Literatura barroca

alemã

Prof. Antônio Jackson de  Souza Brandão

 A imagem e a criação pictórica e poética:

os gêneros emblemático, de empresa e

de divisa

 

 

 

 

 

 

            

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

             A  origem do alfabeto e da palavra como veículo de imagens desapareceu no tempo, mas a humanidade sempre inquiriu esse elo perdido sem êxito. “A busca, contudo, não cessou jamais e, se grandes foram os malogros, maior ainda foi a necessidade de imaginar, porque entre o gesto inaugural e a forma de representação para ele inventada existe uma distância insuperável.”[1]  Criaram-se, destarte, várias teorias que buscavam compreender a relação existente entre imagem e palavra, mas “este problema (...) é análogo ao da descoberta do fogo, da roda, da alavanca e outras máquinas simples: algum dia se teria dado, mas para sempre se nos ocultou ‘quando’ e ‘como’”[2].

            Veremos também essa preocupação com a palavra na Escritura Sagrada: “Deus disse: “Que exista a luz! E a luz começou a existir.”(Gn 1,3)[3], assim o criador faz uso da palavra para criar o mundo. São João, ao escrever o único evangelho não sinótico[4], utiliza a palavra Verbum − verbo, palavra − para designar Deus Encarnado: “No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a palavra era Deus. Tudo foi feito por meio dela, e de tudo o que existe, nada foi feito sem ela” (Jo 1, 1-3).  Desde o início do cristianismo, os Padres da Igreja − Orígenes, Santo Agostinho − já se inclinavam para a separação conceitual entre da palavra sagrada e a profana, demonstrando que aquela é superior a esta não por ela mesma, mas pelo significado que traz.

           “Na Idade Média, essa situação era expressada por meio da diferença entre vox (som da palavra) e res (sentido da palavra). (...) A palavra significava ex humana, a coisa ex divina institutione.”[5]

            Apesar de as alegorias do catolicismo medieval perderem sua expressão no mundo protestante, com a Reforma, no âmbito católico, até o século XVIII, entretanto, continuaram sendo publicados novos dicionários alegóricos. Deveu-se ainda aos humanistas, no século XVI, um grande impulso para decifrar os hieróglifos egípcios, além de empreenderem o desenvolvimento dessa nova escrita. Surgiram assim as iconologias, que não elaboravam somente as frases nessa escrita, mas que constituíam verdadeiros dicionários alegóricos.[6]

             Assim, os hieróglifos egípcios agora fascinavam os humanistas, como já havia acontecido com os gregos que, ao se depararem com tais ideogramas, os consideravam herméticos, inseridos num campo da especulação cosmogônica e da filosofia natural ou mesmo com significados psíquico-alegóricos, não os vendo como uma simples forma de linguagem que também poderia ser utilizada para e pelos sacerdotes[7]. Sua representação imagética é, ao mesmo tempo, palavra e conceito, entretanto este não é aberto a todos, é obscuro, necessita-se, portanto, de interpretação, pois como afirmava Plotino: os egípcios não se utilizavam de argumentos discursivos, pois haviam descoberto uma forma de sintetizar as idéias por meio das imagens.[8].

             Para muitos teóricos do Humanismo, a tradição grega e a hebraico-cristã nos remete ao Egito, já que Platão, Pitágoras e Moisés aprenderam com ela; mesmo Jesus, segundo Pico della Mirandola, ocultara seu conhecimento em torno da verdade, como os egípcios e outros povos. Tal consideração estendeu-se a toda cultura e pensamento ocidentais[9] , por isso a obra de Horapolo, Hieroglyphica, desfrutou de grande prestígio no período − tornando-se, portanto, obrigatória a todos que quisessem utilizar-se dos hieróglifos −, pois, cria-se, era o único testemunho herdado daquele momento que visava à análise e ao comentário de sua simbologia, mesmo que não fosse no campo da filologia, mas no do fantástico, como demonstram os comentários de seu possível autor ao manipular o conteúdo semântico dos hieróglifos, que seria, a posteriori, desmistificado por Champollion.

            Tais condições, ainda no século XVI, criaram um terreno propício para que a relação imagem-palavra se desenvolvesse de forma mais efetiva e epistemológica, como reflexo das aspirações do momento, pois se buscava uma linguagem universal, cuja base seria imagética e que transmitiria regras de conduta para as pessoas, nos moldes dos hieróglifos egípcios. Surge, assim, o gênero emblemático[10], que perpassa o Humanismo e adentra o século XVII[11], chegando mesmo ao  XVIII.

Seu marco inicial foi a publicação, em 1531, do livro Emblematum liber, do humanista italiano Andrea Alciati, que consistia em 99 epigramas com uma ilustração em cada um deles. A obra teve grande repercussão, como demonstraram suas várias reedições (mais de 150) e as constantes imitações por outros autores. Apesar da aparente novidade, já eram muito populares, na França, no final da Idade Média, quando motes (divisas) eram, freqüentemente, explicados por alegorias. Essa moda, que se propagou na Itália, foi decisiva para o desenvolvimento[12] do gênero emblemático − com suas diferentes modalidades: empresa, emblema e divisa e cada uma delas destinada a diferentes leitores, apesar de possuírem a mesma constituição logo-imagética.

             Os emblemas possuíam uma estrutura tripartite constituída por uma imagem − que era seu “corpo” e que deveria ser fixada na memória dos leitores, pois ela passava os preceitos morais que o autor desejava transmitir; um mote − normalmente uma sentença aguda escrita em latim, com a qual o leitor era direcionado a determinada leitura da imagem; e um epigrama, ou texto explicativo, − que buscava relacionar o “corpo” com o mote do emblema, clarificando a relação existente, era, portanto, sua “alma”.

              Desde seu início, o gênero emblemático converteu-se numa ferramenta didática e de propaganda, impregnando toda manifestação cultural durante três séculos[13], já que se soube muito bem empregar o poder persuasivo da imagem para a transmissão de valores éticos e morais. “O valor da eficácia dos recursos visuais é incontestado na época. Vinha do fundo medieval a disputa sobre a superioridade do olho ou do ouvido para comunicação do saber a outros. Enquanto no mundo medieval se optou pela segunda via, o homem moderno torna-se adepto da primeira, ou seja, da via do olho.”[14] Horácio em sua Ars poética já afirmava isso: “O que toma o caminho dos ouvidos incita menos a nossa atenção do que quando apresentado à fidelidade dos olhos e o espectador mesmo vê.”[15] Tal  idéia será retomada por Leonardo da Vinci, para quem a visão era “o sentido mais nobre”, o mais próximo da realidade. ’A imaginação não vê tão excelentemente quanto o olho’, as coisas imaginadas permanecem pouco tempo na nossa memória.’”[16]

              Os jesuítas, por sua vez, souberam muito bem empregar e ensinar a utilização das imagens e das palavras nos emblemas, como foi demonstrado na obra Ratio Studiorum, pois deles fizeram largo emprego, daí sua teorização. Não se pode esquecer de que a “arte da época se encontra animada por um espírito de propaganda (...) e a imagem é um recurso eficaz”[17], ligado diretamente à visão, por isso é possível sustentar que, no período, “’não se tenta conceituar a imagem, mas dar o conceito feito imagem’, isto é, proporcionar-lhe a força, não mais demonstrativa, mas de apelo prático que é próprio da imagem. Na realidade, isso vale não apenas para a arte, mas para todas as manifestações da cultura dirigida a um público com pretensões de captação; portanto para a política, a moral, a religião, etc.”[18]

              Diante do poder que a imagem pode proporcionar àqueles que dela fazem emprego, a pintura ganha um lugar de destaque no período, já que ela é mais eficaz que a poesia, na medida em que é de sua natureza “causar maiores efeitos e ter muito mais força e veemência, tanto para mover o espírito e a alma para a alegria e o regozijo quanto para a tristeza e as lágrimas.”[19] Não é à toa que no Barroco teremos o pleno sentido e a máxima difusão do preceito horaciano ut pictura poesis.

© Prof.  Antônio Jackson de Souza Brandão


[

1] CAÑIZAL, Eduardo Peñuela. p. 19.

[2] FIGUEIREDO, Fidelino de. p.  48.

[3] Todas as citações bíblicas do presente  trabalho encontram-se na Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo, Paulinas, 1990.

[4] Os evangelhos conhecidos por sinóticos são os de Mateus, Marcos e Lucas que procuravam mostrar os milagres e os ensinamentos de Jesus de uma forma muito parecida, demonstrando, muitas vezes, ser ele o Messias esperado pelo povo judeu, apesar das pequenas nuances; entretanto o de João apresenta-nos poucos milagres, pois está mais interessado em demonstrar a divindade de Jesus, daí chamá-lo de Verbum, a palavra de Deus, que participou da criação do mundo  e do homem.

[5] Cf.: JÖNS, Dietrich Walter. p.  30.

[6] Cf.: BENJAMIN, Walter. pp.   190-191.

[7] Cf.: JÖNS, Dietrich Walter. p.  5.

[8] Cf.: HORAPOLO. p.  21

[9] Cf.: JÖNS, Dietrich Walter. p.  9 e 10.

[10] Na Espanha, por exemplo, os emblemas eram chamados também de jeroglífico, hieróglifo.

[11] Alguns teóricos do Seiscentismo tentam elucidar seu significado como o jesuíta alemão Athanasius Kircher, para quem a escritura egípcia era muito mais excelente, sublime e próxima das abstrações, pois requeria grande engenho para poder-se desvendar os mistérios nela representados.

[12] Cf.: CURTIUS, Ernst Robert. p.  428.

[13] O gênero emblemático demonstrará sua força não só na literatura didática e moralizante, mas também nas festas públicas, quando cartazes e gravuras eram utilizados para celebrar a visita de reis nas cidades, bem como em túmulos, arcos de triunfos, altares ou fontes artificiais; infelizmente, grande parte desse material perdia-se no momento em que acabava a solenidade.

[14] MARAVALL, José Antonio. p.  391.

[15] HORÁCIO. Ars poetica. p. 179-182. Apud  LESSING, Gotthold Ephraim. p. 12.

[16] LESSING, Gotthold Ephraim. p. 13.

[17] MARAVALL, José Antonio. p.  389.

[18] Id ibidem. pp.   389-390

[19] Id ibidem. p.  395.