Épica e lírica latina
O legado artístico de Andreas Gryphius tem início ainda no colégio, quando o poeta, com apenas dezessete anos, termina, em 1635, seu primeiro poema épico escrito em latim: Herodis Furiae et Rachelis lacrymae, cuja base é o relato da morte dos inocentes em Belém a mando do rei Herodes[1], narrado no Evangelho de São Mateus[2], além da obra do historiador judeu
Flávio Josefo.
De
acordo com os preceitos do período, seguia os modelos preestabelecidos
pelos clássicos, como é o caso do poema épico de Virgílio, a Eneida,
do qual extrai alguns versos (quase ipsis litteris) como
nos exemplos que se seguem[3]:
|
Eneida (
Virgílio ) |
Herodis
Furiae et Rachelis lacrymae
( Gryphius ) |
|
a) Verso 694 do Livro
Segundo: |
a)
Verso 330 de Herodes I
[1]
: |
|
Stella
facem ducens multa cum luce cucurit. |
Stella facem ducens
clara cum luce cucurit |
|
b) Verso 1161 do Livro
Segundo: |
b) Verso 784 de Herodes
I: |
|
Quis cladem illius
noctis quis funera fando |
Quis
cladem illius Lucis, quis funera fando |
O
impulso para escrever Herodis Furiae et Rachelis lacrymae,
Gryphius recebeu da escola, cujos alunos desde as classes iniciais
tinham contato com as leis da poética e da retórica[5],
entretanto não se pode descartar sua grande aplicação aos estudos. A
demonstração de seu interesse reside no fato de que parte da obra foi
escrita quando na cidade, em que o poeta morava, Fraustadt, grassada a
peste e, como as aulas estavam suspensas, teve de escrevê-la em casa.
Um
outro ponto que deve ser reiterado, principalmente após uma rápida
leitura dos trechos acima, é o da inexistência, naquele momento, de
nossa visão de originalidade, pois para o homem do século XVII, é genial
aquele que tem a capacidade de manipular os modelos propostos,[6]
por isso o
mais importante para aquele público será confirmar, na obra poética,
aquilo que já é de seu conhecimento. Partindo desse ponto, Gryphius
soube muito bem fazê-lo como quando demonstra a manipulação que faz dos
clássicos − evidenciado no emprego de citações de Ovídio, Estácio, do
próprio Virgílio entre outros − seguindo as instruções de seus
professores.[7]
Mesmo nessa obra incipiente,
o jovem Gryphius demonstra sua futura habilidade como escritor. Já na
dedicatória da epopéia, traça-nos um paralelo entre o ódio sanguinário
de Herodes e a barbaridade da Guerra dos Trinta Anos. A seriedade e o
pathos dos versos mostram que a obra não era simplesmente um
trabalho escolar, mas a demonstração de que essa seria a obra de um
poeta precoce.[8]
Além
das obras em latim citadas acima, Gryphius publicou em 1643, em Leiden,
um livro que continha 67 epigramas, cuja maioria é de poemas de ocasião,
oferecidos a parentes e conhecidos; havia entre eles até mesmo um sobre
quiromancia.[9]
Em 1646, o poeta ainda
escreveu uma série de poemas em latim, publicando somente uma parte.[10]
Trauerspiele[11]
Gryphius foi, sem dúvida, o
dramaturgo alemão mais importante do século XVII. Suas principais
influências foram o teatro jesuítico, o classicismo holandês de Vondel,
o drama clássico francês[12],
Sófocles e Sêneca como também a de Opitz.
É importante salientar a
diferenciação que Walter Benjamin faz entre Tragödie e
Trauerspiel, pois essa questão despertou controvérsias em relação ao
Seiscentismo alemão, visto que, para os críticos alemães pós-Barroco, o
gênero dramático do período fora uma tosca imitação da tragédia
estabelecida por Aristóteles em sua Poética. Para este, a
estrutura da tragédia deveria ser complexa, inspirar temor e pena,
operando a catarse própria dessas emoções, representar seres superiores
(aristocracia) e dar-se, quando o possível, “numa revolução do sol ou
superá-lo de pouco”, e cuja ação será inteira e acabada, ou seja, com
começo, meio e fim[13].
Benjamin é categórico ao afirmar que o período barroco foi o período em
que a influência da tragédia grega (Tragödie) foi menos
preponderante, pois não era nos gregos que os dramaturgos alemães
buscavam sua inspiração, mas no teatro jesuítico e no holandês, que não
conheciam a unidade de lugar. Outro ponto levantado seria a falta de
compreensão do efeito trágico pelos autores do século XVII, pois
esse desvio da interpretação aristotélica “deforma radicalmente
as intenções da Antigüidade”, já que “para ela, a piedade e o terror não
participam da ação como um todo, mas do destino dos personagens
mais significativos. Além disso, a tragédia alemã (Trauerspiel)
versa sobre o homem histórico, mortal, pois “seu conteúdo, seu objeto
mais autêntico é a própria vida histórica, como aquela época a concebia”,
enquanto para a tragédia grega (Tragödie) o “objeto não é a
história, mas o mito”, a morte do herói não é um fim em si, mas um passo
para a imortalidade.[14]
De maneira semelhante a sua
obra lírica, Gryphius também explorará em suas Trauerspiele a
idéia da vanitas[15],
como demonstrou na introdução de Leo Armenius:
Indem unser gantzes
Vaterland sich nuhmehr in seine eigene Aschen verscharret/ und in einen
Schauplatz der Eitelkeit verwandelt; bin ich geflissen dir die
Vergänglichkeit menschlicher Sachen in gegenwärtigen und etliche
folgenden Trauerspielen vorzustellen.[16]
Considerada uma de suas melhores tragédias pela forma com que soube
explorar as idéias contrastantes e antagônicas, conferindo, grande
tensão ao enredo. Apesar disso, alguns pesquisadores acreditam que
Gryphius não conseguiu com que seus outros dramas tivessem o mesmo nível
artístico obtido em Leo Armenius.[17]
Leo
Armenius, primeira tragédia de Andreas
Gryphius, foi concluída em Estrassburgo em 1646 e publicada em 1650. O
drama conta a história do marechal Leo Armenius que destitui o imperador
bizantino Miguel I (em 813), mas que, sete anos depois (820), é morto
por conspiradores junto à cruz de Cristo, na noite de Natal, quando
Michael Balbus torna-se o novo imperador. A tragédia originou algumas
controvérsias: afinal este é um drama de destino, martírio ou de tirano?
Segundo Benjamin “não é preciso fazer uma investigação muito profunda
para perceber que em cada drama de tirano há um elemento de tragédia de
martírio”[18].
Henri Plard procurou solucionar a questão com a seguinte pergunta: como
Leo poderia ser ao mesmo tempo tirano e mártir?[19]
Para isso valeu-se da definição de Georg Schönborner − antigo benfeitor
de Gryphius − em cujo livro Politicorum libri septem, diz haver
dois tipos de tirano: o soberano, que chega ao poder de um modo legítimo
e rege como um tirano; e o outro, o tirano, que recebe a coroa por meio
de um estratagema ou um levante. Contra o legítimo tirano somente se
pode aplicar, segundo Schönborner, meios comuns e legais. A morte do
tirano é imperdoável em qualquer situação e quem, apesar disso a comete,
torna-se um tirano do segundo tipo, ou seja, um usurpador.[20]
Dessa forma, Plard acredita que Leo Armenius, ao obrigar que seu
sucessor abandonasse sua dignidade imperial, torna-se um tirano legítimo;
apesar de sua morte ter sido a de um mártir.
O herói
da tragédia não é nem Leo Armenius nem Michael Balbus, como se afirma:
Leo é um tirano e não um mártir[21]
e sua morte é interpretada pelo espírito de Tharasius como ira de Deus
por seu crime, expiando-o com seu próprio sangue; Balbus torna-se, por
sua vez, um novo tirano. Gryphius renuncia assim a um herói positivo, já
que quer demonstrar com a tragédia o mecanismo perverso[22]
da luta pelo poder.[23]
Tal tema já era recorrente na literatura universal.
Gryphius, ao escrever seu Leo Armenius, recorre a dois
historiadores bizantinos, Georgius Cedrenus e Johannes Zonaras, e à
tragédia homônima do jesuíta Joseph Simon, que havia lido em Roma,
entretanto “para os leitores e espectadores contemporâneos, essa
tragédia de regicídio, de lutas sanguinárias pelo trono deveria
despertar analogias aos acontecimentos de seu momento.”[24]
Exemplo
de tragédia de martírio, Catharina von Georgien inicia-se
com um monólogo sobre a eternidade. O palco está repleto de cadáveres,
quadros, coroas, cetros, espadas e emblemas que representam a vanitas.[25]
A tragédia trata do último dia da rainha da Geórgia, Catharina, que é
mantida há anos presa pelo Xá da Pérsia Abas, ardentemente apaixonado
por ela, e que a quer de qualquer forma. Ela reluta, ele oferece-lhe
dois caminhos: ou a de ser rainha da Pérsia ou ser martirizada.
Catharina recusa novamente o casamento, o Xá condena-a à morte. Gryphius
exalta a constância heróica do mártir, cujo espírito estóico é
sustentado pela fé inabalável, triunfando sobre a transitoriedade do
mundo, sobre a tirania e a morte.[26]
Para esse drama, Gryphius utiliza-se de uma fonte francesa: Histoire
de Catharine Reyne de Georgie et des Princes Georgiens mis a mort para
commandemente de Cha Abas Roy de Perse, de Claude Malingre
(1580-1653).
Semelhante à composição Catharina von Georgien é a primeira
versão da tragédia Ermordete Majestät oder Carolus Stuardus,
escrita poucos dias após a execução do rei inglês, Carlos I, ocorrida em
30 de janeiro de 1649. Com Gryphius profundamente consternado[27]
pela execução do rei e pela rapidez com que elaborou a trama, o enredo
não foi um dos melhores que o autor escrevera até aquele momento. No
entanto, em 1658, nove anos após a execução de Carlos I, morre o
Protetor da República, Cromwell, líder da Revolução que o derrubou.
Gryphius aproveita o momento e reescreve a tragédia, dando à personagem
real a possibilidade de escolha entre a vida ou a morte, a mesma que
teve Catharina e Papinian, mas que não havia sido dada a Leo Armenius
devido à ira de Deus e a seu pecado.
Baseado
numa novela do espanhol Juan Perez de Montalván traduzida ao italiano,
Gryphius escreveu a tragédia Cardenio e Celinde. No entanto, o
que chama atenção na obra é o fato de nela não terem sido utilizados
personagens de elevada categoria social, já que seus heróis pertencem à
pequena nobreza, sendo, portanto, “uma prefiguração bem precoce da
tragédia burguesa”[28]
No primeiro ato, Cardenio conta a história de seu
amor por Olympia e sua relação pecaminosa com Celinde. Ele quer a morte
de Lysander que conquistou o coração daquela que amava.
Traduções
No século XVII, as traduções
eram muito comuns, já que visavam ao aperfeiçoamento da língua alemã,
para que essa pudesse ter expressão literária semelhante às outras
nações européias. Gryphius não fugiu à regra e também traduziu algumas
tragédias e comédias de autores clássicos ou de seus contemporâneos.
Exemplo temos na obra do confessor de Luís XIII, o jesuíta Nikolaus
Causinus, também conhecido como professor de retórica e pregador. Em sua
tragédia, Felicitas, cuja heroína homônima era romana, relata a
fidelidade dessa mulher levada ao martírio com sete de seus filhos. Em
Felicitas são representados os tormentos mais empregados com uma riqueza
de variações, além de demonstradas diversas formas da morte.[29]
As
traduções não se restringiram, contudo, a tragédias. Em 1660, Gryphius
publicou uma coletânea de dezessete traduções em alemão de hinos latinos
e um salmo parafraseado em língua alemã. Procurava com essas traduções
encontrar o estilo dos cânticos religiosos para possibilitar acesso a
esses cânticos latinos, antigos e piedosos a seus irmãos de fé.[30]
Um
fator verificado em Gryphius é que o poeta traduzia sobretudo textos
cujo conteúdo o fascinava e que correspondessem, principalmente, a seu
modo de ser.[31]
Prosa
Hoje, a prosa de Gryphius é a parte menos conhecida
e estudada de sua obra, já que a obra lírica e a dramática já possuem
destaque, principalmente nos meios acadêmicos da Europa e dos Estados
Unidos. Entretanto, segundo Szyrocki, é possível dividi-la em quatro
grupos:
a) Leichabdankungen
(discursos necrológicos)− gênero com o qual Gryphius já se
acostumara desde criança, já que seu pai sendo pastor da igreja
protestante, deveria fazer muito emprego dele. Os “discursos
necrológicos” de Gryphius geralmente não eram somente de louvor, mas
constituíam uma série de reflexões e variações alegóricas sobre um tema,
que o poeta, numa relação engenhosa, fazia à memória do morto. Gryphius
utilizava para isso o nome, o brasão, a profissão, a idade ou a situação
pessoal para aludir ao respectivo tema que queria desenvolver. Uma
indicação biográfica raramente fazia parte das Leichabdankungen,
quando a pessoa era conhecida, escrevia-se um breve curriculum de
sua vida. Exceção foi o Brunnen Discurs[32],
como foi chamado o discurso a seu protetor, em cujo texto Gryphius
inseriu descreve a vida de Schönborner.
b) die Übersetzungen (as traduções) −
muitos textos eram traduzidos da poesia para a prosa como, por exemplo,
a comédia de H. Razzi, La balia, que foi publicada em 1663.
c) die Vorworte ( os prefácios) − a maioria
dos livros de Gryphius possuíam prefácios em prosa, mesmo os de poesia e
as tragédias.
d) die Widmungen (as
dedicatórias).
Além desses quatro grupos há
o texto Fewrige Freystadt, cujo prefácio data de setembro de 1637
e que foi escrito sob a impressão causada pelo incêndio que destruiu
parte da cidade de Freistadt. Descreve, em seu início, a idéia que lhe é
recorrente: a ação da vanitas.
(...) offenbahr, dab
nichts,
was in der Welt zufinden, von Ewigkeit herrühre, sondern zu gewisser
Zeit seinen Vsprung genommen: Also ist vnlaugbar, dab
alles, was jemals gestanden, widerumb
seinen vntergange zugeeylet, vnnd... gantz vergehn müssen.[33]
Lírica
Andreas Gryphius foi um dos
grandes poetas líricos da Alemanha no século XVII, sendo listado,
inclusive, segundo o crítico literário Marcel Reich-Ranicki, no cânone
da literatura alemã[34].
No entanto, grande parte das antologias que tratam de sua poética,
citam-no apenas como um poeta marcado pelos horrores da Guerra dos
Trinta Anos:
In der Lyrik des Andreas Gryphius tritt das
Schicksal des Dreibigjährigen
Krieges deutlicher hervor als bei irgendeinem andern. (...) Sein
Grundthema ist der Krieg, denn dab
er in grobartiger
Eintönigkeit immer wieder von der Vergänglichkeit alles Irdischen
spricht, erklärt sich schon durch das, was er sah und was er selber
erlebte.[35]
Tais colocações podem levar a idéias preconcebidas
acerca da obra de Gryphius que é, seguramente, muito maior do que uma
mera descrição da guerra, apesar de seus reflexos permearem-na, não são,
contudo, sua totalidade. Tampouco se deve esquecer de que Gryphius,
sendo um homem do mundo e um grande poeta, torna-se um filtro da
sociedade em que estava inserido, refletindo em sua obra a
Weltanschauung do momento. Assim, o sentimento da vanitas, recorrente na
obra de Gryphius, estará presente também em outros grandes poetas que
sequer souberam o que seria vivenciar os horrores de uma guerra, já que
era um sentimento recorrente no homem do século XVII.
Quevedo, por exemplo, viveu em uma Espanha
empobrecida, que vivia seu desengaño, mas não vivenciou as
guerras religiosas que assolaram a Alemanha e a França; apesar disso, a
vanitas também está presente em sua lírica:
Fué sueño ayer, mañana será tierra:/ Poco antes
nada, y poco después humo;/ Y destino ambiciones y presumo,/ Apenas
junto al cerco que me cierra.
(...)
Ya no es ayer, mañana no ha llegado, /Hoy pasa y es, y fue, con
movimiento/ Que a la muerte me lleva despeñado.
Azadas son la hora y el momento,/ Que a jornal de mi pena y mi cuidado,/
Cava en mi vivir mi monumento.[36]
Ou ainda:
Miré los muros de la patria mía,/ Si un tiempo fuertes, ya
desmoronados,/ De la carrera de la edad cansados,/ Por quien caduca ya
su valentía.
(...)
Vencida de la edad sentí mi espada, / Y no hallé cosa en qué
poner los ojos/ Que no fuese recuerdo de la muerte.[37]
Nem por isso, Quevedo pode ser considerado um poeta
da vanitas nem mesmo do desengaño, como demonstra sua rica
obra literária. Tampouco podemos dizer que o autor dos próximos versos,
Gregório de Matos, seja apenas um autor da vanitas, o que não é,
bem sabemos:
Nasce o sol, e não dura mais que um dia,/ depois da Luz se segue a noite
escura,/ em tristes sombras morre a formosura, / em contínuas tristezas
a alegria[38].
Ou
ainda;
Que és terra homem, e em terra hás de tornar-te,/ Te lembra hoje Deus
por sua Igreja, / De pó te faz espelho, em que se veja/ A vil matéria,
de que quis formar-te.[39]
Gryphius, como já dissemos
acima, soube muito bem empregar as tópicas do momento em que estava
inserido, mas apesar disso possuía uma obstinação: a busca pela
perfeição, como demonstram as várias reedições de seus poemas, mesmo
que, para isso, as obras de suas juventude, cuja expressão e
originalidade eram marcantes, perdessem a unidade de estilo e sua a
originalidade[40].
Os poemas de suas últimas edições são mais diretos, objetivos e com um
estilo mais leve, contrastando com seu estilo da juventude, que era
extremamente subjetivo e independente.
Podemos dividir a obra lírica de Gryphius em quatro
partes:
I.
as odes
II. os epigramas
III. os poemas diversos;
IV. os sonetos.
Odes (Oden)
Gryphius publica seu primeiro livro de odes em
1643, na cidade de Leiden, quando ainda estava na universidade,
publicando a posteriori mais três livros. Os poetas alemães
tinham como modelo tanto Píndaro quanto Horácio, além de imitarem
Ronsard. Normalmente, as odes dos contemporâneos de Gryphius como Opitz
e Weckherlin eram encomiásticas, entretanto as do poeta
possuíam temas bíblicos. Geralmente, Gryphius retirava elementos dos
salmos como ponto de partida para suas odes, parafraseando-os.[41]
Was sage Ich! Wenn der
hellen Nacht
Mit lügen auff mich wüttet?
Wenn Mich die gantze Welt verlacht!
Und List und Trug aubbrüttet?
Sie hat höchsten Vaters Sohn
Der Warheit widersprochen/
Die Warheit selbst hat ihren Hohn
Und frechen Trotz gebrochen.[42]
A forma da ode pindárica é
tripartite, apresentando estrofe, antístrofe (apresentam organização
comum) e a épode (que é divergente), além de ser marcada por rima
e ritmo; as estrofes, segundo Opitz, poderiam ser livres. Entretanto não
há somente odes pindáricas nos livros de Gryphius, que se utiliza
também das formas livres, como a ode acima.
Epigramas (Epigramme)
Gryphius publica, em 1643, seu primeiro livro de
epigramas, grande parte escrita quando de sua permanência na Holanda e
na Europa ocidental. Segundo Opitz, o epigrama deveria ser uma pequena
sátira, seguindo o modelo de Marcial:
Das Epigramma setze ich darumb zue der Satyra/ weil die
Satyra ein lang Epigramma/ vnd das Epigramma eine kurtze Satyra ist:
denn die kuertze ist seine eingeschafft/ vnd die spitzfindigkeit
gleichsam seine seele vnd gestallt[43].
Entretanto, Gryphius não transparece senso humor,
diferenciando-o de seus contemporâneos. Mesmo assim, Gryphius segue como
modelo os epigramas de Marcial e de John Owen. Em sua edição de 1663,
mostra influência de Logau, entretanto diferentemente desse, não utiliza
o epigrama contra determinadas pessoas, mas contra determinados tipos.
Há também os epigramas de louvor como o dedicado a Copérnico, Uber
Nicolai Copernici Bild [sobre a imagem de Copérnico]: Du
dreymal weiser Geist/ du mehr denn grosser Mann! [ Tu três vezes
espírito de sabedoria, tu mais que um grande homem!]
Os epigramas religiosos falam do nascimento, da
infância e da paixão de Jesus. O poeta procura, tornar claro problemas
teológicos por meio de antíteses e colocações retóricas nesses poemas,:
An Mariam [À Maria][44]
Dib
Kind ist nicht mehr dein/ es ist der gantzen Welt.
Drumb leg es aus der Schob die dises Pfand noch hält.
Des HErren
Sterbens Tag [Dia
da morte do Senhor][45]
Tag/ schwärzer als die Nacht/ in dem die Welt verlohren
Ihr Lebe/ Trost und Licht/ das in der Nacht gebohren.
Poemas diversos (Vermischte
Gedichte)
Normalmente inserem-se nesse subitem os poemas que
não estão incluídos nos livros de odes, epigramas e sonetos. Temos, como
exemplo, os Kirchhofgedanken, além de outros poemas traduzidos
pelo poeta que tratam do mesmo tema: “pensamentos de cemitério”. O
poema, composto por 50 estrofes de oito versos, começa uma série de
perguntas:
Wo find ich mich? ist dib
das Feld
In dem die hohe Demuth blühet?
Hat Ruh’ Erquicklung hier bestellt
Dem/ der sich für und für bemühet?
Der heisser Tage sternge Last
Und kalter Nächte Frost ertragen?
Und mitten unter Ach und Klagen
Sorg/ angst und müh auff sich gefast.[46]
A resposta nos vem de forma anafórica, mostrando que
o cemitério é a escola da vida:
O Schul/ in der die höch Kunst
Uns
sterblichen wird vorgetragen!
(. ..)
O
Schul! ob der/ was in der Welt
Vor
klug geachtet; sich entsetzt!
(...)
O
Schul! ob welcher den die Haar
In
kalten Schweib zu Berge gehen/
Die nahe letztem Ziel
der Jahr
Doch
näher tollen Lüsten stehen.
(...)
O
Schul! Ich komme voll begier/
Die wahre
Weibheit zu ergründen!
[47]
O poema mostra-se, por vezes, fantástico:
Hilff Gott! die Särge
springen auff!
Ich schau die Cörper
sich bewegen/
Der
längst erblasten Völker Hauff/
Beginnt der Glieder Rest zu regen!
Ich
finde plötzlich mich umbringt
Mit/
durch den Tod/ entwehrten Heeren/
O Schauspiel! Das mir
heisse Zehren
Auf den erstarten Augen bringt![48]
Gryphius cita, no texto, os brasileiros e os
caraíbas (no texto “Brasil” e “Caribe”) na estrofe 40:
Was
Caribe/ was ie Brasil
Viel
wilder als sein Wild verschungen:
Wenn/ was in tieffe Schacht verfiel/
Drin es umbsonst nach Sold gerungen![49]
Pertencem também a essa classificação os
Hochzeitgedichte, os Begräbnisgedichte, as Kirchenlieder.
Sonetos (Sonette)
A primeira obra lírica de Gryphius, em língua alemã,
é uma coletânea de 31 sonetos conhecida por Lissaer Sonette,
publicada em 1637, na cidade de Lissa. A partir desse momento, o
poeta reeditou várias vezes seus sonetos, buscando sempre a perfeição
estética e a clareza. Como já havia sido anunciado na introdução do
presente trabalho, os sonetos serão o ponto de partida para analisarmos
a obra de Andreas Gryphius, por isso serão tratados a parte.
© Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão
[1]
A figura do rei Herodes aparece em toda parte nessa época no
teatro europeu, já que é ilustrativa da figura do tirano e cuja história
dá à representação a arrogância monárquica e seus traços mais
fortes. Cf.: BENJAMIN, Walter. p. 93
[2]
“Quando Herodes percebeu que os magos o haviam enganado, ficou furioso.
Mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o território ao redor,
de dois anos para baixo, calculando a idade pelo que tinha averiguado
dos magos. Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias:
‘Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora
seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais.’ ”
Mt 2, 16-18.
[3]
SZYROCKI, Marian. p. 38
[4]
Herodes I referir-se-á à obra Herodis Furiae et Rachelis lacrymae
e Herodes II à Dei Vincinis Impetus et Herodis Interitus, cujo
tema também será o rei Herodes.
[5]
Cf.: SZYROCKI, Marian. p. 19.
[6]
Cf.: BENJAMIN, Walter.. p. 201.
[7]
Cf.: SZYROCKI, Marian. p. 38.
[8]
Cf.: id ibidem. p. 39.
[9]
Cf.: id ibidem. pp.
44-45.
[10]
Cf.: id ibidem. p. 47.
[11]
O objetivo primeiro deste trabalho seria o de analisar alguns sonetos de
Gryphius à luz da estética barroca, entretanto como há pouco material
sobre o poeta/dramaturgo, achamos interessante fazer também um breve
comentário sobre sua obra dramática.
[12]
Obtendo, em sua viagem à França e à Itália, uma visão da arte de
Corneille e Molière, além da oportunidade de familiarizar-se com a ópera
italiana e com a Commedia dell’Arte.
Cf.: ROSENFELD, Anatol. p. 28.
[13]
Cf.: ARISTÓTELES. pp. 34-37.
[14]
Cf.: BENJAMIN, Walter. pp. 83-88.
[15]
Claudia Brinker von der Heyde ratifica a recorrência da vanitas
na obra de Gryphius: Und er [Andreas Gryphius] markiert darin
das zentrale Thema seines Schaffeens, die Vergegenwärtigung der
Nichtigkeit menschlisches Lebens, wie sie dem jungen dichter so
drastisch im Dreibigjährigen Krieg
vorgeführt worden war.
VON DER HEYDE, Claudia Brinker. p.
293. [Tradução livre: Ele marca com isso o tema central de sua
criação, a constante lembrança da futilidade da vida humana, como havia
sido exibida tão drasticamente ao jovem poeta na Guerra dos Trinta Anos.]
[16] Id
ibidem. p.
293. [Tradução livre: Enquanto nossa
pátria inteira está imersa em suas próprias cinzas e converteu-se
em um palco de vaidade; esforço-me para apresentar-te a fugacidade das
coisas humanas nas seguintes tragédias...]
[17]
Cf.: SZYROCKI, Marian. p. 85.
[18]
BENJAMIN, Walter. p. 96.
[19]
Cf.:SZYROCKI, Marian. p. 79.
[20]
Cf.: id ibidem. pp. 79-80
[21]
Apesar de, segundo Szyrocki, sua morte ter sido de um mártir ( id
ibidem. p. 80) não se deve esquecer de que, segundo Walter
Benjamin, o termo mártir não deve ser empregado em seu sentido
religioso: “Essa figura nada tem a ver com as concepções religiosas.”
Cf.: BENJAMIN, Walter. pp. 96-97.
[22]
No sentido de pecaminoso (sündig).
[23]
Cf.: SZYROCKI, Marian. p. 83.
[24]
Id. ibidem. p. 84.
[25]
Cf.: id ibidem. p. 86.
[26]
Cf.: ROSENFELD, Anatol. p. 29.
[27]
Não se deve esquecer de que Gryphius, como também a base da ideologia do
Seiscentismo, que era absolutista, acreditava na origem do poder divino
do rei − característica marcante dos estados protestantes − e por isso
na limitação da soberania popular. O crime de lesa-majestade era visto
como um dos mais abomináveis que existiam, pois era o mesmo que atentar
contra a pessoa de Deus, de quem o soberano era um espelho.
Segundo Heinrich Hildebrandt (quem melhor explanou o
pensamento político de Gryphius, segundo Mauser.): Aufruhr und
Königmord zerstören die Fundamente staatlichen Lebens, heben die
menschlische Gemeinschaft auf und stürzen das Reich in ein heilloses
Chaos. [Tradução livre: Revolução e regicídio destroem os
fundamentos da vida do estado, anulam a sociedade humana e viram o reino
num caos sem salvação.] Cf.: MAUSER, Wolfram. p. 13.
[28]
Id ibidem. p. 30
[29]
Cf.: SZYROCKI, Marian. p. 99.
[30]
Cf.: id. Ibidem. p. 75.
[31]
id. Ibidem. p. 75
[32]
O nome de seu protetor era Schönborner, daí o título do
Leichabdankung: Brunnen Discurs (Born = Brunnen).
[33]
SZYROCKI, Marian. p. 115. [Tradução livre: (...)
aparentemente nada do que encontramos no
mundo, provém da eternidade, mas teve sua origem em determinado momento,
portanto parece incrível que tudo que já existiu corra para o seu
próprio fim e que deverá acabar para sempre.]
[34]
Cf.: MALHEIROS, Maria do Carmo F. p. 3.
[35]
KLEIN, Johannes. p. 128. [Tradução livre: Destaca-se, nitidamente, na
lírica de Andreas Gryphius, o destino da Guerra dos Trinta Anos do que
em qualquer outro. (...) Sua temática é a guerra, em cuja
grande monotonia fala repetidamente da futilidade de tudo que é terreno,
explicando através disso, aquilo que ele viu e o que ele mesmo
vivenciou.]
[36]
QUEVEDO, Francisco de. p. 36. (Soneto “SIGNIFÍCASE LA PROPIA
BREVEDAD DE LA VIDA, SIN PENSAR Y COM PADECER SALTEADA DE LA MUERTE”. )
[37]
Id. Ibidem,
p.
37. (Soneto “ENSEÑA COMO TODAS LAS COSAS AVISAN DE LA MUERTE.)
[38]
MATOS, Gregório de. p. 752 (Soneto: MORALIZA O POETA NOS
OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO MUNDO)
[39]
Id ibidem. p. 78 (soneto:
CONTINUA O POETA COM ESTE ADMIRAVEL A QUARTA FEYRA DE CINZAS.)
[40]
SZYROCKI, Marian. p. 48.
[41]
Id ibidem.
p. 71.
[42]
GRYPHIUS, Andreas. p. 122. [Tradução livre: Que digo? Se a
noite clara enfurece-se sobre mim com mentiras? Se o mundo inteiro ri-se
de mim! E tramam ardil e engano? Ele opôs-se ao excelso Filho da Verdade
do Pai, a verdade mesma rompeu seu escárnio e teimosia insolente.]
[43]
OPITZ, Martin. [Tradução livre: Por
isso coloco o epigrama junto à sátira, pois esta é um longo epigrama e o
epigrama, uma sátira curta; pois a brevidade é sua característica e a
argúcia, sua alma e forma.
[44]
Id ibidem. p. 173. [Tradução
livre: Esta criança não é mais tua, é
do mundo inteiro. Por isso, tire-a desse ventre que ainda retém
essa prenda.]
[45]
Id ibidem. p. 171. [Tradução
livre: dia mais negro que a noite em
que o mundo perdeu sua vida, consolo e luz que nasceu na noite.]
[46]
GRYPHIUS, Andreas. p. 5. [Tradução livre: Onde me encontro? Este é o campo em que a
submissão floresceu. A paz pediu satisfação àquele que se esforçou? Que
o peso dos dias quentes e o gelo das noites frias aguentou? E em meio a
ais e queixas, preocupações, medo e esforço carregou.]
[47]
SZYROCKI, Marian. p. 76. [Tradução livre:
Ó escola em que a elevada arte é transmitida a
nós mortais! Ó escola! Apesar do que é considerado culto no mundo;
horroriza-se! Ó escola! Na qual os cabelos ficam de pé em frio suor, que
próximo ao destino dos anos estão mais próximos dos loucos prazeres. Ó
escola! Venho pleno de desejo para desvendar a verdadeira sabedoria.]
[48]
Id ibidem. pp. 8-9.
[Tradução livre: Ajude-me Deus! Os
túmulos se abrem! Vejo os corpos se movendo, a massa de povos
empalidecidos, os restos de membros se movem! Sinto-me, repentinamente,
cercado por exércitos desarmados pela morte. Ó espetáculo! A quente luta
me vem aos olhos petrificados!]
[49]
Id ibidem. p. 15. [Tradução
livre: Que os caraíbas e os brasileiros devoraram da forma mais
selvagem que seus animais selvagens:quando o que caiu nas profundezas ,
em vão por soldo lutou! ]