Literatura barroca alemã

Prof. Antônio Jackson de  Souza Brandão

 

A Silésia, o contexto dos Seiscentos na Alemanha e o florescimento do Renascimento alemão

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

  

 

 Para se compreender o século XVII alemão é mister conhecer dois aspectos fundamentais dos séculos anteriores: sua estrutura política e religiosa. Politicamente, não havia uma nação alemã, pois essa era dividida em mais de trezentos estados semi-autônomos e cada um deles governado por um príncipe, bispo ou conde, apesar  da  aparente unidade transmitida pelo Sacro Império Romano-Germânico, cujo imperador era eleito pelos príncipes mais poderosos – os Eleitores[1];  do ponto de vista religioso, a região foi o berço da Reforma, que mudaria o destino da Igreja católica e da Europa, provocando uma série de conflitos e guerras.

Martinho Lutero, o arauto da insatisfação que se alastrava por todos os recantos da Europa contra a instituição eclesiástica, soube aproveitar os preceitos e o desenvolvimento trazidos pelos ideais renascentistas que dominavam o século XVI, entretanto pode-se considerar a Reforma tanto uma reação contra o Renascimento como seu resultado[2]. Mas, se por um lado Lutero teve a inclinação − religiosa − de tornar o cristianismo mais puro, não foi o que pensaram muitos de seus protetores, entre eles príncipes poderosos que visualizaram no movimento a oportunidade de se apropriarem dos bens eclesiásticos como saída para contornarem a necessidade de dinheiro para sustentar uma administração cada vez mais complexa, para equipar seus exércitos, ou mesmo para adquirir objetos de luxo para a ostentação de sua posição.[3]  Aquela que era uma disputa de alguns príncipes com os prelados de seus territórios, assumiu grandes proporções, levando as grandes potências européias a digladiarem-se, naquela que seria uma das mais brutais guerras conhecidas pela humanidade: a Guerra dos Trinta Anos, iniciada em 1618, em que muitas famílias desterradas por motivos religiosos  poderiam até considerar-se felizes, pois não sucumbiram à brutalidade dos lansquenetes (Landsknecht[4]) nem ficaram à mercê de exércitos de salteadores.

O já fragmentado pseudo-Estado alemão, ou melhor, os limites do Sacro Império Romano-Germânico tornam-se, devido a sua falta de unidade e diante de interesses políticos contrários aos Habsburgo, palco em que se definiria a fase decisiva da luta entre católicos e protestantes. No entanto, desde seu início, ficou claro que os motivos da beligerância iam muito além das questões religiosas. Pode-se observar isso claramente quando vimos que nações religiosamente contrárias buscavam alianças contra a família mais poderosa da Europa. Exemplo vemos em de Francisco I (1515-1547) da França – que fez aliança com os suecos, com os dinamarqueses e até com os turcos (1543) –  contra o  imperador  Carlos V (1519-1558); ou, alguns anos mais tarde, o também todo-poderoso cardeal francês Richelieu, que compactuou com o rei protestante da Suécia, Gustavo Adolfo. Em 1648, o Tratado de Vestfália põe termo à guerra, encerrando a era dos conflitos religiosos e instaurando a dos conflitos políticos[5], além de assinalar o fim da concepção medieval da Europa, que desde há muito estava moribunda, com o aparecimento do Estado moderno.[6]

Entretanto, foi dentro desse contexto perturbado e conflituoso, no século XVII, que a literatura alemã preparava-se para adentrar no mundo do Renascimento europeu, ainda que tardiamente. Muito se falou das causas desse atraso de quase um século em relação às outras nações européias. Talvez pudéssemos entendê-lo, lembrando que a Reforma absorveu de tal forma o espírito alemão, no século anterior, que mal restou interesse, força ou tranqüilidade para o florescimento do renascimento artístico.[7] Tal “Renascimento”, no entanto, não passou de uma tentativa, visto que os poetas e dramaturgos alemães do período estavam cercados de tendências barrocas presentes em muitos regiões da Europa. O mundo e a literatura não ficaram alheios às transformações sócio-culturais e religiosas do momento. Assim, por mais que tentassem seguir seus predecessores, imitando-os, não conseguiram, pois já estavam inseridos num outro contexto social, distinto do anterior.

É justamente por isso que o Seiscentismo alemão foi duramente criticado pelas escolas literárias alemãs ulteriores. Grimmelshausen, por exemplo, foi considerado, durante muito tempo, a única expressão literária digna de crédito do período, pois os “outros” não passavam de marinistas e escritores de tragédias artificiais − que sequer tragédias eram, segundo os moldes de Aristóteles − com sua linguagem gongórica e artificial. Em suma, o autor de Simplizissimus é quem teria salvado o século XVII do total fracasso literário. Tais críticos não viram que a vontade de classicismo foi o único traço característico da Renascença alemã, a qual o Barroco ultrapassou. Assim, “cada tentativa de aproximar-se da forma antiga expunha a obra (...) a uma reestruturação altamente barroca.[8]” Em relação à tragédia, segundo os preceitos aristotélicos, Benjamim nos diz que o Seiscentismo alemão foi o período em que Aristóteles teve menos influência, pois essa foi buscada no classicismo holandês e no teatro jesuítico[9].  E acrescenta “é quase inacreditável que se tenha afirmado que o drama barroco é uma verdadeira tragédia pelo simples fato de que ele evoca os sentimentos de piedade e terror, que Aristóteles considerava típicos da tragédia − sem levar em conta que Aristóteles jamais disse que somente a tragédia podia evocar essas emoções.”[10]

Sem preocuparmo-nos demasiadamente com a crítica dos séculos posteriores ao Barroco alemão, devemos levar em consideração o papel desempenhado por seus autores na construção da língua literária alemã. Seu articulador foi Martin Opitz, ao estabelecer as regras da poética alemã em seu Buch von der deutschen Poeterey,  de 1624.

Há, assim, no período, a valorização e a utilização da língua nacional como expressão literária, visto que a língua utilizada em muitas cortes alemãs era o francês e a língua poética, o latim. As primeiras obras de Andreas Gryphius – em sua época escolar – também foram escritas no idioma de Virgílio (Herodis Furiae et Rachelis lacrymae, de 1634; Dei Vindicis Impetus et Herodis Interitus, de 1635; Parnassus renovatus, de 1636), ou seja, enquanto na Itália já havia um Petrarca e um Dante Alighieri; na Espanha, um Cervantes; um Ronsard, na França; e em Portugal, Camões já  publicara Os Lusíadas; esse grupo pioneiro teria, pelo menos, o mérito da construção do idioma literário alemão moderno, iniciado por Martinho Lutero com sua tradução da Bíblia. Além dele, obviamente, foi fundamental o papel exercido pelas Sprachgesellschaften[11], cujo modelo foi a florentina Accademia della crusca, que visavam à padronização da língua, sem interferências de palavras estrangeiras, além de uma uniformidade da escrita.[12]

Esse florescimento literário teve lugar na Silésia de onde saíram os maiores expoentes do Seiscentismo alemão: Martin Opitz, Andreas Gryphius, Daniel Czepko, Angelus Silesius (Johannes Scheffler), Christian Hofmann von Hofmanswaldau, Daniel Casper von Lohenstein, Johann Christian Günter e Quirinus Kuhlmann. Muitos podem ter sido os motivos que levaram a Silésia a ter essa característica, como podemos verificar:

 a) Durante séculos, a Silésia foi ocupada e dominada por vários povos. Aproximadamente no século II a.C. foi invadida pelos vândalos; no século X, em meio a uma Europa cristianizada, ainda era uma região habitada por povos pagãos; a partir do século XI foi conquistada pelo duque boêmio Bretislav I; no século XII, passa a pertencer à Polônia e, nesse mesmo período, por volta de 1125, tem início a colonização alemã na região[13]; no século XIII, sob o domínio polonês, há a invasão dos mongóis, levando o rei Henrique II (1238−1242), da Polônia (dinastia dos Piastas), e grande parte de seu exército a perecerem na frente de batalha; entre 1220 e 1270, temos o apogeu da colonização alemã na região; no século XIV, a Silésia é invadida e anexada à Boêmia (1368) por seu rei, Johann von Böhmen,  levando o rei Casimiro III (1333-1370)  da Polônia a cedê-la; no século XV, é conquistada por Matias Corvino (1458-1490), rei da Hungria; no século XVI, passa ao domínio habsburgo até a ascensão da Prússia, que a conquistará em 1742, tornando-a, assim, parte do futuro Segundo Reich alemão sob Guilherme I;

b) A Silésia não contava, naquele momento, com uma Universidade − exceção em todo o Império −, por isso muitos silesianos precisavam dirigir-se ao Akademische Gymnasium, em Danzig, à Universidade de Leyden, na Holanda ou a outras universidades da Europa Ocidental; mantendo, dessa forma, a região sempre bem informada de todas as novidades que aconteciam  nas outras regiões européias[15];

c) A região era uma rota de fuga para um sem-número de seitas, que lá mantinham discussões acirradas, desenvolvendo o espírito crítico de seus participantes;

d) O comércio com a Polônia constituía a principal fonte de prosperidade das cidades silesianas, proporcionando, além disso, um intenso intercâmbio cultural.[16]

e) Por fim, entrecruzavam-se, na região, idéias do ocidente, do oriente, do sul e do norte, tornando e demonstrando ser uma região pluricultural e cosmopolita.

 

 © Prof.  Antônio Jackson de Souza Brandão

 


[1] O colégio Eleitoral ou Kurfürstentag era formado pelos três Arcebispos-Eleitores de Mogúncia, Tréveris e Colônia; o conde Palatino do Reno; o duque da Saxônia; e o eleitor de Brandemburgo, juntamente com o Rei da Boêmia. Cf.:  GREEN, V.H.H. p.  114.

[2] Cf.:  id  ibidem. p.  131.

[3] Cf.:  id  ibidem. p.  131

[4] Designação dada aos mercenários alemães do século XV.

[5] LIMA, Oliveira. p.  395.

[6] Cf.:  GREEN, V.H.H. p.  346.

[7] Cf.:  BOESCH, Bruno.  p.  161.

[8] BENJAMIM, Walter. p.  83.

[9] Id  ibidem. p.  84.

[10] Id ibidem. p.  74.

[11] Sprachgesellschaften: termo cunhado, no século XIX, para designar academias  lingüísticas cujos objetivos eram o estudo e o fomento da própria língua e literatura com o objetivo de inseri-las dentro do contexto literário europeu. Dessa forma, serviam-se de traduções das principais obras das literaturas em língua estrangeira para o alemão, além disso buscavam manter a língua alemã distante da influência de línguas estrangeiras. Inicialmente essas academias somente permitiam a presença de nobres, mas isso foi modificando-se aos poucos e começaram a aceitar eruditos burgueses e literatos. As mais conhecidas Sprachgesellschaften eram: a) Die Fruchtbringende Gesellschaften, fundada em 1617, que tinha entre seus membros: Opitz, Birkenm Gyphius, Logau, Hardörfeer; b) Die Deutschgesinnte Genossenschaft fundada em 1643 por Philipp Von Zesen; c) Der Elbschwanenorden fundada em 1660 por Johann Rist; d) Pegnesische Blumenorden.

[12] Vale ilustrar que tal comportamento também foi semelhante na língua portuguesa como escreveu um especialista espanhol, Manuel Múrias: O fato é que, no século XVII, sob a dominação política e cultural da Espanha, a língua portuguesa se transforma em instrumento perfeito para toda a expressão artística, no que contribui, em particular, o influxo do gongorismo, este foi o grande artífice da língua portuguesa: a agilidade, a agudeza de expressão, a abundância de imagens e metáforas, a flexibilidade sintática, uma nova contribuição de vocábulos latinos e não poucos neologismos castelhanos que lhe enriqueceram o léxico, fizeram do português seiscentista a língua literária por excelência, ‘saindo assim o idioma do Gongorismo um instrumento muito mais polido e ágil do que fora legado pelo século anterior.’ Cf.:  MARTINS, Wilson. pp.   238-239

 [13] Muitos foram os fatores desse avanço rumo ao leste: a explosão demográfica em sua região, a liberdade oferecida pelos príncipes eslavos de que os colonizadores poderiam manter-se sujeitos às leis alemãs, bem como a propagação da fé aos remanescentes pagãos através da construção de monastérios na região, principalmente o dos cistercienses

[15] SZYROCKI, Marian. p.  10.

[16] Id ibidem. p.  10