicencia

 

             Mujer de horrible aspecto que aparece sentada y con la boca abierta (...). Su traje ha de estar roto por diversos lugares, siendo del color de la herrumbre y enteramente adornado con muchas lenguas semejantes a las de las sierpes.(...)

             Se pinta fea porque no solo es de la mayor fealdad el pésimo vicio de la Maledicencia, siempre dispuesta a causar daño y la ruina del prójimo (...) gente de la que bien puede decirse que llevan el diablo en la lengua(...).

             (...) la  lengua del malediciente es igual que una víbora, que todo fácilmente lo ensucia con su aliento, siendo también como lanza agudísima, que de  un solo golpe penetra hasta lo hondo (...).[29]

              Em  Horapolo encontramos:

              Para escribir “boca”, pintan una serpiente, porque la serpiente no tiene fuerza en ningún otro de sus miembros, excepto sólo en la boca.

             (...)

             pero la imagen de la serpiente asociada a la boca no quiere representar exclusivamente el órgano corporal; también aparece en relación con el habla, con las artes de la palabra, es decir, con la Dialéctica.[30]

 

 

 “Vanitas

 

Seguramente a vanitas será uma das idéias recorrentes na poética de Andreas Gryphius e que permeará também sua obra dramática. Dessa forma pode-se até falar que a Guerra dos Trinta Anos tenha influenciado seu modo de pensar e de criar: nada é eterno, tudo é efêmero, tudo passa: juventude, poder, força, ciência, riqueza... Tudo para o poeta é vaidade e passageiro, já que ele próprio, tendo sido testemunha ocular da guerra, presenciou dia-a-dia a destruição e a decadência de tudo que é mundano. [31] Vemos isso desde seus primeiros poemas de forma expressiva, como no primeiro verso do soneto Vanitas, vanitatum et omnia vanitas:

 

Ich seh’, wohin ich seh’[32]

 

Gryphius, então com vinte anos,  ainda estava sob o impacto das imagens presenciadas e vivenciadas, expõe sua expressão pessoal diante daqueles infortúnios, utilizando dessa forma a primeira pessoa: Ich. Na outra edição desse poema, Es ist alles Eitel [Tudo é vaidade], o poeta será menos subjetivo, menos pessoal:

 

                         Du sihst/ wohin du sihst nur eitelkeit auff erden[33].

 

Temos também como exemplo da vanitas o soneto Menschlisches Elend[34], em que o eu lírico, por meio de uma indagação ontológica que sempre perseguiu a humanidade, inicia o primeiro hemistíquio do soneto:

 

                          Was sind wir Menschen doch!

A resposta não poderia ser diferente, o eu lírico explorará a vanitas, remetendo-nos a série de imagens:  

 

Ein Wohnhaus grimmer schmerzen?/

                               Ein Baal des falschen Glücks/ein Irrliecht dieser zeit/

                               Ein Schawplatz aller Angst/ unnd Widerwerigkeit/

                               Ein bald verschmelzter Schnee/ und abgebrannte Kerzen/[35]

 

 

 Afinal, quem somos? Que somos? Senão uma casa de infortúnios, de dores, de penas e de tormentos? O lar deveria ser abrigo, aconchego, mas torna-se um nicho de dores: o eu-lírico espelha-se no poeta, já que o mesmo teve de ser errante muitas vezes.

 

O eu lírico também nos remete a um baile, a uma festa, que era demonstração da pompa e artificialidade da grandeza e do poder social daquele que a oferecia[36]. Entretanto sua alegria é dissimulada e falsa,  já não é fonte de prazer, pois o baile é de falsas felicidades, nele não há archotes que nos iluminam para a dança, mas a luz sinistra do fogo-fátuo e do extermínio indicando-nos que o caminho é o fim, é a morte, daí não ser necessário a artificialidade, levando-nos à resignação, não ao protesto, por nosso fado.

 

Do cemitério, o eu lírico leva-nos ao teatro em cujo palco cada um representa seu papel: “não há porque levantar-se em protesto pelo destino que coube a alguém; não há por que lutar violentamente para mudar as posições designadas aos indivíduos, já que, por si só, na ordem dramática (...) está assegurada a rápida sucessão das mudanças” [37], pois nada é perene na vida.  Vem, pois a constatação de que a vida é como um palco, não é um palco, ou seja, também sairemos de cena. Como resultado, temos o medo,  por isso o palco é repleto de medo e adversidades.

 

Somos neve e quando o sol da primavera chegar, derreteremos e deixaremos de sê-lo. O eu lírico não estipula o estado em que nos encontramos enquanto neve: ein bald verschmelzter Schnee: nem água, nem vapor, estamos na transitoriedade: uma neve que se derreterá logo. Como se não bastasse, o eu lírico coloca-nos diante de outra imagem que nos remete novamente a vanitas: a vela, que desde a Idade Média já era utilizada para indicar a brevidade e a decadência mortal da vida[38]. 

 

Podemos encontrar vários outros exemplos da vanitas na obra lírica de Gryphius como nos exemplos seguintes:

 

                         (...)

                        IN angst/ in trüber noth/ in hoffnung/ schmertz vnd pein

                        In sorgen vnd in ach/ hab ich dib kurtze Leben/

                        Wo fern es leben heibt/ der eitelkeit gegeben.[39]

                         (...)

                        Der steigt und jener fält/ der suchet die Paläst

                        Undt der ein schlechtes dach/ der herscht undt jener webt,

                       

                        Was gestern war ist hin/ was itz das gluck erhebt;

                        Wirdt morgen untergehn/ die vorhin grünen äste

                        Sindt nuhmehr dür undt todt (...)..[40]

 

Quando se analisa a vanitas em Gryphius, deve-se atentar para não cairmos no senso comum, comentado anteriormente, de acharmos que ela é um mero resultado de sua experiência pessoal. Mauser expõe tal problemática da seguinte forma:

 

 

             Nach diesen Erörterungen kann die Frage nach dem biographischen Zusammenhang den Vanitas-Sonetten um konkreten Ereignissen im Leben des Dischters und in der Zeit neu gestellt werden. An sich überrascht es nicht, dab die Forschung lange Zeit in Gryphius (...) den dichter des Pessimismus un der Lebebsnot sah, seine Aussagen als Bekentinisse las un nicht zögerte, den “Grund für Lebensangst“ im “Geschick des dichters selbst“ zu sehen. Seine Lebensgeschichte und die Wirren des Dreibigjährigen Krieges gaben dazu reichlich Stoff.[41]

 

 

Dessa forma não se deve ver nos sonetos do autor apenas elementos autobiográficos, pois nos séculos XV e XVI o tema da vanitas já era recorrente, expandindo-se, no século XVII, para muitas regiões da Europa como França, Inglaterra, Holanda e Itália, países nos quais a Guerra dos Trinta Anos não teve influencia direta. Vale a pena lembrar também que a vida no século XVII, mesmo durante a guerra, não era tão perigosa como poderiam supor os textos de vários autores da época, inclusive Gryphius,  principalmente em regiões como a Holanda e a Polônia, onde o poeta escreveu grande parte de seus sonetos.[42]

 

Normalmente não se leva em consideração, quando se fala da poética do século XVII, a preocupação que aqueles autores tinham em relação à forma e a intenção poéticas, pois, mais que uma preocupação com experiências pessoais, viam-se impelidos a seguir regras retóricas, metáforas, tópicas e lugares-comuns que estavam à sua disposição. Assim “a poesia não é expressão de sofrimentos pessoais, agravos, situações aflitivas e contestações, mas a formulação de um tema de interesse geral (...)”,[43] que, por sinal, não era prerrogativa apenas da poesia como também das tendências artísticas e religiosas da vida cultural daquela época.

 

É inegável, contudo, que as experiências do homem Gryphius não pudessem ser empregadas para explicitar o memento mori que impregnava o pensamento do Seiscentismo, tão escancaradamente amante da morte, apesar de essa obsessão não ter sido uma mera reflexão sobre o fim da vida humana,[44] mas um objeto de estudo: o cadáver permeará as obras da dramaturgia barroca intensamente. Benjamim considera-o parte integrante da emblemática, mesmo que para isso tenha de estar fragmentado[45],  daí os livros de empresa nunca exibirem  o corpo humano em sua totalidade.

 

Dessa forma, Gryphius poderia aliar suas experiências pessoais − diante do caos que havia presenciado: morte, peste, fogo, desesperança − com a rigidez das formas retóricas, sem, contudo, fugir dos critérios já preestabelecidos, pelo contrário, já que era exatamente por esse material que as preceptivas barrocas ansiavam e buscavam insistentemente.

 

Outro fator preponderante que não deve ser esquecido é a constante presença do sacro na Weltanschauung do século XVII, pois aquilo que para nós, leitores do século XXI, soa como pessimismo, desespero, niilismo e falta total de esperança era simplesmente a orientação natural desse espírito religioso, cujo objetivo moralizador queria “reformar, reparar e corrigir os costumes do homem.”[46] Qual seria o melhor espelho para refletir essa necessidade moralizadora senão a própria imagem do Cristo sofredor? Logo, a futilidade do que é mundano, sempre recorrente na palavra e na imagem barrocas, também terá, nos sofrimentos de Cristo, relação direta. Assim se expressa um autor da época, Valerius Herberger:

 

              Du bist das rechte heilige Buch des Lebens (...) dein heiliger Leib ist voll Schrifft und Buchstaben/ das ist/ voll blauer Striemen. (...) Durch deine schmertzliche Wunden sind wir Gläubigen erwehlet/ durch deine Striemen sind wir Christen versehen zum ewigen Leben.[47]

 

Dessa forma não podemos dizer que tal sociedade era pessimista ou niilista na concepção contemporânea da palavra, pois se as marcas do sofrimento de Cristo são letras e palavras, tais imagens deixam de representar, simplesmente, uma sensação pessimista da vida e do mundo para tornarem-se o caminho que leva à salvação e à vida eterna, justamente o que aquela sociedade almejava.

 

 © Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão


[1] Cf.: CUNHA, Celso Ferreira da. p.  64.

[2] Id.ibidem. p.  49.

[3] Opitz era contra essa utilização e em relação a supressão do -e no interior da palavra, dizia que deveria somente ser feito quando a vogal não fosse seguida de consoante, dessa forma Gryphius procurou nas outras edições de seus sonetos reduzir o número de metaplasmos utilizados. A exceção era quando as apócopes eram utilizadas na formação de rimas, nos imperativos e nas cesuras. Outra característica que foi sendo abolida foi a contração entre preposição e artigo, preferindo a supressão do artigo.

[4] Cf.:  SZYROCKI, Marian. p.  52.

[5] Cf.: id ibidem. p.  52.

[6] Cf.: TAROT, Rolf.  p.  125.

[7] MOISÉS, Massaud. p.  508.

[8] Benjamim acredita ser simplista dizer que a predominância do alexandrino na versificação barroca se deve à rigorosa separação entre os dois hemistíquios simplesmente para facilitar as antíteses. Cf.:  BENJAMIN, Walter. pp.   227-232.

[9] Cf.: CURTIUS, Ernst Robert. pp.   616-617.

[10] Id ibidem. p.   617.

[11] SZYROCKI, Marian. p.  56.

[12] Obra onde se encontram os sonetos mais conhecidos de Gryphius, portanto os mais utilizados nas antologias de literatura alemã que abordam a obra do poeta.

[13] Utilizaremos aqui a classificação de Szyrocki, por ora não entrando no da  mérito da questão.

[14] Cf.:  CURTIUS, Ernst Robert. pp.   291-311.

[15] Cf.:  MAUSER, Wolfram. p.  37.

[17] Cf.:  MAUSER, Wofram. p.  29

[18]  Cf.:  SZYROCKI, Marian. p.  58.

[20] [Tradução livre: Ah! lindíssima flor de virtude, em que se pode mirar aquilo que Deus chama de reto temor, que é ser fiel e santa!]

[22] [Tradução livre: A trombeta furiosa da multidão insolente/ As virgens foram violentadas; e para onde dirigimos o olhar: é Fogo, Peste, Assassínio e Morte].

[23] [Tradução livre: Já são três (3) vezes seis (6) anos  que nossos rios (...)].

[24] Gryphius ao reescrever o soneto em 1643, faz significativas modificações no último terceto, tornando ainda mais claro sua consternação diante da destruição espiritual. Vide o texto de 1643 − renomeado − à pág.130.

[25] [Tradução livre: pior que a morte.(Tu, Estrassburgo, conheces bem) da feroz penúria da fome/ E até o tesouro espiritual de muitos foi arrancado.]

[26] Cf.:SZYROCKI, Marian. p.  61.

[27] [Tradução livre:             A uma língua de serpente

Tu pessoa má e falsa/ de cuja torta boca/ As serpes pretas vêem/ em cuja boca ruim/ Assobia o silvo viperino./Tu brames mais que um cão/ Tu raposa traiçoeira/ tu casa do feroz dragão.]

[28] Cf.:BRUMMACK, Jürgen. p.  601.

[29] RIPA, Cesare. pp.   37-38. 

[30] HORAPOLLO. pp.   179-180.

[31] Cf.:  MAUSER, Wolfram. p.  122.

[32] [Tradução livre: Eu vejo, e para onde eu vejo.]

[33] [Tradução livre; Tu vês, para onde tu vês somente vaidade sobre a terra.]

[34] Há uma tradução à página 130.

[35] [Tradução livre: Uma casa de dores ferozes? Um baile das alegrias falsas, um fogo-fátuo deste tempo, um palco repleto de medos e contrariedades, uma neve quase derretida e uma vela queimada.]

[36] Cf.:  MARAVALL, José Antonio. p.  377.

[37] Id ibidem. p.  255.

[38] Cf.:  JÖNS, Dietrich Walter. p.  246.

[39]GRYPHIUS, Andreas. p.  72 (Sonett) [Tradução livre: No medo, na penúria turva, na esperança, na dor e no sofrimento, na preocupação e no clamor dessa vida, se é que se chama vida, à vaidade.]

[40]Id ibidem p.  58. [Tradução livre: Este levanta, aquele derruba; este busca o palácio, aquele um telhado ruim; este domina, aquele labuta. O que era ontem, está longe; o que levanta a sorte agora, será amanhã derrubado; os galhos estavam verdes a pouco, agora secos e mortos.]

[41] WOLFRAM, Mauser. p.  133. [Tradução livre: Após essa considerações, pode-se recolocar a questão referente ao contexto biográfico dos sonetos da vanitas quanto a fatos concretos na vida do poeta e no seu tempo. Na verdade não causa espanto que a pesquisa tenha visto em Gryphius, por muito tempo, um poeta do pessimismo e da miséria da vida e, que suas afirmações, tenham sido interpretadas como confissões, não hesitando em ver a “origem do medo na vida”, no “destino do próprio poeta”. Sua história de vida e as turbulências da Guerra dos Trinta Anos forneceram rico material para tanto.]

[42] Cf.: id ibidem. p.  133.

[43] Id ibidem. p.  134.

[44] Cf.: BENJAMIM, Walter. p.  241.

[45] Cf.: id ibidem. p. 240-241.

[46] MARAVALL, José Antonio. p. 124.

[47] Apud MAUSER, Wolfram. p. 138. [Tradução livre: Tu és o verdadeiro livro sagrado da vida (...) teu sagrado corpo está repleto de escritas e letras, isto é, repleto de hematomas azuis.(...) Por meio de tuas chagas dolorosas nós somos fiéis eleitos, através de seus hematomas somos cristãos e esperamos a vida eterna”